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Jornalismo
- Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento
Jornalismo
O que é isso? No
Japão não existe. E no Brasil?
por Luís
Pleazê - 07/03/2010 13:30
O
que dizem os trezentos e poucos pesquisadores em jornalismo da SBPJor Associação
Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (eu sei, a sigla não bate) sobre um registro do
mestre Houaiss:...o teor das declarações do cientista tende mais para o jornalismo
do que para a ciência.; inferindo anteriormente ...jornalismo, abordagem
superficial de um tema, menos interessada a esclarecê-lo do que em agradar o gosto e os
interesses populares que estão na moda.?
Fica
em aberto a questão, como, aliás, parece estar aberta ao redor do mundo, pelo que
responderam os mais de 400 jornalistas que têm participado, ao longo dos últimos 25
anos, do Programa de Bolsa do Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo - IRSJ, um
centro de pesquisa baseado na Universidade de Oxford (Inglaterra) e patrocinado pela
ThomsonReuters, recentemente tornada a maior agência de notícias e informações
empresariais do mundo.
Um
jornalista japonês (o nome não é revelado pelo IRSJ) respondeu que não existe na
língua japonesa uma palavra equivalente para jornalismo, então o Japão importou apenas
a pronúncia, que ficou ja-narizumu, sendo mal interpretada como algo
sofisticado e, de alguma forma, com o significado afastado da notícia.
Seguramente,
além de não compreenderem o que é jornalismo, os japoneses complicam ainda mais a
explicação para o quê importaram mas exportam fotojornalismo, o melhor do mundo,
pelo menos em equipamento.
O IRSJ pergunta
para cada jornalista que passa pelo seu Programa de Bolsa se há uma definição rápida
de jornalismo aceita no seu país e qual, na sua opinião, o maior desafio que
isto (seja lá o que for) está enfrentando.
De um brasileiro
não identificado ficou registrada a seguinte pérola: No Brasil o jornalismo
tem se tornado menos analítico e investigativo nos últimos dez anos, e passou a
significar essencialmente o relato da realidade. Nas redações atualmente no Brasil,
normalmente não há discussões, planejamento e avaliações de artigos. A pesquisa para
novas abordagens é rara. A velha idéia de jornalismo como mera redação de textos
continua reinando. O maior desafio é a motivação do jornalista para pesquisar,
analisar, avaliar seu próprio trabalho, para crescer intelectual e culturalmente e
adquirir uma visão global.
É
interessante a resposta de um neozelandês em contraste com a de um egípcio, que deixa
evidente como a condição de uma região do planeta, em permanente ebulição e conflitos
ou não, influi no que seja, e o que desafia o jornalismo; interessantes também são as
respostas diferentes de dois americanos sobre o que eles praticam e
influenciam (anote aí!) não só os calouros aqui no Brasil e pelo mundo afora, mas os
jornalistas a pleno vapor na profissão também.
Uma
pausa para atacar outro assunto:
A Reconstrução do Jornalismo Americano (The
Reconstruction of American Journalism)
Repetindo
o que acontece na vida real do jornalismo, o abandono da notícia que parecia ser o fato
mais importante do momento, para, tempestivamente dar a manchete de uma catástrofe, ou de
um novo escândalo, caio no mesmo pecado aqui neste artigo ao chamar a atenção sobre o
clamor vigente entre os profissionais das pretinhas, das latinhas e das telinhas: o que
será de todos nós, para onde vai esta coisa, quem deve mandar em quem, alguém deve
controlar, e o dinheiro, há ou não dinheiro no negócio de notícia e informação
impressa e eletrônica, afinal a Internet é bandido ou mocinho?
Nunca
o jornalista perguntou tanto sobre si mesmo.
No
relatório A Reconstrução do Jornalismo Americano
(2009), o Professor Michael Schudson da Universidade Columbia clama por uma série de
medidas para preservar a integridade da imprensa americana. Esse relatório, que
também leva a assinatura de Leonard Downie Junior, Vice-Presidente do Washington Post,
faz uma longa análise histórica da imprensa nos Estados Unidos (das últimas décadas),
destacando a proliferação de pequenos veículos locais (e suas fragilidades financeiras
e artifícios para sobreviverem) e da crescente penetração da Internet, e aponta para
seis saídas necessárias.
Sempre
foi no mínimo controversa a idéia de que tudo o que é bom para o americano também é
bom para o brasileiro, embora invariavelmente acabemos aderindo ao mesmo remédio, mais
cedo ou mais tarde, deste modo, no momento em que os cânones do jornalismo brasileiro se
debatem sobre um novo modelo de imprensa, envolvendo desde as estruturas mais elementares
das empresas do ramo até as questões patronais e de cunho constitucional, como a
liberdade de expressão, é pelo menos pertinente observar de perto esse tal relatório de
reconstrução. Vamos lá:
1)
Mudança no sistema tributário para tornar mais fácil às empresas de notícia e
informação converterem-se em organizações sem fins lucrativos, ou tornarem-se empresas
com lucro e responsabilidade fiscal limitadas; 2) investimentos significantes para
reportagens da NPR (Radio Pública Nacional) e suas afiliadas; 3) incremento de suporte
filantrópico para organizações que noticiam prestações de contas locais; 4) novas
iniciativas pelas universidades para produzirem mudanças e fornecerem reportagens
diretamente aos canais tradicionais de comunicação; 5) o desenvolvimento de bancos de
informações mais acessíveis e mais completos para o público; e 6) a instituição pelo
governo federal de um fundo de suporte direto para inovações para informação e
notícias locais.
É
óbvio que estão vaiando sem parar o item seis, exaustivamente explicado e defendido
pelos autores do relatório, e é óbvio que no Brasil todas as recomendações teriam que
ser substancialmente adaptadas, mas, por incrível que pareça, todos os pontos acima
estão em franca discussão na América.
Mídia Alternativa Progressista outra
coqueluche
Não
é por acaso que o assunto mídia alternativa progressista está em voga por lá. Outra
coqueluche. Há inclusive, na blogosfera, uma enxurrada de debates sobre o significado de
progressista, diálogos (seriam chats?) equivocados que confundem a noção de
progressivo com a de progresso (talvez não conheçam o simpático Professor Edgar Morin),
deixando aquele japonês do ja-narizumu a milhas de distância em termos de
confusão etimológica e semiótica.
Sugiro
que isso (a profusão de informação e opinião na Internet) seja considerado um
jornalismo underground renascido, apenas ele não está mais nos subterrâneos, não é
mais marrom, surfa e navega à vista, irresponsavelmente, à velocidade de uma foto de
telefone móvel e vídeos caseiros online. Tracy Van Slyke, uma das fundadoras do
Consórcio de Mídia Alternativa (EUA) não me deixa informar sozinho, lembra que após a
Internet mais vídeos amadores informativos foram produzidos e publicados na grande rede
do que toda a televisão propagou em sua septuagenária existência.
Vou
mais longe: aqueles que insistem em discutir a relevância do jornalismo tradicional sobre
as novidades da Internet falam com um cadáver entre os dentes. Ora, um está
influenciando (e macaqueia) o outro e vice-versa. O importante é detectar quem desenvolve
mais inteligência e poder (informação + capital = tecnologia) para fazer-se ecoar acima
do enorme ruído da sociedade bestializada, movida pela escalada desenfreada de consumo de
novidades desnecessárias alimentada pela própria mídia.
Enquanto
isso, as poucas grandes agências de notícias e empresas do ramo faturam bilhões de
dólares, a ponto de, li no contrato de trabalho do CEO do braço jornal do
grupo News Corp (FOX e outros gigantes da mídia), David F. DeVoe receber um salário base
anual de US$2.503.750,00 mais benefícios (imagine todos os benefícios que um alto
executivo pode ter e acrescente bem mais). Sem falar que o maior faturamento dessas
empresas não vem da notícia para o grande público, mas do fornecimento de informações
vitais de mercado para os mais variados segmentos, não ingenuamente subdivididos dentre
apenas duas categorias, financeira e ciência & saúde. Isso é um percentual
razoável da definição de jornalismo, atualmente.
Concluindo
as respostas daqueles americanos sobre o que é jornalismo, um resumiu a coisa, após
criticar a existência de falsos jornalistas na Internet e aceitação festiva do
público, informando que não há uma definição única e rápida nos Estados Unidos. O
outro foi mais prolixo: há duas definições de jornalismo, na América. A dos
jornalistas, envolvendo integridade, objetividade, rigor, etc; e a definição dos
críticos da mídia, aquelas pessoas que pensam que a mídia hegemônica (MSM = mainstream
media) falhou nos Estados Unidos. Esses são de esquerda e de direita. Os de esquerda
dizem que a MSM falhou ao deixar de capturar a vida do americano comum (dos lavadores de
prato a outros trabalhadores); os de direita dizem que a MSM é cínica, e
provavelmente é. A maioria dos jornalistas da MSM tem educação superior acima da média
e são liberais. O desafio está em resolver como os jornalistas podem continuar
trabalhando para publicações (incluindo websites) orientadas para o lucro, enfrentando a
competição desses críticos da mídia que criam os seus próprios veículos numa versão
bowdlerizada1 do jornalismo. É mais uma questão de prática corporativa do
que de prática de jornalismo e finaliza o americano verboso: os donos do dinheiro
devem escolher o seu lado, os jornalistas estão se adaptando, mas não podem comprometer
seus valores por muito tempo.
1 Um professor inglês maluco do século XIX,
chamado T. Bowdler criou uma versão infantil de Shakespeare castrando tudo o que achou
que seria profano ou imoral da obra, de modo tão radical que uma peça inteira foi
excluída de seu repertório por achá-la totalmente indecente, a crítica da época
desceu-lhe o porrete e cunhou o termo bowdlerization.
Luís Peazê, que já jogou
bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos
Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária Consultoria e
Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade sem fins
lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/brcostal
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