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Esporte Comportamento
Seu Juiz!
O estará ofuscando a importância do Juiz de futebol dentro de
campo?
por Luís Peazê Publicado em 14/11/2009 08:35
Uma
vez eu estava machucado, não podia jogar, e me convidaram para apitar. Antes do final do
primeiro tempo eu já estava querendo entregar o apito para nunca mais na vida ser juiz de
futebol. Lembro bem, eu corria em diagonal no campo para me posicionar sempre o mais
próximo possível das jogadas e ver de perto, para poder julgar, e quando me aproximava
da linha lateral gritava para alguém: - aí, não tá dando, alguém pega o apito pra
mim! Como ninguém demonstrava interesse, quando eu podia chegar perto do banco de
reservas de um dos times eu gritava: - aí, vou sair, não tá dando, isso não é pra
mim, vou jogar o apito pra cima e vocês que se virem para ouvir um apelo, e
elogios rasgados, para eu ficar pelo menos até o primeiro tempo terminar.
Não
é concebível uma partida de futebol sem juiz. Mesmo em pelada há o juiz, às vezes ele
é o dono da bola, das camisetas, aquele que pagou o aluguel do campo, está jogando
também e grita mais alto, sempre haverá o juiz. E raramente ele será um bom juiz. No
máximo será apenas um juiz que apitou bem.
O
fato é que, se com juiz é ruim, ô raça essa, sem ele é pior. Mas você sabe de algum
jogo de futebol em que os comentaristas e torcedores saíram do estádio elogiando o juiz,
satisfeitos, maravilhados, querendo comprar uma camiseta do juiz na primeira loja de
material esportivo que encontraram? Você já viu alguém numa segunda-feira pegar o
ônibus para o trabalho vestido de juiz, ou mesmo com uma bandeirinha de auxiliar de juiz
na mão? Você conhece alguém que torce para juiz? Tem notícia de algum fã clube na
internet para algum juiz de futebol? Aonde, aonde, me passa o url, deve ser uma raridade,
mas não vale se for a mãe ou filha dele ou ele mesmo quem criou o fã clube no Twitter
ou no seu blog.
Convenhamos,
é uma atividade difícil, é uma tarefa que demanda além de competência, um inumerável
rol de qualidades, vejamos: personalidade, é indispensável, do contrário a primeira
ofensa que ele receberá será com relação a sua preferência sexual, que não tem nada
a ver gente; vigor físico, não só para correr os noventa minutos e não deixar a
oxigenação do cérebro turvar-lhe a capacidade de raciocínio, como também para impor
um certo respeito; não que tamanho seja documento, pois eu cansei de ver Armando Marques
dando peitada em muito zagueiro macho e sair ganhando; reflexo e capacidade de julgamento
infalíveis, ou seja, para ser juiz o sujeito tem que ser não só um atleta mas um ser
humano perfeito. Não se esgotam as demandas de virtudes que um juiz de futebol deve ter.

Mas,
após essa sequência de erros e afastamento de juízes do campeonato brasileiro de
futebol, me dei conta de que há muito tempo não vejo um juiz de futebol no início da
partida chamar os dois capitães e conversar com eles, fazer o que, no meu tempo (das
chuteiras de travas de prego e couro), era um momento inclusive imperdível nas partidas
de futebol. Era uma oportunidade rara para o Juiz, com letra maiúscula, estabelecer o tom
da partida, com respeito ao cumprimento das regras e ânimo da competição. Acontecia
também desse mesmo Juiz, interromper uma partida de futebol, chamar os dois capitães e
restabelecer as coisas dentro de campo, e vamos jogar bola, porque, já avisei, reclamou
vai pra rua. E a gente abordava o juiz assim oh: Seu juiz! Mas seu juiz, não foi mão,
seu juiz! Foi jogo de corpo, seu juiz! Foi por cima da bola, seu juiz! E por aí afora,
sempre com as mãozinhas para trás em sinal de respeito, senão ia pra rua mesmo.
Será
que atualmente, neste multimilionário mundo do futebol, os mega contratos de jogadores,
mais o brilho das câmeras de televisão e teleobjetivas ofuscaram a importância da
responsabilidade do juiz de futebol a tal ponto que ele mesmo perdeu a noção da sua
importância dentro de campo?
Luís Peazê, que já jogou
bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos
Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária Consultoria e
Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade sem fins
lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria

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