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Jornalismo & Medicina - Medicina & Jornalismo
O Jornalismo e as Tragédias das Nações
por Luís Peazê   publicado em 02/05/2010 13:55

Numa varredura na Internet para ler a cobertura do acidente com a plataforma de petróleo Deepwater Horizon da empresa British Petroleum no Golfo do México constatei a falta de angular com profundidade o lado humano nas reportagens.

Todas as reportagens, tanto das principais agências de notícias quanto de jornais locais das cidades imediatamente afetadas na costa sul dos Estados Unidos, abordam em primeiro plano, na linguagem das Nações Unidas, os impactos sócio-econômicos e ambientais – a riqueza das nações.

Baixo percentual de palavras sobre o lado humano

Duas reportagens apenas abordaram o acidente pelo ângulo mais humano, dos indivíduos, famílias e comunidades envolvidas, impactadas pelo acidente. Uma reportagem da NPR do dia 22/04/2010 e uma da AFP, de 20/04/2010.

A da NPR, no meu modo de ver, foi a mais completa reportagem que eu pude ler, dentre uma dezena selecionada na Internet, pela massa de informação, dados, cronologia dos fatos e desdobramentos na linha do tempo e número de declarações de pessoas importantes e diretamente ligadas ao acidente, tanto da parte dos responsáveis diretos, quanto da parte dos envolvidos nos trabalhos de salvatagem e recuperação material e ambiental, incluindo executivos de órgãos oficiais de governo e da municipalidade. Mas o lado humano, mesmo assim, representou em termos de palavras do texto da reportagem, menos de 10 por cento de toda a massa de informação.

Curiosamente, a matéria da AFP, de apenas 320 palavras reserva 28% de palavras para o enfoque envolvendo pessoas vitimadas, um percentual relativamente alto, em relação à média das outras matérias que eu pude ler, mesmo assim chama atenção para a questão de perdas materiais das supostas vítimas: “O grupo britânico (British Petroleum) de petróleo vem sendo citado na justiça desde a noite de quarta-feira por "negligência" e "poluição" por dois criadores de camarões da Louisiana que exigem milhões de dólares de indenização a título de prejuízos e danos, em nome de todas as vítimas econômicas da enorme mancha de óleo que se espalha. Na queixa à justiça, os criadores de camarões culpam não apenas a BP, mas também a proprietária da estrutura, a Transocean, o fabricante Cameron, e a Halliburton encarregada da consolidação do poço, que também apresentou defeitos.”

Oportunismo desumano

Na mesma varredura sobre essa tragédia, foi inevitável esbarrar em links interessantes sobre a oportunidade de mercado vislumbrada por algumas profissões e fornecedores de produtos. Num web site de advogados de Louisiana, por exemplo, há um texto publicitário buscando sensibilizar as supostas vítimas com ofertas de gratuidade de defesa de seus direitos pelas perdas “irreparáveis”. Os advogados declaram-se em franco trabalho de levantamento de dados, esbanjando conhecimento jornalístico sobre informações do acidente, desde detalhes técnicos da plataforma, dos fornecedores e marcas responsáveis, a declarações de pessoas importantes que, segundo esses advogados, devem ser questionadas e etc. Novamente, não se trata de um ângulo humano da questão, mas de uma visão oportunística e, num certo sentido, desumana. 

Casuísmo desnecessário

Há um artigo de Rogério Simões, editor da BBC (publicado no Observatório da Imprensa), onde ele informa sobre a prática de checagem de mais de uma fonte (ainda bem), entre outras coisas, incluindo o pedido de desculpa quando o veículo comete um erro, e utiliza como gancho a cobertura do acidente com o Vôo 447 da Air France no Oceano Atlântico. Nas palavras de Rogério Simões “...leitores e jornalistas, ainda desprovidos de explicações técnicas para o raríssimo fato de que um Airbus havia simplesmente despencado do céu, buscaram o lado humano dessa triste história... forma de homenagem às vítimas, ou por simples curiosidade, o lado humano de uma tragédia é sempre um importante material jornalístico...”

Rogério exemplifica o que pode ser abordado pelo ângulo humano numa reportagem: “Num momento como esse, o interesse pelas circunstâncias que colocaram cada passageiro dentro do voo da Air France, como o motivo de sua viagem, quem ficou para trás à espera de um telefonema na chegada ou quem se preparava para recebê-los...”.  

Por aí da uma boa redação no primeiro ano de faculdade. Excetuando a homenagem (a qualquer um), que nunca foi objetivo de reportagem alguma, e a “simples curiosidade” (sobre as vítimas?), fica claro no texto de RS que, se existissem “explicações técnicas”, o lado humano daquela tragédia não seria um importante material jornalístico, talvez até fosse, mas em segundo plano. É isto que está evidente no seu texto.

Por que não transformar numa praxe?

Não vejo porque um mesmo veículo não aborda os dois, ou mais, ângulos de uma ocorrência de tamanha repercussão, nessas tragédias, como praxe. Uma reportagem pelo ângulo material numa página, outra reportagem pelo ângulo humano na outra, ou uma página dividida ao meio com os dois enfoques. Ou 15 linhas para um viés, 15 para outro. Um minuto sobre os impactos materiais, um minuto sobre o estrago e vicissitudes nas vidas das pessoas envolvidas. E as suítes respectivamente. 

Essa evidência da tendência do material jornalístico publicado, veiculado, repercutido, ser mais materialístico em detrimento do humanístico daria uma tese de mestrado de antropologia social cuja questão paradoxal que eu tomaria como pretexto de estudo seria: se a curiosidade for uma virtude predominante da natureza do indivíduo nas sociedades, por que estaria havendo através do tempo uma escalada de submissão ao poder dos valores de trocas, materiais? Começaria a reler a tese da “violência simbólica” de Bourdieu, baseada na afirmação de que o homem está submetido ao hábito, espaço e capital – no meu modo simplório de ver, a tragédia das nações.

No que tange o jornalismo, há duas verdades absolutas permeando este assunto: uma verdade é a de que um boa parte dos jornalistas admite que quem manda na redação é o patrão, dono ou responsável pelo capital da empresa, pelos salários. A outra verdade é a de que certos jornalistas juram pelo que há de mais sagrado que não submetem seu trabalho à direção da empresa, são isentos, jornalistas puro sangue, investigam e publicam a verdade, doa a quem doer, até que uma matéria é vetada, fazem cara feia e são demitidos.

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Autor de O Elo Perdido da Medicina, dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro.


Jornalismo - Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento

diploma.jpg (60105 bytes)E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo?
por Luís Peazê   Publicado em 07/04/2010 00:00

Dia do Jornalista

No princípio era o fato. Não havia ninguém para contar a história. Os fatos foram se acumulando e as pessoas se interessando cada vez mais sobre as novidades. Assim surgiu a notícia.

A primeira notícia foi contada num tronco de árvore deitado no meio da estrada. “Aqui eu vi um animal tão alto quanto às árvores ao redor, de quatro patas e um rabo muito grande, matei o animal com um tacape na presença de minha família, mulher, dois filhos e um parente. Depois seguimos em fila, do jeito de sempre”.

Surgiu o precursor do jornalista, um homem comum acumulando duas ocupações, a de caçador e cronista. Narrava a cronologia de suas andanças, quando algo inusitado acontecesse. Andava sem parar. Quando parou, surgiu um outro tipo de homem: o caixeiro viajante, o segundo precursor do jornalista, mais descritivo e mais seletivo nas notícias narradas pessoalmente, nas terras para onde viajava. Nesta época surgiram vários tipos de homens, os tipos diferentes de mulheres só surgiriam muito tempo depois.

Surgiram também os cronistas, intérpretes dos caixeiros viajantes e estudiosos da palavra escrita, com símbolos vários, depois consolidados em letras. Começaram a surgir as várias formas móveis de se divulgar as notícias, encadeadas na forma de histórias.

A partir daí o mundo nunca mais foi o mesmo. Pode-se afirmar o seguinte: sem a divulgação das notícias o homem não evoluiria ao ponto e da forma como evoluiu até os dias de hoje. Foi preciso cruzar oceanos desconhecidos, ultrapassar cadeias de montanhas aparentemente intransponíveis, enfrentar diferenças climáticas extremas, as barreiras das diferentes línguas, tudo dificultava a evolução do homem. Somente a divulgação da notícia, ou do conhecimento, a comunicação na sua essência, possibilitou e possibilita a evolução contínua do homem.

Desde àqueles primórdios do jornalismo e durante muito tempo, o precursor do jornalista apreendia informação sobre outras atividades humanas, profissões, para contar histórias, reportar as notícias, mas ele mesmo não tinha uma profissão definida. Um aventureiro irresponsável de nome Marco Pólo parte com seus navios sem rumo definido; a enchente do Rio Nilo deste ano influenciou na colheita do trigo, menor quantidade, subiu o preço; um novo fabricante de perfume chegou a Paris; fulano será enforcado; o Santo Padre mandou construir outra igreja...

Os meios disponíveis para fazer suas reportagens e imprimir as notícias eram poucos e simplórios, a apuração das notícias não era nada sofisticada e o público em geral não havia descoberto ainda a importância da imprensa, falada e escrita. Jamais imaginaria uma mídia instantânea, a disseminação da informação à velocidade da luz e a possibilidade de interação com a notícia.

Não faz muito tempo, do romântico grito na rua do menino vendedor de jornais – Extra! Extra! Extra! – ao silencioso painel eletrônico na fachada do edifício de uma megalópole divulgando em tempo real a descoberta para o câncer, a eclosão de mais uma guerra insana ou o vencedor da Copa do Mundo de Futebol, passaram-se apenas cinco séculos, mas o mundo evoluiu exponencialmente muito mais em comparação com a lenta evolução do narrador no tronco ao caixeiro viajante.

O jornalista de hoje pode operar o inconsciente coletivo, operar o sentimento das massas, guindar um desconhecido à fama repentina ou à difamação irreparável instantaneamente.

Através dessa evolução, desde a prensa de Guttenberg (para não se ir mais longe) a demanda pela ética e a complexidade jurídica do termo responsabilidade solidária impõem a formação criteriosa acadêmica, e o seu aperfeiçoamento contínuo, do jornalista, de um modo tão crítico quanto o é o de um neurocirurgião, o de um engenheiro espacial, o de um jurista, cuja essência, diga-se de passagem, qualquer indivíduo poderia, em tese, ser capaz de desempenhar tal função social. Mas ele precisa ter um diploma, do contrário a sociedade, a lei, não lhe autoriza julgar ninguém.

Daí uma das razões, entre outras, da importância do diploma para o desempenho da função de jornalista.

O texto acima foi escrito em 15 minutos com a determinação de não utilizar a palavra “que”, um exercício prático para a disciplina na construção de um texto.

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/brcostal

FENAJ e o "re call" de Jornalista sem diplomaselo_fenaj(1).jpg (21224 bytes)

A Clínica Literária entra na discussão sobre o diploma de jornalista como condição imprescindível para a sindicalização e, por extensão, desempenho da função de jornalista nos meios de comunicação.

Após muita polêmica e liminares, o Supremo Tribunal Federal de Justiça (em 17 de junho de 2009) “considerou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de Jornalista para o exercício da profissão de jornalista” (Fonte: FENAJ). Em reunião do Conselho do último dia 27 de março, a FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas decidiu recomendar, aos sindicatos, não aceitarem a sindicalização e nem mesmo a associação aos sindicatos de profissionais sem o diploma de jornalista, contrariando uma decisão daquele órgão máximo do sistema de justiça do país.

A Clínica Literária se posiciona da seguinte maneira: em primeiro lugar solicita aos interessados em debater o assunto, com a mesma, a não reproduzirem parcialmente a sua opinião, sempre que possível contextualizá-la com as informações e destaques aqui neste web site; em segundo lugar convida à leitura do texto criado especialmente para o Dia do Jornalista: E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo?

Isto posto, a Clínica Literária defende a idéia de que, apesar da luta da FENAJ pelo diploma ser uma reivindicação longeva, não se pode negar que a questão passa por uma fase de transição, com sorte para a premiação ao esforço dos que defendem a exigência do diploma para a sindicalização e consequentemente do direito de exercer a profissão de jornalista somente aos profissionais diplomados.

Sendo assim, uma fase de transição, a Clínica Literária está convicta de que é necessário conquistar os opositores à idéia de exigência ao diploma, em primeiro lugar, para que mudem sua opinião, para que passem a defender também a exigência do diploma; neste sentido é preciso expor publicamente os opositores, posto que os defensores do diploma são francamente vogais voluntários e passionais a respeito.

Acredita a Clínica Literária que entre os opositores da exigência do diploma  que não sejam empresários da mídia, empregadores, e, portanto, óbvios interessados em não engessar (na sua visão) suas gestões de recursos humanos, e não enfrentarem restrições trabalhistas amparadas por um órgão de classe (os sindicatos), então, excetuando esses opositores teoricamente bem identificados, há poucos profissionais com voz forte e representativos que não possuem diploma e que seriam prejudicados tempestivamente com o seu impedimento de continuar exercendo a profissão porque não dispõem de um diploma de jornalista.

Se há uma massa muito grande de jornalistas opositores à exigência de diploma, entre esses, infere a Clínica Literária, não há muitos que não têm diploma, apenas se posicionam contra, e inflam o debate. 

Para resolver este status quo, de peneirar o mercado e separar o joio do trigo, a Clínica Literária sugere:

a) há em franca atividade no mercado de trabalho um elenco enorme de profissionais maduros, experimentados e egressos de uma época que, de fato, não era nem discutida a exigência ou não do diploma de jornalista, muitos desses profissionais possivelmente treinaram jornalistas mais jovens, possivelmente alguns deles ainda o fazem; b) este elenco poderia oferecer alguns nomes voluntários ou convidados de modo a formar um Conselho em Caráter Temporário para o julgamento de casos de formação de jornalista pela prática, contudo sem a formação acadêmica; c) o Conselho da FENAJ consultaria esse Conselho Temporário, uma vez composto, para consolidar um critério de avaliação caso a caso; d) com isso seria lançada no mercado, na sociedade brasileira, um “re call”, uma chamada para a regulamentação do exercício profissional desses jornalistas não diplomados.

Em paralelo a este ato inédito de um órgão de classe, francamente revelado ao grande público, e uma vez tendo conquistado a massa crítica de opositores à idéia da exigência do diploma de jornalista, uma profissão cuja atividade é de interesse do público em geral, bombardeado diariamente com informação e notícias as quais precisa confiar, posto que não tem, necessariamente, meios de apurá-las, a Clínica Literária sugere um debate no Congresso com parlamentares e  juristas, legisladores e profissionais do jornalismo, e representantes da sociedade civil organizada, com o objetivo de consolidar a idéia da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. E consequentemente a sua legibilidade decretada por Lei Federal.

Jornalismo - Política - Ciência & Tecnologia - Comportamento
O Diploma da Tragédia

por Luís Peazê   Publicado em 09/04/2010 11;24

Eu saía do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, na segunda-feira 5, após deixar para a presidente Suzana Blass um exemplar de o Crônico – Uma Aventura Diária Nas Esquinas do Rio, a história inédita do gênero crônica nunca antes narrada em livro, na forma de crônica, e frustrou-me a impossibilidade de discutir uma nova forma de abordar a questão do diploma de jornalismo e apresentar o projeto de Prêmio para Jornalistas Formandos, bolsas no exterior e nacionais: Suzana sofrera um pequeno acidente no trajeto para o Sindicato, por conta da chuva. Era o prenúncio da formatura dos responsáveis pelas tragédias que iriam acontecer, e aconteceram.

Corri para casa, em Saquarema, pois, sendo um irremediável velejador de cruzeiro, estou continuamente perscrutando o horizonte, cheirando o tempo, lendo as nuvens, observando o vôo das aves no céu, impaciente para voltar para o mar, revivendo mentalmente o Alvídia, a história de meus dois anos velejando no Mar da Tasmânia, de Corais, Pacífico, Arafura, Timor, num veleiro que construí com as próprias mãos. Previa muita chuva, seguida de vento, frio e das ressacas anuais desta época.

No dia seguinte, um pouco antes da meia-noite, publiquei o texto E o Diploma de Jornalista, Meritíssimo? Abaixo do texto vem o início de uma série que discutirá a formação em jornalismo, mas este não repercutiu nada, até o momento, o outro sim, incluindo ofensas morais que eu, sinceramente, não entendi, pois o texto é até ingênuo, só pretendia celebrar o Dia do Jornalista, 7 de abril, dia do início da tragédia anunciada.

O jornalista Luiz Martins da Silva publica hoje (09/04/2010) no Observatório da Imprensa um belo texto onde faz uma analogia do jornalista com a figura bíblica do atalaia, que em dado episódio (Reis), após perscrutar do alto de uma torre, se os inimigos se aproximavam, foi mandado ao encontro daqueles para perguntar se havia paz. Num outro livro da Bíblia (Ezequiel), se o atalaia vier com a espada, não tocar a trombeta, o povo não será avisado e ele será o primeiro a morrer. Isto é, se não vier para passar uma informação, então é guerra. Com o tempo atalaia virou sinônimo de torre alta para a vigilância, e grito de alerta. Realmente, boa analogia. Neste sentido tem havido um pecado reincidente, dos atalaias das redações, e não é por falta de aviso.

Peca o jornalismo praticado no dia-a-dia que não privilegia a enxurrada de informação, ações, iniciativas, estudos, e falta de estudos, pois a falta de alguma coisa também é notícia, invariavelmente alarmante, sobre as questões do meio ambiente – que nunca estão dissociadas das questões urbanas, das políticas públicas a níveis locais, regionais e nacionais, da qualidade de vida, em síntese. E, se não há qualidade de vida, é a tragédia que ocupa o seu lugar. É onde estamos no exato momento.

Nos congressos sobre jornalismo ambiental, tratado unicamente como um setor, ou uma editoria, equivocadamente, tem havido o martelar na tecla de que a mídia não cobre bem o assunto. Ou não sabe, ou não quer, mas é unânime, dentro e fora da mídia, neste caso pelos especialistas, a idéia triste de que um setor da sociedade – o quarto poder – que  poderia estar exercendo este poder não o exerce. Tragédia iminente à vista, óbvio.

Mas o viés não é este aqui, trata-se apenas de uma breve pausa no meio dos escombros do terceiro dia de tristeza generalizada   pelas conseqüências, e galeria de imagens da luta pela concorrência de audiência, número de leitores, visitas em web sites de conteúdos, para chamar a atenção, mais uma vez, dos diretores de jornais, editores, chefes de redação e repórteres de campo que contextualizem suas pautas com as questões do meio ambiente – começando pela degradação, pelo lixo, pelas coisas mal feitas, que pelo menos tragam para as manchetes a discussão da responsabilidade solidária, um termo jurídico esquecido. Um alerta inaudível em tais circunstâncias – a tragédia de Abril no Rio de Janeiro – mas fica o registro.

Trata-se esta crônica do diploma da tragédia que deve ser dado, incluindo a devida premiação, aos culpados. Quando dirijo por ruas de  bairros ou cidades ao longo de estradas visivelmente abandonadas, com lixo e construções irregulares de fácil constatação, sempre me pergunto: o que faz um prefeito em seu gabinete neste exato momento que não emprega gente para limpar (no mínimo) a sua jurisdição, o que fazem os seus secretários, os vereadores, o governador deste estado? Reflito, me frustro, desisto e num futuro muito próximo estarei lá novamente repetindo as mesmas perguntas.

Neste sentido os atalaias, eficientes ou não, dedicando o devido espaço, linhas, minutos, imagens, ou não para as questões do meio ambiente, têm alertado o suficiente para que tragédias como a do Rio de Janeiro neste inesquecível mês de abril não aconteçam. Não merecem o diploma, nem precisam dele para exercer o seu poder de informar a sociedade. Os merecedores do diploma da tragédia são: o prefeito, o governador, seus secretários, os vereadores, os deputados estaduais, um conjunto de agências e autarquias, e por fim um pouco de louvor à sociedade como um todo, embora esses últimos, pela experiência da história, serão os únicos a serem agraciados com as honras do diploma dessa tragédia.

Metáfora irônica, essa do diploma, de quem escreve com um cadáver entre os dentes, incapaz de provocar uma revolução necessária, aliás, foi-se o tempo das revoluções, essa do diploma de jornalista, por exemplo, eu, que nem tenho diploma, não preciso de um para ser jornalista há décadas, quero defender, acho que é importante o estímulo à formação acadêmica, quanto mais formal, densa, profunda possível, melhor, embora imprescindível. Mas o que se vê são escombros intelectuais, enxurradas de interesses paralelos, explosões insanas travestidas de elaborações teóricas, tudo à razão da vontade de ganhar dinheiro e poder, ou do medo de perdê-los.

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