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Mundo - Jornalismo - Comportamento
Um dia na vida de um jornalista
cobertura de rua da Revolução dos Cravos
por Pedro Laranjeira publicado em
24/04/2010, Porto, Portugal 14:10
...subi para o tanque estacionado para tentar
dialogar com quem o ocupava... como ninguém estava visível..., mergulhei metade do
corpo, cabeça para baixo, na abertura circular do tanque, até quase encostar a cara a um
militar... Perguntei-lhe: ´o que é que estão aqui a fazer?..´ a resposta foi,
no mínimo, bizarra, mas foi esta, palavra por palavra: Eu praticamente não sei o
que é que estou aqui a fazer! acrescentou, no entanto, que, sob ordem
superior, estava preparado para abrir fogo contra qualquer acção inimiga.
Pedro Laranjeira, testemunha
ocular, repórter de rua que cobriu o Dia da Revolução dos Cravos,
publica hoje na revista digital FreeZone
(Porto) texto digno de um romance, com a diferença de que é tudo verdade, jornalismo
puro e de qualidade rara, sobre o episódio da história contemporânea em Portugal, a
Revolução dos Cravos, nome dado ao golpe de Estado militar que derrubou, sem
derramamento de sangue, o regime ditatorial herdado de Oliveira Salazar. As fotos, de uma
série (Jorge Castro) do artigo de
segue são inéditas, jamais publicadas, todas podem ser vistas no FreeZone.
UM DIA NA VIDA DE UM JORNALISTA
[íntegra
do artigo]
testemunho de Pedro Laranjeira, Porto, Portugal, 24 Abril
2010 10:20
com fotografias de Jorge Castro (originais nunca antes publicadas)
Ao romper da nova aurora, o
Terreiro do Paço ia acolhendo revoadas de madrugadores a caminho de um dia de trabalho
que não iria acontecer.
A revolução estava na rua.
Os cravos só chegariam depois,
mas o perfume da surpresa deixava em aberto um pender de balança que ainda não se
percebia bem: de um lado a suspeita de novos desaires, pela força de um regime enraizado
por décadas, do outro a esperança, uma luz ao fundo de um túnel de vozes sem medo que
começavam a lançar o grito de muitas ânsias contra as paredes desertas dos ministérios
abandonados.
Quem ali chegava já não seguia
os destinos rotineiros, quem passava ao lado era atraído pelo crescendo de vozes, pelo
ajuntamento, pelo mistério do que estaria a passar-se, logo substituído por uma entrega
de coração fosse ao que fosse que aí viesse, desde que se vestisse de novas roupagens e
uma promessa de mudança.
A multidão engrossava, a velha
praça do comércio ia-se enchendo de portugueses.
Havia alguma confusão na troca de
olhares, ainda... eram mais os que perceberam de imediato, mas na multidão havia rostos
baixos e um deslizar para as periferias: assistir, sem mostrar o pensamento... até ver no
que tudo dava.
De repente, a sensação de que um
pássaro furtivo tinha pousado junto ao edifício da Câmara, na Praça do Município. Um
tanque marcava, claramente, a força da resistência, enquanto o Capitão Salgueiro Maia,
mesmo ao lado, ordenava ainda a posição dos carros de combate com que, horas mais tarde,
faria cair finalmente a ditadura.
É o tipo de situação a que um
repórter não resiste...

Hoje acho
ridículo, não o que fiz, mas o que pude fazer sem que ninguém mo impedisse: subi para o
tanque estacionado para tentar dialogar com quem o ocupava... como ninguém estava
visível, nem uma cabeça de fora, mergulhei metade do corpo, cabeça para baixo, na
abertura circular do tanque, até quase encostar a cara a um militar que lá dentro não
sabia bem como lidar comigo. Perguntei-lhe: o que é que estão aqui a
fazer?... a resposta foi, no mínimo, bizarra, mas foi esta, palavra por
palavra: Eu praticamente não sei o que é que estou aqui a fazer!
acrescentou, no entanto, que, sob ordem superior, estava preparado para abrir fogo contra
qualquer acção inimiga.
Não me soube explicar o que
entendia por acção inimiga, era o que lhe mandassem fazer... mas nem mesmo o
brigadeiro em desespero que dera origem àquele estertor chegou a conseguir que ele, ou os
seus camaradas de armas, as chegassem a usar.
Dei uma volta à praça, até à
amurada junto ao rio, onde uma coisa estranha me prendeu a atenção. Um vaso de guerra
manobrava bem à nossa frente, com os motores a trabalhar e esteiras de espuma a mostrar
as mudanças de posição.
Muitas histórias se têm contado sobre este
episódio, a maior parte delas fantasiosas, porque hoje se sabe o que se passou. Tratava-se
da Fragata Almirante Gago Coutinho, comandada pelo Capitão Seixas Louçã, pai do actual
líder do Bloco de Esquerda.
Naquele dia e naquele local, foi
fácil imaginar que o barco manobrava para atingir uma posição ideal de tiro e que iria
abrir fogo sobre o Terreiro do Paço. Muita gente pensou isso, nesses minutos. Se tivesse
acontecido, teria sido um gigantesco banho de sangue, uma vez que por essa ocasião
estavam na praça mais populares que soldados.
Só muito mais tarde, porém, se
veio a saber que nunca existiu o menor perigo. A fragata esteve sempre sob o firme comando
do seu Capitão, que era um conhecido opositor ao regime vigente e teve o cuidado de
mandar colocar todas as peças de artilharia, que nunca estiveram carregadas, no máximo
grau de elevação, para que as tropas de Salgueiro Maia percebessem que não tinha
intenção de abrir fogo. As manobras destinaram-se a oferecer o menor flanco possível a
uma ameaça entretanto recebida de que o vaso de guerra estava na mira dos canhões do
Forte de Almada e do Cristo-Rei.
Portanto, nunca ouve perigo, mas
nessa altura ninguém o sabia... e o sustou ficou na memória de quem ali esteve.
Entretanto, Salgueiro Maia reuniu
os jornalistas presentes e deu-nos um Unimog para integrarmos e acompanharmos
a coluna que iria avançar sobre o Carmo, onde se sabia estarem os membros do governo,
incluindo o próprio Marcello Caetano.
Foi então que, verdadeiramente,
começou a Festa!
O povo acompanhou as viaturas
militares até ao Rossio e na subida do Chiado, onde pela primeira vez começou a
ouvir-se, por entre gritos e palavras de ordem, o Hino Nacional.
Cada vez era maior o coro de
vozes. Já não havia dúvidas sobre o significado daquilo tudo. Dos gritos mais comuns,
dois dos que maior número de vezes se fizeram ouvir foi o de acabem com a guerra
colonial e libertem os presos políticos, sempre pontuados por um
Viva a Liberdade que surgia de todos os lados e era tom de mil vozes.
A mudança estava em marcha.
Chegados ao Largo do Carmo, as
pesadas portas estavam fechadas.
O comandante das forças
distribuiu os seus homens e as viaturas, durante um longo impasse em que todos os receios
chegaram de muitas origens, incluindo a informação de que um héli-canhão se preparava
para limpar o Largo.
Mas nada de dramático interrompeu
o curso de um dia que já nada faria parar. Passou um avião, depois um helicóptero, mas
entretanto Salgueiro Maia confirmara que todo o aparelho militar significativo estava sob
o seu controlo e tinha plena confiança no propósito inicial, que havia sido conduzir as
operações de modo a que não houvesse baixas.
Houve, sim, alguns sustos, mas
nada que fizesse uma diferença de maior no desenrolar das coisas.
Alguém avisou que uma coluna da
GNR se dirigia para o Largo Rafael Bordalo Pinheiro, o que dividiu os populares entre uns
poucos que fugiram e uns muitos que para lá foram, esperá-los.
Salgueiro Maia colocou homens em
posição e deu-lhes ordem para não abrir fogo.
Quando a coluna chegou ao Largo,
foi recebida com pedras e apupos, por entre as notas da Portuguesa. Mas
limitaram-se a ficar de pé, à frente dos carros, sem tentar sequer uma ocupação que
teria sido impossível.
Foi um momento tenso, no entanto,
em que tudo poderia ter sido estragado.
Mas o bom senso prevaleceu e
militares de facções opostas, separados por menos de dois metros, armas nas mãos e
olhos nos olhos, souberam cumprir as ordens de manter as armas caladas e ir construindo
uma revolução sem sangue.
Como Salgueiro Maia havia
comentado minutos antes, eram todos portugueses, irmãos de farda e irmãos de raça, não
iriam abrir fogo e não o fizeram!
Mas houve quem não se comportasse
à altura dessa nobreza: onde as fardas tinham respeitado a vida, as forças civis não
encontraram a mesma capacidade... e os tiros chegaram ao Chiado...
Foi o início da única mancha que
ensombrou o 25 de Abril. Da sede da PIDE-DGS, na António Maria Cardoso, veio a prova de
que o regime ensinara bens os seus peões. Um grupo de populares com uma bandeira nacional
e o hino nas vozes foi recebido a tiro. Primeiro atiçaram-lhes um cão, de que se
protegeram com paus de uma obra anexa, depois dispararam, rajadas sucessivas. Foi aquilo a
que os ingleses chamam fist blood, apontando para quem o derrama: naquele dia,
foi a polícia política que derramou o primeiro, numa atitude que culminaria nessa mesma
noite, já a revolução era vencedora e o governo estava deposto, com um banho de sangue
em que quatro pessoas foram mortas e quarenta e cinco feridas.
No melhor pano cai a nódoa e, se
a revolução dos cravos ficou para a história como a pureza desse linho, os agentes da
então ex-polícia política foram quem sujou a pintura, neste caso de vermelho-sangue.
Nessa longa tarde de expectativas
e ânsias, houve nervos de todas as franjas.
Quase em permanência, o receio de
atiradores furtivos nos telhados: problema que o alferes Carlos Beato, hoje Presidente da
Câmara de Grândola, resolveu com a ocupação dos pisos superiores do prédio à frente
do quartel, mas sem abrandar os cuidados até ao último momento, não fosse o diabo
tecê-las.
Depois, os sucessivos pedidos de
rendição de Salgueiro Maia às forças sitiadas, vários prazos alargados, ultimatos sem
resultado.
Ele próprio chegou a recear o
pior e tentou evacuar os civis do Largo, mas sem êxito.
Do outro lado, silêncio.
Perante o impasse, o Capitão deu
ordem a uma Chaimite para abrir fogo sobre o topo do edifício.
Foi um momento electrizante,
quando aconteceu.
Aliás, devo dizer que o foi
particularmente para o Adelino Gomes e para mim, que passamos por uma das mais arrepiantes
experiências a que alguém pode ser exposto:
uma multidão em pânico.
Estavamos por detrás da Chaimite
que abriu fogo sobre o quartel e quando as cápsulas das balas da auto-metralhadora
começaram a chover-nos sobre as cabeças, a multidão que nos engolfava entrou em pânico
e fomos arrastados rua abaixo, por um dos becos que sai do Largo.
Percorri seguramente 15 metros sem
que os pés me tocassem no chão, perdi um sapato, partiu-se-me um dos gravadores. Ainda
hoje tento imaginar o que teria sido se a mole humana, ao invés de me
espremer para cima o tivesse feito para baixo...
Entretanto, a pressão que
mantinha os militares tão tensos como cordas de uma viola, cedeu finalmente perante o
tonitroar da Chaimite e o tiroteio generalizou-se. Foram precisas repetidas ordens de
alto ao fogo através do magafone de Salgueiro Maia até que conseguisse pôr
um fim às rajadas, mas fê-lo sem que uma única bala perdida tivesse encontrado carne.
Um coronel mensageiro que entrara
algum tempo antes no quartel saiu entretanto e bastou abordá-lo para perguntar se tinha
ou não havido rendição para perceber que as coisas não estavam a ser fáceis:
chamou-nos chatos e gastou mais tempo a perguntar-nos se quando uma senhora estava a ter
um filhos nós íamos perguntar-lhe se estava com dores do que a responder com um simples
sim ou não, o que não fez...

... era uma tarde de nervos,
certamente de todos os lados.
Foi por causa desse nervosismo à
flor da pele que Francisco Sousa Tavares acabou por subir a uma guarita, mesmo à porta do
quartel, e exortou a multidão a manter a calma e a dignificar as conquistas acabadas de
alcançar, retirando ordeiramente, para que as forças armadas vitoriosas pudessem
concluir o dia glorioso que haviam inscrito nas páginas do nosso futuro.
Foram seis horas e meia frente ao
velho bastião da guarda, até que Spínola recebesse a rendição de Marcello Caetano,
que pedira a presença de um oficial general, a quem entregaria o poder, para que
não caísse na rua.
... e foram trinta e seis anos
desde então!
O mundo deu muitas voltas,
Portugal também.
Somos agora um povo mais livre,
onde não é preciso calar o pensamento!
Resta-nos continuar a aprender e
ensinar aos nossos filhos que a liberdade não é um bem que sempre existiu nem se
perpetua a si própria: é preciso saber construí-la em cada dia e dar-lhe a dignidade
com que a História nos recordará!
NOTA DA CLÍNICA LITERÁRIA: Adicionalmente o link a seguir é um material sonoro
fabuloso para pesquisadores e estudantes de história e particularmente de jornalismo. É
uma obra prima como reportagem de campo, de rua, sobretudo emocionante por ser um pedaço
vivo da história do mundo, da vitória da luta pela liberdade de expressão, sem sangue,
com cravos. Dali surgiu o Dia da Liberdade em Portugal. O conteúdo desta obra deriva de 7 horas de documentos originais de
som captados por Pedro Laranjeira e Barbara Skolimowska em plena eclosão da Revolução
dos Cravos Ouça aqui>>>
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Pedro Laranjeira é jornalista,
escritor e poeta, com 40 anos de carreira em Rádio e Imprensa. Autor dos livros
Pulsar, Cristóvão Colombo, O Alentejano que descobriu a América
e Não me tirem o útero!..., é um homem polémico sempre a pôr o dedo em
feridas. Foi durante 6 anos membro do Conselho de Opinião da RTP e realizou a reportagem
de rua do 25 de Abril, editada em disco. Recentemente, foi Director de Informação de uma
estação de Rádio e Director de uma revista mensal de grande circulação.
[FONTE: FREEZONE]

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