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peazepalhaco.jpg (46208 bytes)Jornalismo & Medicina - Medicina & Jornalismo
A barrigada dos palhaços: notícias sobre hipertensão

por Luís Peazê   Publicado originariamente no site Comunique-se em 27/04/2010 12:50

Peazê brincando de palhaço na abertura da Jornada Literária de Passo Fundo

Na investigação de um fato é mandatório o jornalista obter informação de pelo menos duas fontes. Básico. Na investigação de uma notícia não necessariamente factual, a coisa é mais volátil, e, buscar informação em duas fontes pode encobrir o fato de que o jornalista está na verdade pegando a mesma informação reforçada por uma fonte de mesma opinião, nada mais. Neste caso ele corre o risco da barrigada, e um picadeiro fértil para isso é o da ciência e outros assuntos que demandam um pouco mais de esforço do profissional do bloquinho e da caneta. Está aí a enxurrada na mídia brasileira provocada por palhaços, desta semana de 25 de abril de 2010, com notícias desastrosas sobre hipertensão.

O filme é o de sempre, os principais culpados não são necessariamente os repórteres, são os chefes de redação e os editores, que teoricamente têm mais condições de olhar a vastidão do mundo de sobre uma grua lá no andar mais acima. E não olham.

Hoje tem marmelada, tem sim senhor
Morgan Spurlock, diretor de cinema e ator em seu próprio filme SuperSize Me (que no Brasil recebeu o sub título de A Dieta do Palhaço), produziu um estudo de caso interessante sobre hipertensão, e principalmente dietética. Alimentou-se exclusivamente de produtos McDonald durante um mês. Antes da experiência masoquista, assim definida por ele mesmo, estava em perfeitas condições de saúde, passou por exames médicos e sua pressão era normal. Já nos primeiros 15 dias sua pressão era 14 por 9,5. No final dos 30 dias foi a 160 por 95 e 100.

Se o Spurlock tivesse ido a um médico, depois daquela loucura, mas não dissesse que era o famoso e satírico diretor, o médico certamente diria que ele tinha uma hipertensão, a classificaria como hipertensão arterial essencial (sem causa) e lhe recomendaria um remédio para baixar a pressão pelo resto da vida.

É verdade que o diagnóstico de hipertensão é o mais fácil da medicina, porque é quantitativo. Basta você colocar um aparelhinho de medir a pressão no braço do indivíduo, e sabe-se na hora se ele está com a pressão alta. Daí em diante é um festival de circo tanto do médico, quanto do cliente, e o jornalista vai atrás – hoje tem marmelada, tem sim senhor.

À parte os casos de pressão alta momentosa (como algumas matérias de TV alertam, por conta de o exame ser feito em local impróprio, enquanto o indivíduo examinado está sob estresse e etc), a hipertensão que é um processo crônico, que só impacta o organismo ao longo de vários anos de incidência, tende a ser abordado de forma simplista.

Geralmente, no diagnóstico inicial, as pessoas fazem alguns exames, para ver se têm doença suprarrenal, do rim, ou vascular (hipertensão secundária). Mas, a maioria dos hipertensos é classificada de essencial, termo usado pela medicina quando não se sabe a causa.

O outro lado da moeda, da notícia
Outra sobrecarga crônica do sistema cardiocirculatório é a hipertensão arterial, que acomete cerca de 20% dos brasileiros adultos. É comum, no dia-a-dia do médico, ele encontrar o paciente obeso, com hipertensão, diabético, e com alteração de tireóide, e tudo fica como se fossem manifestações de doenças diferentes e não a expressão de um processo continuado e avançado de sobrecarga e degeneração do organismo.

Alguns dados interessantes são destacados naquele filme: a cada dia, 1 entre 3 americanos visita um restaurando de fast food. 2 em cada três americanos adultos estão acima do peso ou são obesos, 60% da população. Uma pessoa tem que caminhar por sete horas ininterruptas para queimar as calorias de um sanduíche, com batata frita e refrigerante do McDonald. Nos Estados Unidos se come mais de um milhão de animais por hora. Uma em cada três crianças irá desenvolver diabetes durante a sua vida. A obesidade irá ultrapassar o tabagismo como causa mortis na América. A obesidade está relacionada a hipertensão, doença coronariana, diabetes, infarto, osteoartrite, problemas respiratórios, mamas, câncer de próstata e colon, resistência insulínica, asma, reprodução anormal de hormônios, disfunção da fertilidade, entre outros males. A ONU declarou a obesidade como uma epidemia global. Antes de começarem a falar, a maioria das crianças já reconhecem a marca McDonald.

A grande barriga da mídia nesta semana é seguir a esteira do circo da indústria farmacêutica, da indústria dos diagnósticos (de industrialização de dispositivos de diagnósticos e de procedimentos, uma alimenta as demais) e da indústria alimentícia. Por que, como assim?

Por que os jornalistas não estão informando na mesma matéria sobre o outro lado da moeda, a outra fonte antagônica de informação, para que o público decida o que fazer da própria vida. A Globo, por exemplo, chega a ser tão didática que até eu, um pobre Homer, quase caio no seu charme professoral. Disse “o ministro encontrou um jeito com humor para fazer recomendações”, a Band esboçou um sorriso maroto e realçou que o ministro recomendou o sexo para baixar a pressão. Logo onde havia um viés para o outro lado da notícia, um e outro perderam a chance, todos os demais também.

Ora, a hipertensão quase sempre é sobrecarga do organismo, desequilíbrio, estresse orgânico, dinâmica degenerativa, sobrecarga do sangue com o aumento da tendência aglutinadora dos elementos sanguíneos, alteração funcional da microcirculação. Ou seja, estresse de todos os tipos, metabólico, endócrino, mental, ambiental.

Mas a medicina hegemônica é cega para isso, pois é uma medicina lesional, que afirma haver uma causa de doença somente quando existe uma lesão. Quando as alterações são de caráter funcional ela não tem recursos cognitivos para perceber. Por isso, ela rotula o estado funcional de sobrecarga do hipertenso de sem causa (essencial). O jornalismo está perdendo justamente onde pode ser mais forte, no ataque com a cognição, com a capacidade de lidar com compreensão semiológica das questões, com a capacidade de ler e falar outros mundos.

O problema visto por outro ângulo
A hipertensão é, em grande medida, um problema da microcirculação. A medicina hegemônica foca muito a macrocirculação, os grandes vasos, e se  esquece da microcirculação que é 99 % da circulação corpórea. A microcirculação é formada por capilares menores que um fio de cabelo. Quando existe dificuldade de fluxo na microcirculação ocorre o aumento da resistência periférica, que é o grande fator responsável pelo o aumento da pressão arterial. O coração faz a ejeção do sangue, a sístole, lança o sangue na rede arterial que corre pelos grandes vasos para os pequenos vasos. Se esse sangue tem dificuldade de entrar na rede capilar, seja por problema da rede ou da própria fluidez do sangue (dinâmica de fluxo), haverá um aumento da resistência periférica, resistência ao fluxo do sangue, e o consequente aumento da pressão dentro dos vasos. Assim,  o coração passa a trabalhar com maior resistência, tendo que aumentar o seu trabalho, e o consumo energético.

O funcionamento do sistema circulatório pode sinteticamente ser reduzido à relação de “continente” e o “conteúdo”. Todo foco da medicina oficial está orientado para o continente. As drogas usadas quase sempre agem dilatando os vasos ou diminuindo a reatividade vascular.  Quando se mexe na regulação de abertura e fechamento dos vasos, através de medicamentos, altera um sistema de autorregulação extremamente complexo que o organismo usa para distribuir o sangue.

O nosso sistema circulatório trabalha com a circulação efetiva, que é a distribuição precisa do fluxo conforme a necessidade do organismo. O que é isso? Nós temos cerca de 5,5 litros de sangue. Se os capilares (os vasos pequenos) da perna de um adulto abrissem ao mesmo tempo, todo esses 5,5 litros ficariam nessa perna. Se tivéssemos que manter todos os vasos cheios ao mesmo tempo, teríamos que ter um volume muito grande sangue, certamente mais de 30 litros. Não existiria bomba (coração) para bombear esse volume de sangue. Daí a importância da regulação do organismo na distribuição do fluxo. Quando se caminha aumenta o fluxo para os músculos, quando se alimenta aumenta o fluxo na barriga e assim por diante.

Quando você toma remédio para dilatar os vasos, o organismo reage aumentando o volume de sangue. Isso tende a sobrecarregar o coração que irá trabalhar com uma coluna líquida maior. Mesmo você baixando a pressão, como se fosse um encanador controlando válvulas de um sistema hidráulico complexo, forçará um nível de sobrecarrega pela volemia sanguínea. Num segundo tempo o aumento do volume vai produzir um aumento da pressão, daí o uso de uma segunda droga, geralmente um diurético. Aí a coisa vai se complicando. 

Saindo para o jogo, vamos ganhar!
A medicina oficial prescreve um diurético com uma facilidade enorme, e não vê qualquer consequência para o organismo. Ora, o diurético vai perturbar o processo extremamente complexo do filtro renal e, certamente, consequências para o metabolismo quase sempre aparecem. O patologista alemão Helmut Heine diz ser o rim o cérebro do metabolismo corporal.

Eu digo que o cérebro dos jornalistas nessas questões está na barriga, uma grande barriga de palhaço – não quero ofender os colegas, por favor tomem como uma brincadeira de concentração de futebol. E vamos lá para mais um jogo decisivo, vamos ganhar, gente!

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Autor de O Elo Perdido da Medicina, dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro.

Este artigo saiu originariamente no Comunique-se.

Jornalismo - Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento

diploma.jpg (60105 bytes)E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo?
por Luís Peazê   Publicado em 07/04/2010 00:00

Dia do Jornalista

No princípio era o fato. Não havia ninguém para contar a história. Os fatos foram se acumulando e as pessoas se interessando cada vez mais sobre as novidades. Assim surgiu a notícia.

A primeira notícia foi contada num tronco de árvore deitado no meio da estrada. “Aqui eu vi um animal tão alto quanto às árvores ao redor, de quatro patas e um rabo muito grande, matei o animal com um tacape na presença de minha família, mulher, dois filhos e um parente. Depois seguimos em fila, do jeito de sempre”.

Surgiu o precursor do jornalista, um homem comum acumulando duas ocupações, a de caçador e cronista. Narrava a cronologia de suas andanças, quando algo inusitado acontecesse. Andava sem parar. Quando parou, surgiu um outro tipo de homem: o caixeiro viajante, o segundo precursor do jornalista, mais descritivo e mais seletivo nas notícias narradas pessoalmente, nas terras para onde viajava. Nesta época surgiram vários tipos de homens, os tipos diferentes de mulheres só surgiriam muito tempo depois.

Surgiram também os cronistas, intérpretes dos caixeiros viajantes e estudiosos da palavra escrita, com símbolos vários, depois consolidados em letras. Começaram a surgir as várias formas móveis de se divulgar as notícias, encadeadas na forma de histórias.

A partir daí o mundo nunca mais foi o mesmo. Pode-se afirmar o seguinte: sem a divulgação das notícias o homem não evoluiria ao ponto e da forma como evoluiu até os dias de hoje. Foi preciso cruzar oceanos desconhecidos, ultrapassar cadeias de montanhas aparentemente intransponíveis, enfrentar diferenças climáticas extremas, as barreiras das diferentes línguas, tudo dificultava a evolução do homem. Somente a divulgação da notícia, ou do conhecimento, a comunicação na sua essência, possibilitou e possibilita a evolução contínua do homem.

Desde àqueles primórdios do jornalismo e durante muito tempo, o precursor do jornalista apreendia informação sobre outras atividades humanas, profissões, para contar histórias, reportar as notícias, mas ele mesmo não tinha uma profissão definida. Um aventureiro irresponsável de nome Marco Pólo parte com seus navios sem rumo definido; a enchente do Rio Nilo deste ano influenciou na colheita do trigo, menor quantidade, subiu o preço; um novo fabricante de perfume chegou a Paris; fulano será enforcado; o Santo Padre mandou construir outra igreja...

Os meios disponíveis para fazer suas reportagens e imprimir as notícias eram poucos e simplórios, a apuração das notícias não era nada sofisticada e o público em geral não havia descoberto ainda a importância da imprensa, falada e escrita. Jamais imaginaria uma mídia instantânea, a disseminação da informação à velocidade da luz e a possibilidade de interação com a notícia.

Não faz muito tempo, do romântico grito na rua do menino vendedor de jornais – Extra! Extra! Extra! – ao silencioso painel eletrônico na fachada do edifício de uma megalópole divulgando em tempo real a descoberta para o câncer, a eclosão de mais uma guerra insana ou o vencedor da Copa do Mundo de Futebol, passaram-se apenas cinco séculos, mas o mundo evoluiu exponencialmente muito mais em comparação com a lenta evolução do narrador no tronco ao caixeiro viajante.

O jornalista de hoje pode operar o inconsciente coletivo, operar o sentimento das massas, guindar um desconhecido à fama repentina ou à difamação irreparável instantaneamente.

Através dessa evolução, desde a prensa de Guttenberg (para não se ir mais longe) a demanda pela ética e a complexidade jurídica do termo responsabilidade solidária impõem a formação criteriosa acadêmica, e o seu aperfeiçoamento contínuo, do jornalista, de um modo tão crítico quanto o é o de um neurocirurgião, o de um engenheiro espacial, o de um jurista, cuja essência, diga-se de passagem, qualquer indivíduo poderia, em tese, ser capaz de desempenhar tal função social. Mas ele precisa ter um diploma, do contrário a sociedade, a lei, não lhe autoriza julgar ninguém.

Daí uma das razões, entre outras, da importância do diploma para o desempenho da função de jornalista.

O texto acima foi escrito em 15 minutos com a determinação de não utilizar a palavra “que”, um exercício prático para a disciplina na construção de um texto.

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/brcostal

FENAJ e o "re call" de Jornalista sem diplomaselo_fenaj(1).jpg (21224 bytes)

A Clínica Literária entra na discussão sobre o diploma de jornalista como condição imprescindível para a sindicalização e, por extensão, desempenho da função de jornalista nos meios de comunicação.

Após muita polêmica e liminares, o Supremo Tribunal Federal de Justiça (em 17 de junho de 2009) “considerou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de Jornalista para o exercício da profissão de jornalista” (Fonte: FENAJ). Em reunião do Conselho do último dia 27 de março, a FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas decidiu recomendar, aos sindicatos, não aceitarem a sindicalização e nem mesmo a associação aos sindicatos de profissionais sem o diploma de jornalista, contrariando uma decisão daquele órgão máximo do sistema de justiça do país.

A Clínica Literária se posiciona da seguinte maneira: em primeiro lugar solicita aos interessados em debater o assunto, com a mesma, a não reproduzirem parcialmente a sua opinião, sempre que possível contextualizá-la com as informações e destaques aqui neste web site; em segundo lugar convida à leitura do texto criado especialmente para o Dia do Jornalista: E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo?

Isto posto, a Clínica Literária defende a idéia de que, apesar da luta da FENAJ pelo diploma ser uma reivindicação longeva, não se pode negar que a questão passa por uma fase de transição, com sorte para a premiação ao esforço dos que defendem a exigência do diploma para a sindicalização e consequentemente do direito de exercer a profissão de jornalista somente aos profissionais diplomados.

Sendo assim, uma fase de transição, a Clínica Literária está convicta de que é necessário conquistar os opositores à idéia de exigência ao diploma, em primeiro lugar, para que mudem sua opinião, para que passem a defender também a exigência do diploma; neste sentido é preciso expor publicamente os opositores, posto que os defensores do diploma são francamente vogais voluntários e passionais a respeito.

Acredita a Clínica Literária que entre os opositores da exigência do diploma  que não sejam empresários da mídia, empregadores, e, portanto, óbvios interessados em não engessar (na sua visão) suas gestões de recursos humanos, e não enfrentarem restrições trabalhistas amparadas por um órgão de classe (os sindicatos), então, excetuando esses opositores teoricamente bem identificados, há poucos profissionais com voz forte e representativos que não possuem diploma e que seriam prejudicados tempestivamente com o seu impedimento de continuar exercendo a profissão porque não dispõem de um diploma de jornalista.

Se há uma massa muito grande de jornalistas opositores à exigência de diploma, entre esses, infere a Clínica Literária, não há muitos que não têm diploma, apenas se posicionam contra, e inflam o debate. 

Para resolver este status quo, de peneirar o mercado e separar o joio do trigo, a Clínica Literária sugere:

a) há em franca atividade no mercado de trabalho um elenco enorme de profissionais maduros, experimentados e egressos de uma época que, de fato, não era nem discutida a exigência ou não do diploma de jornalista, muitos desses profissionais possivelmente treinaram jornalistas mais jovens, possivelmente alguns deles ainda o fazem; b) este elenco poderia oferecer alguns nomes voluntários ou convidados de modo a formar um Conselho em Caráter Temporário para o julgamento de casos de formação de jornalista pela prática, contudo sem a formação acadêmica; c) o Conselho da FENAJ consultaria esse Conselho Temporário, uma vez composto, para consolidar um critério de avaliação caso a caso; d) com isso seria lançada no mercado, na sociedade brasileira, um “re call”, uma chamada para a regulamentação do exercício profissional desses jornalistas não diplomados.

Em paralelo a este ato inédito de um órgão de classe, francamente revelado ao grande público, e uma vez tendo conquistado a massa crítica de opositores à idéia da exigência do diploma de jornalista, uma profissão cuja atividade é de interesse do público em geral, bombardeado diariamente com informação e notícias as quais precisa confiar, posto que não tem, necessariamente, meios de apurá-las, a Clínica Literária sugere um debate no Congresso com parlamentares e  juristas, legisladores e profissionais do jornalismo, e representantes da sociedade civil organizada, com o objetivo de consolidar a idéia da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. E consequentemente a sua legibilidade decretada por Lei Federal.

Jornalismo - Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento
O Diploma da Tragédia

por Luís Peazê   Publicado em 09/04/2010 11;24

Eu saía do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, na segunda-feira 5, após deixar para a presidente Suzana Blass um exemplar de o Crônico – Uma Aventura Diária Nas Esquinas do Rio, a história inédita do gênero crônica nunca antes narrada em livro, na forma de crônica, e frustrou-me a impossibilidade de discutir uma nova forma de abordar a questão do diploma de jornalismo e apresentar o projeto de Prêmio para Jornalistas Formandos, bolsas no exterior e nacionais: Suzana sofrera um pequeno acidente no trajeto para o Sindicato, por conta da chuva. Era o prenúncio da formatura dos responsáveis pelas tragédias que iriam acontecer, e aconteceram.

Corri para casa, em Saquarema, pois, sendo um irremediável velejador de cruzeiro, estou continuamente perscrutando o horizonte, cheirando o tempo, lendo as nuvens, observando o vôo das aves no céu, impaciente para voltar para o mar, revivendo mentalmente o Alvídia, a história de meus dois anos velejando no Mar da Tasmânia, de Corais, Pacífico, Arafura, Timor, num veleiro que construí com as próprias mãos. Previa muita chuva, seguida de vento, frio e das ressacas anuais desta época.

No dia seguinte, um pouco antes da meia-noite, publiquei o texto E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo? Abaixo do texto vem o início de uma série que discutirá a formação em jornalismo, mas este não repercutiu nada, até o momento, o outro sim, incluindo ofensas morais que eu, sinceramente, não entendi, pois o texto é até ingênuo, só pretendia celebrar o Dia do Jornalista, 7 de abril, dia do início da tragédia anunciada.

O jornalista Luiz Martins da Silva publica hoje (09/04/2010) no Observatório da Imprensa um belo texto onde faz uma analogia do jornalista com a figura bíblica do atalaia, que em dado episódio (Reis), após perscrutar do alto de uma torre, se os inimigos se aproximavam, foi mandado ao encontro daqueles para perguntar se havia paz. Num outro livro da Bíblia (Ezequiel), se o atalaia vier com a espada, não tocar a trombeta, o povo não será avisado e ele será o primeiro a morrer. Isto é, se não vier para passar uma informação, então é guerra. Com o tempo atalaia virou sinônimo de torre alta para a vigilância, e grito de alerta. Realmente, boa analogia. Neste sentido tem havido um pecado reincidente, dos atalaias das redações, e não é por falta de aviso.

Peca o jornalismo praticado no dia-a-dia que não privilegia a enxurrada de informação, ações, iniciativas, estudos, e falta de estudos, pois a falta de alguma coisa também é notícia, invariavelmente alarmante, sobre as questões do meio ambiente – que nunca estão dissociadas das questões urbanas, das políticas públicas a níveis locais, regionais e nacionais, da qualidade de vida, em síntese. E, se não há qualidade de vida, é a tragédia que ocupa o seu lugar. É onde estamos no exato momento.

Nos congressos sobre jornalismo ambiental, tratado unicamente como um setor, ou uma editoria, equivocadamente, tem havido o martelar na tecla de que a mídia não cobre bem o assunto. Ou não sabe, ou não quer, mas é unânime, dentro e fora da mídia, neste caso pelos especialistas, a idéia triste de que um setor da sociedade – o quarto poder – que  poderia estar exercendo este poder não o exerce. Tragédia iminente à vista, óbvio.

Mas o viés não é este aqui, trata-se apenas de uma breve pausa no meio dos escombros do terceiro dia de tristeza generalizada   pelas conseqüências, e galeria de imagens da luta pela concorrência de audiência, número de leitores, visitas em web sites de conteúdos, para chamar a atenção, mais uma vez, dos diretores de jornais, editores, chefes de redação e repórteres de campo que contextualizem suas pautas com as questões do meio ambiente – começando pela degradação, pelo lixo, pelas coisas mal feitas, que pelo menos tragam para as manchetes a discussão da responsabilidade solidária, um termo jurídico esquecido. Um alerta inaudível em tais circunstâncias – a tragédia de Abril no Rio de Janeiro – mas fica o registro.

Trata-se esta crônica do diploma da tragédia que deve ser dado, incluindo a devida premiação, aos culpados. Quando dirijo por ruas de  bairros ou cidades ao longo de estradas visivelmente abandonadas, com lixo e construções irregulares de fácil constatação, sempre me pergunto: o que faz um prefeito em seu gabinete neste exato momento que não emprega gente para limpar (no mínimo) a sua jurisdição, o que fazem os seus secretários, os vereadores, o governador deste estado? Reflito, me frustro, desisto e num futuro muito próximo estarei lá novamente repetindo as mesmas perguntas.

Neste sentido os atalaias, eficientes ou não, dedicando o devido espaço, linhas, minutos, imagens, ou não para as questões do meio ambiente, têm alertado o suficiente para que tragédias como a do Rio de Janeiro neste inesquecível mês de abril não aconteçam. Não merecem o diploma, nem precisam dele para exercer o seu poder de informar a sociedade. Os merecedores do diploma da tragédia são: o prefeito, o governador, seus secretários, os vereadores, os deputados estaduais, um conjunto de agências e autarquias, e por fim um pouco de louvor à sociedade como um todo, embora esses últimos, pela experiência da história, serão os únicos a serem agraciados com as honras do diploma dessa tragédia.

Metáfora irônica, essa do diploma, de quem escreve com um cadáver entre os dentes, incapaz de provocar uma revolução necessária, aliás, foi-se o tempo das revoluções, essa do diploma de jornalista, por exemplo, eu, que nem tenho diploma, não preciso de um para ser jornalista há décadas, quero defender, acho que é importante o estímulo à formação acadêmica, quanto mais formal, densa, profunda possível, melhor, embora imprescindível. Mas o que se vê são escombros intelectuais, enxurradas de interesses paralelos, explosões insanas travestidas de elaborações teóricas, tudo à razão da vontade de ganhar dinheiro e poder, ou do medo de perdê-los.

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