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Falta pouco para o Kindle tornar-se obsoleto

    Páginas eletrônicas para tocar, folhear e talvez cheirar

por Luís Peazê      Publicado em 05/11/2009 08:35

Não me surpreenderia, se antes de se tornar commodity, o Kindle torne-se obsoleto, mas antes de elaborar sobre esta novidade, deixe-me esclarecer, caro leitor, que venho de longe, do tempo em que não se dizia informática, mas sim processamento de dados, o tempo dos computadores em que se amarrava cachorro com lingüiça.

Tínhamos que estudar a função de um escritório, ir para nossa mesa de trabalho, definir um sistema de programas através do desenho de um fluxograma de tarefas e rotinas, definir um conjunto de programas para essas tarefas e rotinas e mais um conjunto de programas para superar as precariedades (e bota precariedade nisso) dos recursos eletrônicos disponíveis, e nem é bom lembrar tudo o que a gente tinha que fazer, naquela época, para imprimir uma simples folha de pagamento, ou lista de clientes.

Tenho uma foto no 1º Simpósio Internacional de Processamento de Dados em São Paulo digitando no primeiro teclado de computador produzido no Brasil, uma vedete, parecia a Gisele Bündchen, todo mundo queria chegar perto. Naquela época escrevi na minha coluna de jornal que estava encantado com os avanços da tecnologia computacional. Entre as maravilhas que divulgava, chamava a atenção para o fato de ser possível armazenar 16 milhões de informações em um espaço do tamanho de uma unha do polegar. Ora, hoje é possível armazenar aquele punhadinho de informação num espaço impossível de ser visto a olho nu. O problema naquela época era a capacidade de armazenamento, a velocidade e o sonho das redes de teleprocessamento, que deu no que deu, a Internet.

O armazenamento é piada, não é mais problema. A velocidade vai ficando cada vez sem mais desafios, especialmente depois dos velhos transistors darem lugar para os chips e estes para a febre da nanoteconologia (assunto para outro artigo em outra praia). Pois as transmissões em tempo real também não representam mais desafio, inclusive, em breve, o acesso à Internet será gratuito -- não acredita? Tudo bem, mas foi nessa enxurrada de avanços da eletrônica, informática, comunicação e da Internet (uma ramificação extravagante para o jurássico processamento de dados) que surgiu o Kindle, um dispositivo do tamanho de um livro, que permite ao leitor armazernar uma biblioteca inteira num espaço do tamanho da palma da mão. O seu design é de tal modo que com o polegar, deitado assim oh, no sofá da sala, você pode ir passando as páginas até pegar no sono, se tiver lendo um Ulisses, por exemplo.

Mas os amantes do livro de papel continuam dizendo que gostam de cheirar um livro, que há algo de fetiche na relação, acredito, e sou suspeito, especialmente pelo fato de ter realizado o sonho de fazer a viagem de Jack Kerouac pelos Estados Unidos com uma mini biblioteca particular no banco de trás e no bagageiro do meu carrinho velho comprado num “junk yard”.

Mas aí está a novidade, sem mais delongas: o mundo assistiu Mr. Barack Obama holográfico, isto é, dando uma entrevista para a CNN como estivesse ali, ao vivo, junto à bancada do entrevistador, mas não estava. Esta holografia aplicada à eletrônica no campo das comunicações de mãos dadas com a tecnologia 3-D volumetric display’s , que eu traduzo livremente como “exibição volumétrica em três dimensões”, tornará possível um livro na Internet tão real que poderemos não só vê-lo em toda a sua formosura, texturas e o que mais motivar esses tarados bibliófilos, eu incluso. Será possível também mover, folhear o livro virtualmente de modo real (?), sem falar que a voz do autor poderá estar ali também, entrelinhas, e um cem número de outras aplicações integradas, quem sabe o sabor e o cheiro.

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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