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Jornalismo & Medicina - Medicina & Jornalismo
A barrigada dos palhaços: notícias sobre hipertensão
por Luís Peazê Publicado originariamente no site Comunique-se em 27/04/2010 12:50
Peazê
brincando de palhaço na abertura da Jornada Literária de Passo Fundo
Na investigação de um fato é
mandatório o jornalista obter informação de pelo menos duas fontes. Básico. Na
investigação de uma notícia não necessariamente factual, a coisa é mais volátil, e,
buscar informação em duas fontes pode encobrir o fato de que o jornalista está na
verdade pegando a mesma informação reforçada por uma fonte de mesma opinião, nada
mais. Neste caso ele corre o risco da barrigada, e um picadeiro fértil para isso é o da
ciência e outros assuntos que demandam um pouco mais de esforço do profissional do
bloquinho e da caneta. Está aí a enxurrada na mídia brasileira provocada por palhaços,
desta semana de 25 de abril de 2010, com notícias desastrosas sobre hipertensão.
O filme é o de sempre, os
principais culpados não são necessariamente os repórteres, são os chefes de redação
e os editores, que teoricamente têm mais condições de olhar a vastidão do mundo de
sobre uma grua lá no andar mais acima. E não olham.
Hoje tem marmelada, tem
sim senhor
Morgan Spurlock, diretor de cinema e ator em seu próprio filme SuperSize Me (que
no Brasil recebeu o sub título de A Dieta do Palhaço), produziu um estudo de caso
interessante sobre hipertensão, e principalmente dietética. Alimentou-se exclusivamente
de produtos McDonald durante um mês. Antes da experiência masoquista, assim definida por
ele mesmo, estava em perfeitas condições de saúde, passou por exames médicos e sua
pressão era normal. Já nos primeiros 15 dias sua pressão era 14 por 9,5. No final dos
30 dias foi a 160 por 95 e 100.
Se o Spurlock tivesse ido a um
médico, depois daquela loucura, mas não dissesse que era o famoso e satírico diretor, o
médico certamente diria que ele tinha uma hipertensão, a classificaria como hipertensão
arterial essencial (sem causa) e lhe recomendaria um remédio para baixar a pressão pelo
resto da vida.
É verdade que o diagnóstico de
hipertensão é o mais fácil da medicina, porque é quantitativo. Basta você colocar um
aparelhinho de medir a pressão no braço do indivíduo, e sabe-se na hora se ele está
com a pressão alta. Daí em diante é um festival de circo tanto do médico, quanto do
cliente, e o jornalista vai atrás hoje tem marmelada, tem sim senhor.
À parte os casos de pressão alta
momentosa (como algumas matérias de TV alertam, por conta de o exame ser feito em local
impróprio, enquanto o indivíduo examinado está sob estresse e etc), a hipertensão que
é um processo crônico, que só impacta o organismo ao longo de vários anos de
incidência, tende a ser abordado de forma simplista.
Geralmente, no diagnóstico
inicial, as pessoas fazem alguns exames, para ver se têm doença suprarrenal, do rim, ou
vascular (hipertensão secundária). Mas, a maioria dos hipertensos é classificada de
essencial, termo usado pela medicina quando não se sabe a causa.
O outro lado da moeda, da
notícia
Outra sobrecarga crônica do sistema cardiocirculatório é a hipertensão
arterial, que acomete cerca de 20% dos brasileiros adultos. É comum, no dia-a-dia do
médico, ele encontrar o paciente obeso, com hipertensão, diabético, e com alteração
de tireóide, e tudo fica como se fossem manifestações de doenças diferentes e não a
expressão de um processo continuado e avançado de sobrecarga e degeneração do
organismo.
Alguns dados interessantes são
destacados naquele filme: a cada dia, 1 entre 3 americanos visita um restaurando de fast
food. 2 em cada três americanos adultos estão acima do peso ou são obesos, 60% da
população. Uma pessoa tem que caminhar por sete horas ininterruptas para queimar as
calorias de um sanduíche, com batata frita e refrigerante do McDonald. Nos Estados Unidos
se come mais de um milhão de animais por hora. Uma em cada três crianças irá
desenvolver diabetes durante a sua vida. A obesidade irá ultrapassar o tabagismo como
causa mortis na América. A obesidade está relacionada a hipertensão, doença
coronariana, diabetes, infarto, osteoartrite, problemas respiratórios, mamas, câncer de
próstata e colon, resistência insulínica, asma, reprodução anormal de hormônios,
disfunção da fertilidade, entre outros males. A ONU declarou a obesidade como uma
epidemia global. Antes de começarem a falar, a maioria das crianças já reconhecem a
marca McDonald.
A grande barriga da mídia nesta
semana é seguir a esteira do circo da indústria farmacêutica, da indústria dos
diagnósticos (de industrialização de dispositivos de diagnósticos e de procedimentos,
uma alimenta as demais) e da indústria alimentícia. Por que, como assim?
Por que os jornalistas não estão
informando na mesma matéria sobre o outro lado da moeda, a outra fonte antagônica de
informação, para que o público decida o que fazer da própria vida. A Globo, por
exemplo, chega a ser tão didática que até eu, um pobre Homer, quase caio no seu charme
professoral. Disse o ministro encontrou um jeito com humor para fazer
recomendações, a Band esboçou um sorriso maroto e realçou que o ministro
recomendou o sexo para baixar a pressão. Logo onde havia um viés para o outro lado da
notícia, um e outro perderam a chance, todos os demais também.
Ora, a hipertensão quase sempre
é sobrecarga do organismo, desequilíbrio, estresse orgânico, dinâmica degenerativa,
sobrecarga do sangue com o aumento da tendência aglutinadora dos elementos sanguíneos,
alteração funcional da microcirculação. Ou seja, estresse de todos os tipos,
metabólico, endócrino, mental, ambiental.
Mas a medicina hegemônica é cega
para isso, pois é uma medicina lesional, que afirma haver uma causa de doença somente
quando existe uma lesão. Quando as alterações são de caráter funcional ela não tem
recursos cognitivos para perceber. Por isso, ela rotula o estado funcional de sobrecarga
do hipertenso de sem causa (essencial). O jornalismo está perdendo justamente onde pode
ser mais forte, no ataque com a cognição, com a capacidade de lidar com compreensão
semiológica das questões, com a capacidade de ler e falar outros mundos.
O problema visto por outro
ângulo
A hipertensão é, em grande medida, um problema da microcirculação. A medicina
hegemônica foca muito a macrocirculação, os grandes vasos, e se esquece da
microcirculação que é 99 % da circulação corpórea. A microcirculação é formada
por capilares menores que um fio de cabelo. Quando existe dificuldade de fluxo na
microcirculação ocorre o aumento da resistência periférica, que é o grande fator
responsável pelo o aumento da pressão arterial. O coração faz a ejeção do sangue, a
sístole, lança o sangue na rede arterial que corre pelos grandes vasos para os pequenos
vasos. Se esse sangue tem dificuldade de entrar na rede capilar, seja por problema da rede
ou da própria fluidez do sangue (dinâmica de fluxo), haverá um aumento da resistência
periférica, resistência ao fluxo do sangue, e o consequente aumento da pressão dentro
dos vasos. Assim, o coração passa a trabalhar com maior resistência, tendo que
aumentar o seu trabalho, e o consumo energético.
O funcionamento do sistema
circulatório pode sinteticamente ser reduzido à relação de continente e o
conteúdo. Todo foco da medicina oficial está orientado para o continente. As
drogas usadas quase sempre agem dilatando os vasos ou diminuindo a reatividade
vascular. Quando se mexe na regulação de abertura e fechamento dos vasos, através
de medicamentos, altera um sistema de autorregulação extremamente complexo que o
organismo usa para distribuir o sangue.
O nosso sistema circulatório
trabalha com a circulação efetiva, que é a distribuição precisa do fluxo conforme a
necessidade do organismo. O que é isso? Nós temos cerca de 5,5 litros de sangue. Se os
capilares (os vasos pequenos) da perna de um adulto abrissem ao mesmo tempo, todo esses
5,5 litros ficariam nessa perna. Se tivéssemos que manter todos os vasos cheios ao mesmo
tempo, teríamos que ter um volume muito grande sangue, certamente mais de 30 litros. Não
existiria bomba (coração) para bombear esse volume de sangue. Daí a importância da
regulação do organismo na distribuição do fluxo. Quando se caminha aumenta o fluxo
para os músculos, quando se alimenta aumenta o fluxo na barriga e assim por diante.
Quando você toma remédio para
dilatar os vasos, o organismo reage aumentando o volume de sangue. Isso tende a
sobrecarregar o coração que irá trabalhar com uma coluna líquida maior. Mesmo você
baixando a pressão, como se fosse um encanador controlando válvulas de um sistema
hidráulico complexo, forçará um nível de sobrecarrega pela volemia sanguínea. Num
segundo tempo o aumento do volume vai produzir um aumento da pressão, daí o uso de uma
segunda droga, geralmente um diurético. Aí a coisa vai se complicando.
Saindo para o jogo, vamos
ganhar!
A medicina oficial prescreve um diurético com uma facilidade enorme, e não vê
qualquer consequência para o organismo. Ora, o diurético vai perturbar o processo
extremamente complexo do filtro renal e, certamente, consequências para o metabolismo
quase sempre aparecem. O patologista alemão Helmut Heine diz ser o rim o cérebro do
metabolismo corporal.
Eu digo que o cérebro dos
jornalistas nessas questões está na barriga, uma grande barriga de palhaço não
quero ofender os colegas, por favor tomem como uma brincadeira de concentração de
futebol. E vamos lá para mais um jogo decisivo, vamos ganhar, gente!
Luís Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB
24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Autor de O
Elo Perdido da Medicina, dirige a Clínica Literária Consultoria e Agência de Notícias e o
Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão
das questões do meio ambiente marinho e costeiro.
Jornalismo -
Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento
E o Diploma de Jornalista,
Meritíssimo?
por Luís Peazê Publicado em 07/04/2010
00:00
Dia do Jornalista
No princípio era o fato. Não
havia ninguém para contar a história. Os fatos foram se acumulando e as pessoas se
interessando cada vez mais sobre as novidades. Assim surgiu a notícia.
A primeira notícia foi contada
num tronco de árvore deitado no meio da estrada. Aqui eu vi um animal tão alto
quanto às árvores ao redor, de quatro patas e um rabo muito grande, matei o animal com
um tacape na presença de minha família, mulher, dois filhos e um parente. Depois
seguimos em fila, do jeito de sempre.
Surgiu o precursor do jornalista,
um homem comum acumulando duas ocupações, a de caçador e cronista. Narrava a cronologia
de suas andanças, quando algo inusitado acontecesse. Andava sem parar. Quando parou,
surgiu um outro tipo de homem: o caixeiro viajante, o segundo precursor do jornalista,
mais descritivo e mais seletivo nas notícias narradas pessoalmente, nas terras para onde
viajava. Nesta época surgiram vários tipos de homens, os tipos diferentes de mulheres
só surgiriam muito tempo depois.
Surgiram também os cronistas,
intérpretes dos caixeiros viajantes e estudiosos da palavra escrita, com símbolos
vários, depois consolidados em letras. Começaram a surgir as várias formas móveis de
se divulgar as notícias, encadeadas na forma de histórias.
A partir daí o mundo nunca mais
foi o mesmo. Pode-se afirmar o seguinte: sem a divulgação das notícias o homem não
evoluiria ao ponto e da forma como evoluiu até os dias de hoje. Foi preciso cruzar
oceanos desconhecidos, ultrapassar cadeias de montanhas aparentemente intransponíveis,
enfrentar diferenças climáticas extremas, as barreiras das diferentes línguas, tudo
dificultava a evolução do homem. Somente a divulgação da notícia, ou do conhecimento,
a comunicação na sua essência, possibilitou e possibilita a evolução contínua do
homem.
Desde àqueles primórdios do
jornalismo e durante muito tempo, o precursor do jornalista apreendia informação sobre
outras atividades humanas, profissões, para contar histórias, reportar as notícias, mas
ele mesmo não tinha uma profissão definida. Um aventureiro irresponsável de nome Marco
Pólo parte com seus navios sem rumo definido; a enchente do Rio Nilo deste ano
influenciou na colheita do trigo, menor quantidade, subiu o preço; um novo fabricante de
perfume chegou a Paris; fulano será enforcado; o Santo Padre mandou construir outra
igreja...
Os meios disponíveis para fazer
suas reportagens e imprimir as notícias eram poucos e simplórios, a apuração das
notícias não era nada sofisticada e o público em geral não havia descoberto ainda a
importância da imprensa, falada e escrita. Jamais imaginaria uma mídia instantânea, a
disseminação da informação à velocidade da luz e a possibilidade de interação com a
notícia.
Não faz muito tempo, do
romântico grito na rua do menino vendedor de jornais Extra! Extra! Extra!
ao silencioso painel eletrônico na fachada do edifício de uma megalópole divulgando em
tempo real a descoberta para o câncer, a eclosão de mais uma guerra insana ou o vencedor
da Copa do Mundo de Futebol, passaram-se apenas cinco séculos, mas o mundo evoluiu
exponencialmente muito mais em comparação com a lenta evolução do narrador no tronco
ao caixeiro viajante.
O jornalista de hoje pode operar o
inconsciente coletivo, operar o sentimento das massas, guindar um desconhecido à fama
repentina ou à difamação irreparável instantaneamente.
Através dessa evolução, desde a
prensa de Guttenberg (para não se ir mais longe) a demanda pela ética e a complexidade
jurídica do termo responsabilidade solidária impõem a formação criteriosa acadêmica,
e o seu aperfeiçoamento contínuo, do jornalista, de um modo tão crítico quanto o é o
de um neurocirurgião, o de um engenheiro espacial, o de um jurista, cuja essência,
diga-se de passagem, qualquer indivíduo poderia, em tese, ser capaz de desempenhar tal
função social. Mas ele precisa ter um diploma, do contrário a sociedade, a lei, não
lhe autoriza julgar ninguém.
Daí uma das razões, entre
outras, da importância do diploma para o desempenho da função de jornalista.
O texto acima foi escrito em 15 minutos com a determinação de não
utilizar a palavra que, um exercício prático para a disciplina na
construção de um texto.
Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal
FENAJ e o "re call" de
Jornalista sem diploma.jpg)
A Clínica Literária
entra na discussão sobre o diploma de jornalista como condição imprescindível para a
sindicalização e, por extensão, desempenho da função de jornalista nos meios de
comunicação.
Após muita polêmica e liminares,
o Supremo Tribunal Federal de Justiça (em 17 de junho de 2009) considerou
inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de Jornalista para o exercício da
profissão de jornalista (Fonte: FENAJ). Em reunião do Conselho do último dia 27
de março, a FENAJ Federação Nacional dos Jornalistas decidiu recomendar, aos
sindicatos, não aceitarem a sindicalização e nem mesmo a associação aos sindicatos de
profissionais sem o diploma de jornalista, contrariando uma decisão daquele órgão
máximo do sistema de justiça do país.
A Clínica Literária
se posiciona da seguinte maneira: em primeiro lugar solicita aos interessados em debater o
assunto, com a mesma, a não reproduzirem parcialmente a sua opinião, sempre que
possível contextualizá-la com as informações e destaques aqui neste web site; em
segundo lugar convida à leitura do texto criado especialmente para o Dia do Jornalista: E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo?
Isto posto, a Clínica
Literária defende a idéia de que, apesar da luta da FENAJ pelo diploma ser uma
reivindicação longeva, não se pode negar que a questão passa por uma fase de
transição, com sorte para a premiação ao esforço dos que defendem a exigência do
diploma para a sindicalização e consequentemente do direito de exercer a profissão de
jornalista somente aos profissionais diplomados.
Sendo assim, uma fase de
transição, a Clínica Literária está convicta de que é necessário
conquistar os opositores à idéia de exigência ao diploma, em primeiro lugar, para que
mudem sua opinião, para que passem a defender também a exigência do diploma; neste
sentido é preciso expor publicamente os opositores, posto que os defensores do diploma
são francamente vogais voluntários e passionais a respeito.
Acredita a Clínica
Literária que entre os opositores da exigência do diploma que não sejam
empresários da mídia, empregadores, e, portanto, óbvios interessados em não engessar
(na sua visão) suas gestões de recursos humanos, e não enfrentarem restrições
trabalhistas amparadas por um órgão de classe (os sindicatos), então, excetuando esses
opositores teoricamente bem identificados, há poucos profissionais com voz forte e
representativos que não possuem diploma e que seriam prejudicados tempestivamente com o
seu impedimento de continuar exercendo a profissão porque não dispõem de um diploma de
jornalista.
Se há uma massa muito grande de
jornalistas opositores à exigência de diploma, entre esses, infere a Clínica
Literária, não há muitos que não têm diploma, apenas se posicionam contra, e
inflam o debate.
Para resolver este status quo, de
peneirar o mercado e separar o joio do trigo, a Clínica Literária
sugere:
a) há em franca atividade no
mercado de trabalho um elenco enorme de profissionais maduros, experimentados e egressos
de uma época que, de fato, não era nem discutida a exigência ou não do diploma de
jornalista, muitos desses profissionais possivelmente treinaram jornalistas mais jovens,
possivelmente alguns deles ainda o fazem; b) este elenco poderia oferecer alguns nomes
voluntários ou convidados de modo a formar um Conselho em Caráter Temporário para o
julgamento de casos de formação de jornalista pela prática, contudo sem a formação
acadêmica; c) o Conselho da FENAJ consultaria esse Conselho Temporário, uma vez
composto, para consolidar um critério de avaliação caso a caso; d) com isso seria
lançada no mercado, na sociedade brasileira, um re call, uma chamada para a
regulamentação do exercício profissional desses jornalistas não diplomados.
Em paralelo a este ato inédito de
um órgão de classe, francamente revelado ao grande público, e uma vez tendo conquistado
a massa crítica de opositores à idéia da exigência do diploma de jornalista, uma
profissão cuja atividade é de interesse do público em geral, bombardeado diariamente
com informação e notícias as quais precisa confiar, posto que não tem,
necessariamente, meios de apurá-las, a Clínica Literária sugere um
debate no Congresso com parlamentares e juristas, legisladores e profissionais do
jornalismo, e representantes da sociedade civil organizada, com o objetivo de consolidar a
idéia da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. E
consequentemente a sua legibilidade decretada por Lei Federal.
Jornalismo
- Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento
O Diploma da Tragédia
por Luís Peazê Publicado em 09/04/2010
11;24
Eu saía do Sindicato dos Jornalistas do
Rio de Janeiro, na segunda-feira 5, após deixar para a presidente Suzana Blass um
exemplar de o Crônico Uma Aventura Diária
Nas Esquinas do Rio, a história inédita do gênero crônica nunca antes narrada em
livro, na forma de crônica, e frustrou-me a impossibilidade de discutir uma nova forma de
abordar a questão do diploma de jornalismo e apresentar o projeto de Prêmio para
Jornalistas Formandos, bolsas no exterior e nacionais: Suzana sofrera um pequeno acidente
no trajeto para o Sindicato, por conta da chuva. Era o prenúncio da formatura dos
responsáveis pelas tragédias que iriam acontecer, e aconteceram.
Corri para casa, em Saquarema, pois, sendo
um irremediável velejador de cruzeiro, estou continuamente perscrutando o horizonte,
cheirando o tempo, lendo as nuvens, observando o vôo das aves no céu, impaciente para
voltar para o mar, revivendo mentalmente o Alvídia,
a história de meus dois anos velejando no Mar da Tasmânia, de Corais, Pacífico,
Arafura, Timor, num veleiro que construí com as próprias mãos. Previa muita chuva,
seguida de vento, frio e das ressacas anuais desta época.
No dia seguinte, um pouco antes da
meia-noite, publiquei o texto E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo?
Abaixo do texto vem o início de uma série que discutirá a formação em jornalismo, mas
este não repercutiu nada, até o momento, o outro sim, incluindo ofensas morais que eu,
sinceramente, não entendi, pois o texto é até ingênuo, só pretendia celebrar o Dia do
Jornalista, 7 de abril, dia do início da tragédia anunciada.
O jornalista Luiz Martins da Silva publica
hoje (09/04/2010) no Observatório
da Imprensa um belo texto onde faz uma analogia do jornalista com a figura bíblica do
atalaia, que em dado episódio (Reis), após perscrutar do alto de uma torre, se os
inimigos se aproximavam, foi mandado ao encontro daqueles para perguntar se havia paz. Num
outro livro da Bíblia (Ezequiel), se o atalaia vier com a espada, não tocar a trombeta,
o povo não será avisado e ele será o primeiro a morrer. Isto é, se não vier para
passar uma informação, então é guerra. Com o tempo atalaia virou sinônimo de torre
alta para a vigilância, e grito de alerta. Realmente, boa analogia. Neste sentido tem
havido um pecado reincidente, dos atalaias das redações, e não é por falta de aviso.
Peca o jornalismo praticado no dia-a-dia
que não privilegia a enxurrada de informação, ações, iniciativas, estudos, e falta de
estudos, pois a falta de alguma coisa também é notícia, invariavelmente alarmante,
sobre as questões do meio ambiente que nunca estão dissociadas das questões
urbanas, das políticas públicas a níveis locais, regionais e nacionais, da qualidade de
vida, em síntese. E, se não há qualidade de vida, é a tragédia que ocupa o seu lugar.
É onde estamos no exato momento.
Nos congressos sobre jornalismo ambiental,
tratado unicamente como um setor, ou uma editoria, equivocadamente, tem havido o martelar
na tecla de que a mídia não cobre bem o assunto. Ou não sabe, ou não quer, mas é
unânime, dentro e fora da mídia, neste caso pelos especialistas, a idéia triste de que
um setor da sociedade o quarto poder que poderia estar exercendo este
poder não o exerce. Tragédia iminente à vista, óbvio.
Mas o viés não é este aqui, trata-se
apenas de uma breve pausa no meio dos escombros do terceiro dia de tristeza generalizada
pelas conseqüências, e galeria de imagens da luta pela concorrência de
audiência, número de leitores, visitas em web sites de conteúdos, para chamar a
atenção, mais uma vez, dos diretores de jornais, editores, chefes de redação e
repórteres de campo que contextualizem suas pautas com as questões do meio ambiente
começando pela degradação, pelo lixo, pelas coisas mal feitas, que pelo menos
tragam para as manchetes a discussão da responsabilidade solidária, um termo jurídico
esquecido. Um alerta inaudível em tais circunstâncias a tragédia de Abril no Rio
de Janeiro mas fica o registro.
Trata-se esta crônica do diploma da
tragédia que deve ser dado, incluindo a devida premiação, aos culpados. Quando dirijo
por ruas de bairros ou cidades ao longo de estradas visivelmente abandonadas, com
lixo e construções irregulares de fácil constatação, sempre me pergunto: o que faz um
prefeito em seu gabinete neste exato momento que não emprega gente para limpar (no
mínimo) a sua jurisdição, o que fazem os seus secretários, os vereadores, o governador
deste estado? Reflito, me frustro, desisto e num futuro muito próximo estarei lá
novamente repetindo as mesmas perguntas.
Neste sentido os atalaias, eficientes ou
não, dedicando o devido espaço, linhas, minutos, imagens, ou não para as questões do
meio ambiente, têm alertado o suficiente para que tragédias como a do Rio de Janeiro
neste inesquecível mês de abril não aconteçam. Não merecem o diploma, nem precisam
dele para exercer o seu poder de informar a sociedade. Os merecedores do diploma da
tragédia são: o prefeito, o governador, seus secretários, os vereadores, os deputados
estaduais, um conjunto de agências e autarquias, e por fim um pouco de louvor à
sociedade como um todo, embora esses últimos, pela experiência da história, serão os
únicos a serem agraciados com as honras do diploma dessa tragédia.
Metáfora irônica, essa do diploma, de
quem escreve com um cadáver entre os dentes, incapaz de provocar uma revolução
necessária, aliás, foi-se o tempo das revoluções, essa do diploma de jornalista, por
exemplo, eu, que nem tenho diploma, não preciso de um para ser jornalista há décadas,
quero defender, acho que é importante o estímulo à formação acadêmica, quanto mais
formal, densa, profunda possível, melhor, embora imprescindível. Mas o que se vê são
escombros intelectuais, enxurradas de interesses paralelos, explosões insanas travestidas
de elaborações teóricas, tudo à razão da vontade de ganhar dinheiro e poder, ou do
medo de perdê-los.
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