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 Jornalismo
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Estaria acontecendo isso
no Jornalismo também?
Seriam os políticos ventríloquos das empresas?
por Luís Peazê Publicado em 26//11/2009 09:05
Matéria do New York Times de 14 de novembro último e seu editorial
do dia 16 revelam o que muitos de nós já sabemos, mas muito mais gente não tem a menor
noção e o pior é que isso afeta malignamente a vida de todos nós, a curto, médio e
longo prazos. Lobistas da indústria farmacêutica são ghostwriters de
declarações de legisladores que defendem leis que beneficiam esta indústria das drogas.
Estaria esse vírus espalhando-se pelo jornalismo?
Embora romanticamente a profissão do relações públicas seja inferior a do jornalista,
quando aquela é desempenhada nas grandes esferas esta última torna-se algo comparado a
um animalzinho de estimação, severamente domesticado, guiada nos mínimos detalhes.
Não
bastasse o poder de fogo das contas publicitárias que limitam a liberdade de imprensa
de uma vez por todas, aceitemos isso, fica mais fácil quando a gente relaxa
o relações públicas parece não dar mais conta da sua capacidade de influenciar a
opinião pública, em detrimento da vocação do seu colega, o jornalista, que seria
verdadeiramente o porta voz imparcial do público em geral, incluídos aí indivíduos e
entidades, privadas e governamentais. Cuidado coleguinha quando olhar com desdém para o
engravatado ao lado tomando cafezinho e que trabalha para uma agência de comunicação
(nome genérico dos escritórios de relações públicas) ou firma de advocacia (de grande
porte), não só a sua pauta, mas o seu texto e até mesmo o seu histrionismo diante das
câmeras podem estar sendo no mínimo sombreados, e não é com o manto Salomônico
dourado que cobre os campos de trigo, trata-se de um manto escorregadio e letalmente
viral.
A questão demanda vários ângulos de abordagem jornalística, e várias especialidades
também. Comecemos pelo jornalismo investigativo, já que a discussão científica do
jornalismo (no Brasil) entrou na menopausa antes de ovular pela primeira vez (infelizmente
é insípida, pra não dizer mais nada), atenção, não me refiro ao jornalismo
científico, que, a propósito é uma das especialidades que o assunto em pauta demanda
engajamento, embora este seja o ramo do jornalismo que mais macaqueia os textos prontos
das relações públicas investigar esse negócio complicado para quê? Se está
tudo pronto, é só editar, cortar para caber no formato? Parece que é isso que ocorre.
O jornalismo criminal também, o colunismo social (se é que é coisa para jornalista
sério), talvez somente o jornalismo esportivo fique fora desta seara, mas pensando bem,
se colocarmos em perspectiva a questão do doping e do sofisticado aparato médico que
circula em torno dos atletas hoje em dia (ah se o Garrincha fosse vivo), seria o caso de
imaginarmos um batalhão de choque de jornalistas encarregados de destrinchar (ou
destrincheirar?) o que realmente faz com que as lei decidam a nossa saúde (O que é isso
Peazê? As leis decidem a nossa saúde? - Decidem, mas o editor de qualquer jornal
brasileiro cortaria o que é isso Peazê).
O repórter Robert Pear do New York Times obteve cópias
de e-mails de lobistas (um deles empregado de uma poderosa firma de advocacia, outro de
uma das maiores firmas americanas de lobby, a Sonnenschein Nath & Rosenthal, por aí
afora) e juntou o quebra-cabeças revelando as declarações de expoentes legisladores
(políticos!) de ambos os partidos, Republicanos e Democratas (curiosamente tratados em
conjunto nos corredores do Capitol Hill, carinhosamente dito apenas Hill, de Rs & Ds,
que não tem nada a ver com Resources/Recursos & Develomenpts/Desenvolvimento, mas que
infere a mesma coisa infere). Declarações estas que definem disposições
relativas às drogas produzidas pela indústria de biotecnologia. Disposições estas, por
exemplo, permitiriam a concorrência dos genéricos aos caros medicamentos biológicos,
mas só depois de o fabricante original ter sido beneficiado com 12 anos de uso exclusivo,
um prazo generoso para qualquer padrão. Traduzido da reportagem do Robert Pear
(tradução de textos jornalísticos pela Clínica Literária).
O grande prêmio da bestialidade
A reportagem e subsequentemente o editorial citam uma fartura de nomes de congressistas,
dos dois partidos, e de lobistas, e concentram, sintomaticamente, o foco somente na
empresa Genentech, cujos tentáculos o New York Times não divulga.
A
Genentech é a maior indústria de biotecnologia (sediada a poucos blocos da Union Street,
em San Francisco onde Janis Joplin deu-se as primeiras espetadas sentada num meio-fio)
dona da gigante farmacêutica Roche que
por sua vez tem as suas ações controladas pelo J.P. Morgan Chase
(algumas migalhas dessa ramificação de capitais são pulverizadas nos bancos acadêmicos
do mundo todo que por sua vez fomentam/orientam as teses de mestrado e doutorado em
várias áreas do conhecimento humano isto é, sobra pouco espaço para a
criatividade). Estes dados e muitos outros que não cabem neste artigo foram obtidos sem
grande esforço na Internet, lendo e analisando os web sites das empresas e nomes citados
na reportagem do NYT.

O que se quer é dar um boa notícia, ou que seja uma má notícia desde que seja
verdadeira, como se aprende na faculdade, como reza a colação de grau, como querem os
defensores do registro da profissão de jornalista somente com a apresentação do diploma
(cuja balela não foi votada esta semana no congresso porque o congressista responsável
não estava em plenário), então fica em suspenso as perguntas:
Se a força das relações públicas está influenciando congressistas americanos, estaria
influenciando também os brasileiros (note bem, relações públicas é como diplomata,
tem trânsito transfronteiriço meio livre)?
Estariam os jornalistas, não só brasileiros, sendo influenciados, ou dopados a ponto de
não traduzirem completamente o que se passa nos bastidores dos processos de decisão que
afetam a vida de todos nós?
Enquanto as respostas não são dadas, a indústria dos diagnósticos prospera, na pista
ao lado cabeça com cabeça a indústria farmacêutica, um palmo atrás avança
perigosamente a indústria de alimentos e a indústria das guloseimas (uma classificação
não só de mercado, mas de implicações que merecem atenção específica da ANVISA
diferenciada da indústria de alimentos e bebidas, pano pra manga), no segundo páreo,
não menos impactante, a barbada da indústria da telefonia, turbinada pela Internet,
larga na frente, sempre, deixando a manca vida sustentável sobre este planeta a ver
navios, um grande prêmio bestializando a platéia.
Luís Peazê, que
já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por
Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade
sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro
www.luispeaze.com/brcostal

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