












|
O conteúdo deste site é propriedade intelectual privada e
toda e qualquer reprodução do mesmo em parte no todo sem a prévia autorização será
considerada violação de direitos autorais e estará sujeita a ação penal. Para
permissão e-mail
Ciência
& Tecnologia
O mundo sucumbiu à ciência -
"meeting the time"
A útima esperança era o jornalismo, não é
mais
por Luís Peazê Publicado em 05//11/2009 08:35
Começando pelo título, o mundo sucumbiu à ciência. E
justamente a única profissão que desde a sua origem teve o salvo conduto para divergir,
desconfiar e investigar todos os ângulos de uma situação de trabalho antes de se
decidir qual o caminho a tomar, a profissão do jornalista, foi corrompida também, o
mundo definitivamente sucumbiu a esta precária representação do conhecimento humano. O
quê?
Sem esgotar comparações, o advogado, por exemplo, teria mais ou menos o mesmo salvo
conduto, mas ele já começa tendo obrigatoriamente que se decidir pelo lado do seu
cliente, então não decide o caminho a tomar pela desconfiança da informação, da
investigação, os ângulos da situação, do contrário no meio do caminho a grande parte
desses profissionais passaria para o ataque ao invés da defesa ou vice versa, seria um
pandemônio, pior do que já existe na intricada capacidade de malabarismo da esfera
jurídica, onde quanto mais dinheiro de um lado da balança, maiores são as chances de
vitória, e o objetivo é a vitória, não é a verdade. Não me ocorre outra profissão
que goze do privilégio do jornalista. Privilégio ignorado. Assim, de cínico, porque se
obriga a ver vários ângulos, procura ver de tudo e mais cedo ou mais tarde verá mesmo,
antes de usufruir daquele privilégio, torna-se pateticamente passivo, e pior, parcial.
A ciência é adotada inexoravelmente como um dos supremos poderes em nossa sociedade, ela
mesma alimenta, fornece subsídios para o outro único poder, o capital, e troca esforços
com este poder para que juntos sejam de fato a supremacia, que os demais pseudopoderes
fiquem submetidos às suas leis, aos seus interesses e é assim que o mundo funciona.
Desnecessário buscar a história para defender esta afirmação, mais desnecessário
ainda rebuscar na arquitetura de texto, é isto o que acontece em nosso mundo e isso afeta
as nossas vidas de modo tão direto quanto é a simplicidade da razão que dita se a
ciência chegou a algum ponto esperado e para qual direção avançar, da mesma forma
acontece com o capital. Para a ciência, vale algo desde que se prove, aos olhos dela
mesma (um absurdo para qualquer filósofo de botequim, um insulto para os verdadeiros
filósofos, obsoletos, uma maldade para o homem comum, e isso não é pouco); para o
capital é mais simples ainda, resume-se em uma única palavra: lucro.
O Dr. Lovelock me disse por telefone, anos atrás que a Terra está buscando o que é
dela, parece que não vai resistir, mas somos nós que não resistiremos se não pararmos
de abusar da sua capacidade de produção, algo assim, e defendeu o uso da energia nuclear
fiquei chocado, confesso, e fui estudar porque não sabia quase nada sobre o
assunto. Complexo. Alistei-me num grupo online gerenciado por cientistas que defendem esta
tese do Dr. Lovelock, para tentar entender o que esta gente pensa, e fiquei mais chocado
ainda, tendo esta ingênua idéia de artigo. Pois me lembrei de outro estudioso
jurássico, o Prof. Aziz Abi Saber, autor da Revanche das Areias e isso me levou a
resgatar uma idéia que tive na adolescência quando resolvi que iria escrever um livro.
Eu tinha um título, só não sabia como desenrolar a narrativa, não sabia nada mais, na
verdade, só sabia que o tempo é uma coisa impalpável que a gente nunca compreenderá,
se compreender, um dia, ele já não será mais útil e, na minha arrogância
juvenil criei o título em inglês mesmo, meeting the time, achei-o bonito
assim e jamais soube eu mesmo traduzi-lo.

Do homem da caverna aos nossos
dias, nosso estômago é o mesmo, mas comemos imensamente mais
Penso que seja como desenrolar uma
bala, a gente põe a guloseima na boca e joga o papelzinho fora, tendo feito uma bolinha
bem miúda entre os dedos, pois assim não pesa na consciência jogá-la em qualquer
lugar. Lixo por lixo, já acabamos de jogar mais de uma colher de açúcar para dentro de
nossas veias, quatro ou cinco diferentes tipos de corantes e substâncias artificiais, já
intoxicamos nosso organismo a tal ponto de todas as suas reações físico-bio-químicas
se desorganizarem, sem falar do que ainda faremos o resto do dia. Mas que nada, a ciência
está aí para descobrir a cura para o câncer, do pâncreas ela já descobriu, trocar o
fígado não é mais mistério, o estômago pode ser diminuído, assuntos triviais da
medicina, uma arte humana que sucumbiu à ciência, espere um pouco: as nossas tripas têm
o mesmo comprimento desde a época das cavernas, quando era preciso gastar muitas calorias
para correr atrás de uma caça para nos alimentarmos? Hoje em dia é só esticar a mão
numa gôndola de supermercado e encher o carrinho o mundo não é avisado disso,
mas comemos imensamente mais do que precisamos. É a ciência, neste caso a sub ciência
da economia de mercado, movida pelo marketing.
Aparentemente é uma derivação no texto, um fio da meada perdido, mas não é não.
Paciência, vamos meeting the time aqui, já que estamos passando alguns
minutos juntos.
Neste sentido o jornalista não passa de uma charge publicada no Jornal do Brasil décadas
atrás, uma cabeça com a boca aberta para cima recebendo uma chuva de letrinhas, os olhos
sem expressão alguma.
Toda a notícia científica, especialmente nos meios de comunicação de massa, é dada,
espetáculo à parte, como um passo importante da sociedade, um potencial de melhoria de
vida para as pessoas. E não se trata apenas do tom com que é dada a notícia, não se
trata de um contexto específico em que ela foi necessariamente inserida. Ocorre mesmo um
fenômeno irreversível, ambos emissor e receptor acreditam no que estão expostos. De um
lado o recipiente da informação disposto, permeável, crédulo à noção de que
olha só a ciência está descobrindo isso, aquilo, aquilo outro. Do outro,
ora, um pobre escravo, sem vontade própria, sem independência alguma.
Raríssimas vezes aquelas descobertas, aquelas notícias, podem ser encontradas no
supermercado ou outro local de sua natureza para usufruto imediato, é sempre para
daqui a algum tempo, ora, a ciência acaba de descobrir, vamos esperar. Quando
chegam às prateleiras, aos hospitais, às fábricas, aí o Capital já terá
roubado a cena e o caso não é mais um caso da ciência, e tampouco é notícia. Pois,
ora, lançamento de produtos são os colegas das relações públicas e publicidade
encarregados de comunicar.
Mas onde está o problema, este artigo tem o tom de ataque à ciência, ao jornalista,
parece o autor um soldadinho de chumbo com o passo trocado convencido de que o batalhão
inteiro está errado.
O problema está em que até a arte, sublime manifestação, a imensa potencialidade
intelectual e de percepção sensorial, da sua alma e de um vasto mundo interior do ser
humano e do resultado da sua existência em conjunto com outros seres humanos e elementos
naturais, sucumbiram implacavelmente também à ciência e ao capital. Tudo gravita abaixo
ou em torno desses dois poderes, a própria religião, desvinculou-se totalmente da sua
ferramenta de trabalho, a crença, e agarrou-se a um desses poderes tão logo ele mostrou
ao mundo que nasceu para mandar em tudo.
Daqui de fora, quando posso sair, é claro, vejo que restou apenas um sobrevivente nestes
escombros, a poesia, e ela talvez traduza meeting the time para a minha
língua.
Luís Peazê, que
já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por
Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade
sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro
www.luispeaze.com/clinicaliteraria


Comentários:
-------------------------------------------------------------- |
|