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e-business Comportamento
O que essas senhoras andam fazendo na Internet
As empresas reais perderam o
pudor, as virtuais nasceram sem ele
por Luís Peazê Publicado em 05/11/2009 08:35
A evolução de uma empresa tinha as características da evolução
de uma mulher, isso foi o que eu ouvi num certo final de dia de trabalho, na década de
1980. Bati o cartão (era o tempo do cartão de ponto) às pressas e peguei um ônibus no
Largo do Machado para ir ao auditório do Jornal do Brasil, ali no começo da Av. Brasil
(antes do advento das balas perdidas), para assistir uma palestra do Professor Marcos
Cobra, então um cobra da Administração de Empresas, professor da PUC.
O calor, a sala empoeirada, a luz amarelada aumentando o desconforto do
cansaço e ambiente desfavorável para o exercício intelectual de apredizagem, nada disso
foi capaz de impedir a atenção total na palestra espetacular, onde cada palavra unia-se
à próxima, certeira no tom e velocidade, onde os argumentos e avalanche de informação
eram estimulantes.
Com o tempo, quase tudo o que ouvi misturou-se ao meu cabedal (que
palavrão!) de conhecimento sobre "business management" (hoje em dia pega bem
soltar de cinco em cinco minutos uma terminologia em inglês), mas essa metáfora eu nunca
esqueci daquele dia e sempre faço questão de citar o autor, o Prof. Cobra: que as
empresas se desenvolvem tal como uma mulher:
Como debutantes, ainda delgadas, são ágeis, umas têm ímpetos
aventurescos, outras disfarçam a sua coragem fazendo o famoso charme de dizer
"não" quando querem dizer "sim, mais, mais, tudo de uma vez só". E
as empresas, como as mulheres, mudam espantosamente de ano pra ano. Sem desgastar muito as
inúmeras possibilidades dessa metáfora, elas são tempestivas, emocionalmente
tempestivas, e se desarrumam com incrível facilidade, susceptíveis à volúpia ou à
crise.
Erra quem pensa que uma empresa se assemelha com o comportamento
estereotipado masculino e sua virilidade, sua objetividade e sua tendência à guerra e a
ganhar tudo na base da porrada. É certo que seus órgãos internos são cerebrais, como o
homem, como um primata, um bicho. Mas no todo, por fora e a sua psique, a da empresa, se
assemelha(va) com uma mulher, sem tirar nem por.

Ao final da palestra o Prof. Cobra desenhou com palavras uma "empresa
senhora" já avançada na idade, matriarca, e não houve (até hoje, para mim) como
discordar: seus movimentos da recepção à expedição são lentos e cautelosos, medidos,
talhados por décadas de experiência, e experiência é uma coisa que mulher nenhuma joga
fora; com o tempo a empresa consolida a sua personalidade, manias, biotipo, etc, e não
adianta alquém querer mudar o seu comportamento, não adianta dieta ou dietética, não
adianta repaginar o seu guarda-roupas, fazer plástica, infiltrar Butox (atenção, isso
é uma marca, e é oriunda da substância que provoca uma doença, o butolismo, daí
butox, mas isso é outra história), uma empresa segue seus passos conforme as
suas características originais e todas as novidades, depois de uma certa idade,
são encaradas com cautela.
Quer dizer, seguia. Hoje em dia, a lavra de gerentes produzidos feito
pãozinho de padaria, a profusão de transplante e lipoaspiração de órgãos internos
das empresas e a terceirização (outsourcing & subcontract) destróem a metáfora do
Prof. Cobra, infelizmente. E das empresas virtuais, o que dizer?
As empresas virtuais, e com elas aquelas tradicionais que passaram
a dedicar grande esforço operacional e de venda via Internet, nunca se assemelharam com
uma mulher, são, neste sentido, uma coisa indefinível.
De
modo que é possível o seguinte silogismo: se as empresas reais perderam o pudor, as
virtuais já nascem sem ele. Para começar, assim como seus nomes (no estado da Bahia ou em qualquer
subúrbio do Rio é fácil encontrar uma empresa menina com o nome Kaitryn, com
"y" viu, mas se lê "i", assim oh, queitrin"), seus paradeiros
(endereços) são confusos (pra não dizer outra coisa), incertos; confiar numa mulher
dessas, digo, empresa virtual, nem pensar antes de passá-la por um questionário (na base
do "blind test", bem entendido) e alguns procedimentos básicos e obrigatórios
de investigação, só depois cair em seus braços, ou melhor, 'ficar" com ela, pois
a troca hoje em dia na Internet é um comportamento socialmente (em rede) aceitável,
normal.
Aliás, você não precisa nem ficar, basta passar a mão, adicionar um
"tag" dela em você e pronto, deste modo (humanamente inimaginável da década
de 1980 para trás) você pode desfrutar de sua companhia até quando estiver off line,
você pode gozar de seus atributos até sem saber, através de terceiros, quartos, de
milhões de outros parceiros, todos desconhecidos.
E esse ser feminino etéreo, que são as empresas virtuais, além de não
ter nada parecido com a metáfora do Prof. Cobra, ainda exerce sobre você um poder
sobrehumano (um poder chamado "web metrics"): este novo tipo de empresa sabe
tudo sobre você, seu comportamento diante dela, seus desejos mais enrustidos, ela grava
seus passos, seus movimentos e passa a antever o que você mesmo ainda não sabe o que vai
fazer, e te oferece aquilo que você vai aceitar feito um automato, é, você é que vira
um automato nas suas garras.
Sem falar que você nunca ficará a sós com essa nova "mulher",
ela sempre estará (aquelas que se prezam, e quase todas se prezam) com o seu
"personal trainner", o CEO, um gigolô, assunto da próxima crônica.


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