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triboshowafricatutu.jpg (21222 bytes)Comportamento - Mundo - Esporte
África de Tutu
por Luís Peazê     
Publicado em 11/06/2010 18:15

Os shows, que deram o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, provaram mais uma vez que há poucas manifestações do homem que apreendem e expressam melhor a natureza humana, do que a arte. Dentre elas a música é uma das mais fortes e imediatas, de compreensão ampla. Qualquer um, de qualquer classe social, de qualquer etnia, não resiste, por exemplo, ao ritmo harmônico e criativo de tambores. Some ao cenário uma profusão de cores e dança, é envolvente. Traga para o palco uma coreografia tribal, fica contagiante. Porém, o magnetismo singular de um ser humano iluminado, roubou o espetáculo. Quatro letras e o brilho de um único homem tocando bem fundo no peito de cada um e de toda uma multidão ao mesmo tempo, inclusive via satélite, e com poucas palavras e um sorriso comovente: Tutu.

Estive na África duas vezes. Na primeira eu voltava da Malásia em rota para a Argentina, visitaria uma tribo de índios em Obera, região das Missiones, a 1000 km de Buenos Aires, quase na fronteira com o Brasil, noroeste do Rio Grande do Sul. Meia volta ao mundo, que começara no sul da Austrália, depois ao norte, pela Grande Barreira de Corais e em Thursday Island, já na beirada de Papua-Nova Guiné. Isto é, fui exposto num espaço de tempo não muito longo a uma boa dose de mistura visual de culturas, considerando que a área do norte do continente australiano e países vizinhos é conhecida como Australasia. Mas a chegada em solo africano foi a mais marcante, num aspecto. Senti uma energia inexplicável e diferente de todos os outros lugares.

triboshowafrica2.jpg (49586 bytes)A segunda vez na África, foi em março último, fui ao Quênia, tendo passado um dia em Paris, por questões que não vêem ao caso aqui, e, novamente, ao sair do Brasil, digo, do Rio de Janeiro, tendo vivido na Bahia até o final do ano passado, novamente, eu acabara de vivenciar em pouco tempo diferentes microcosmos. Os rostos das pessoas nas ruas, nos ambiente públicos, o funcionamento dos sistemas mais banais, como tomar um ônibus, ou até mesmo atravessar uma avenida, tudo se difere e se assemelha. Por um prisma, o homem se repete, não importa em que parte do mundo você está. Por outro, ele se reinventa, da mesma forma, e de modos estranhos, estado para estado, de país para país, de continente para continente, acima e abaixo do equador. A África, contudo, para mim, parece guardar o mistério dos mistérios. Do simples fato de se estar em seu solo, sente-se imanar uma magia inexplicável, quase palpável.

Nas duas vezes em que estive na África senti a mesma impressão, de que até o silêncio africano percute fundo na alma da gente. Desconfio que todos os vocábulos dos mil dialetos africanos foram construídos ao som de tambores, são todos bilabiais, feitos para ribombar significados. Sobretudo a África é rica em combinação de cores. Mas o curioso foi constatar que a maioria dos adereços femininos, por exemplo, são apenas bicolores. Aqueles vestidos, os turbantes e lenços, na maioria, são de apenas duas cores, cada um. É a combinação dos mesmos, e a originalidade de cada mulher ao escolhê-los é que cria o mosaico colorido, multicolor, pois elas andam sempre em grupo. E sorrindo por qualquer pretexto. Um sorriso, diga-se de passagem, que parece nascer no coração incandescente e brilhante do próprio sol, que parece ter escolhido as savanas africanas para dormir. Talvez seja por isso que à noite na África faz tanto frio, em qualquer época do ano.

Quem não assistiu à abertura da Copa do Mundo de Futebol de 2010 na África, pela televisão ou ao vivo, não saberá avaliar ao que me refiro, porque eu não também saberia demonstrar com palavras, tudo o que senti mais uma vez em contato com a África. Mas acho que o mundo passará a ver a África com outros olhos, daqui para frente.

Se isso realmente acontecer, passaremos a redescobrir nossas origens, talvez a rosa dos ventos vire sua seta para o rumo de um lugar remoto, em que um certo dia o pedaço único de terra gerou cada um de nós. Percebi isso no sorriso infantil de Desmond Tutu. Talvez eu estivesse enfeitiçado, ouvindo a voz da África.

- Estou sonhando. Estou sonhando. Estou sonhando - gritava com alegria e com as mãos cobrindo os olhos, o arcebispo Desmond Tutu.

Leia também:

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por Luís Peazê     
Publicado em 20/05/2010 10:15


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