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setinha down.JPG (713 bytes)Entretenimento - Comportamento
A peça e o público
Sade em Sodoma

por Luís Peazê      Publicado em 28/05/2010 17:10

ALERTA: se você não sabe quem foi o Marquês de Sade, prepare-se para sentir todos os seus mais recônditos pudores desarrolhados, ou não leia esta crônica. Se você conhece, e tem repugnância para tudo o que as palavras Sade e Sodoma lhe trazem à memória, pare aqui. Depois não adianta reclamar deste observador.

Trata-se da peça Sade em Sodoma. Uma adaptação teatral do livro de Flávio Braga, homônio da obra de Marquês de Sade, 120 dias de Sodoma, narrativa fortemente escatológica. Dois personagens principais, assessorados por dois coadjuvantes, relatam para um escritor, o próprio Marquês de Sade (representado pelo público da peça), o que se passa entre um pequeno grupo da nobreza, padres inclusos, em 120 dias de orgia carnal com requintes de barbárie e, claro, sadismo.

E o escritor privilegiado, desta quinta-feira 27 (maio, 2010) no Teatro de Arena (Caixa Cultural, Rio de Janeiro) fui eu, com mais uma centena de outros escritores privilegiados, o respeitável público, por que, como diz o lugar comum, de escritor e de louco todos tempos um pouco, não temos?

Não é o lugar, é o ditado, não é de escritor, é de médico, que todos temos um pouco, assim como temos também um pouco de sádicos. O quê?

- Eu não – gritam uns, em silêncio na platéia. Outros protestam em segredo:

- Ele é um sádico enrustido, nunca me enganou. Seu pervertido... – Outros refletem sobre a mulher ao lado, que sorri:

- Sua depravada, tem cara mesmo de quem gosta de apanhar... – Como também é possível que na platéia tenha alguém excitado de verdade, com os atores, por exemplo...

Um homem, completamente à vontade com os sadismos extraviados ao alcance da imaginação de todos, gargalhava, se deliciava, talvez dizendo para os demais: - eu sou liberal, meio libertino, meio que aceito tudo isso, para mim isso tudo é normal. Numa das vezes em que ouvi o sujeito rir a toda altura, desenhei um quadro no escuro da minha imaginação: de repente os atores param e se voltam diretamente para o ele, o resto do público também e ele, de fato, como diz o texto da peça que lhe fez rir, está como aquele padre hipotético de uma história remota da França do século XVIII, pedindo para a virgem defecar-lhe na cara, antes de ser deflorada, mastigando aquela merda toda, degustando prazerosamente e em seguida regurgitando em meio a uma ejaculação nas próprias pernas.

Ninguém fica nu, mas a penetração dupla é constante, dura e funda, através de dois longos monólogos que se completam. A peça não tem altos e baixos, é crescente continuamente, quer dizer, inicia em alto nível discursivo, situa o enredo no tempo e espaço encaminhando-se libidinosa e vertiginosamente até o mais fundo inferno carnal. O ambiente sonoro não poderia ser outro, é nervoso. Porém, amigo pela confusão intencional de um tango em Paris.

Uma reprodução adaptada e reduzida do texto de Flávio Braga, que por sua vez desnuda o romance de Sade, onde nobres devassos abusam de crianças raptadas encerradas num castelo de luxo, num clima de crescente violência, mutilações e assassinados bárbaros, após um coquetel de coprofagia e parafilia.

Calma, deixe a castidade do Google em paz, coprofagia è a ingestão de fezes na busca do prazer sexual. Isto tudo no clero, da época, minha gente. Parafilia? Quer checar se tem alguma inclinação? É um padrão de comportamento sexual onde o prazer não se encontra na cópula, mas em alguma ação externa paralela. Então, vai uma parafiliazinha aí?

E havia um penetra na peça, digo, na platéia, não era escritor, não era ator, era o pai de uma das atrizes que aparece, em dado momento, com o ânus a vista, isto é, escondido apenas pela manobra espontânea e natural das nádegas. Ora, disfarçada a curva lombar acima dos glúteos, as dobrinhas inferiores na altura posterior das cochas e as curvas laterais cobertas por um vestido de noiva, uma bunda não passa de uma fenda de carnes tenras, que mais parecem duas enormes bochechas e tudo o mais fica apenas na nossa imaginação. Ou seja, a bunda está ali, parcialmente nua, o ânus guardado por uma espécie de pálpebra anal, mas não vemos uma bunda.

Guta Stresser, interpretando Madame Duclos, prostituta filha de uma empregada sado explorada por padres, está exuberante. Consegue alternar sensualidade com erotismo, depravação chocante com um apurado golpe de tragicomédia. Aliás, a espevitada Guta “Bebel” da Grande Família, não chega a encarnar na Guta “Puta” de Sade em Sodoma, pujante soma de seu humor permitido para menores de 18 é com esta bela surpresa: com drama e riso, se fez a atriz completa. Mereceu a dúzia de rosas que lhe entreguei imaginariamente no camarim, onde ela recebeu meus parabéns enrolada em uma toalha qualquer e o cabelo molhado, recém saída do banho – esta parte é memoravelmente verdadeira. Por favor, Guta, dê um rosa para cada um dos seus companheiros de palco e bastidores, equipe enorme para ser citada na íntegra, enquanto ainda guardo o seu hálito na minha retina.

Acima de tudo, os atores, diretor, produção, direção de retaguarda, todos estão impecáveis em Sade em Sodoma, numa sala de teatro honesta, numa noite de temperatura aprazível, típica de inverno precoce carioca. Uma hora de lavagem da alma, sim, considerando que ao sair da peça eu me senti potencialmente puro.

Enquanto isso, a 100 metros dali algumas figuras palacianas obscenas discursavam na reabertura do monumental Teatro Municipal. Um verdadeiro antro de beleza, luxo e riqueza cultural. A corte decadente, a ópera de sempre.

Noite perfeita, na companhia de amigos, complementada com um frango a passarinho regado a vinho, comentando a peça e a exposição de fotos da imprensa internacional que a gente pode desfrutar no saguão de espera do Teatro da Caixa. Horripilante.

Plagio a doce Guta, que diz no prospecto (imperdível) de introdução da peça: será que eu poderia viver sem isso?

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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