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Mundo - Agronegócio - Economia - Meio Ambiente
Estudo do UNEP afirma:
comer menos carne melhora o meio ambiente
por Luís Peazê publicado em 03/06/2010 - 15:30

Aconteceu na sede da Comissão Européia, nesta quarta-feira 2, em Bruxelas, na Bélgica, o "Painel Internacional de Gestão de Recursos Sustentáveis". O evento lança um estudo de três anos feito por especialistas contratados por agências da ONU que visa o "desacoplamento" do crescimento econômico das degradações ambientais mundiais. Entre uma profusão de dados percentuais que demonstram a agricultura como uma das principais fontes causadoras de degradação do meio ambiente, o estudo recomenda uma dramática mudança no hábito alimentar das pessoas ao redor do mundo, o mais longe possível do consumo de carne e produtos derivados de animais, como forma de "redução substancial dos impactos ambientais".

O painel promovido pela Divisão de Tecnologia, Indústria e Economia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, UNEP, reúne 27 especialistas mundiais no assunto gestão de recursos sustentáveis, num esforço de síntese da bibliografia de estudos globais para diagnosticar quais as doenças do planeta que causam mais danos e merecem, portanto, a prioridade de tratamento pelos governos.

No topo da lista está o uso do combustível fóssil e a mineração, ou produção de certos materiais com alta demanda de energia, tais como ferro, aço e plástico. Mas a surpresa é que a agricultura compartilha do topo da lista como fonte causadora dos maiores danos ao meio ambiente. É citada no painel como uma das três principais pegadas ambientais humanas. Responsável pelo consumo de 70% do reservatório de água doce do planeta e 38% do uso da terra. A produção de alimento causa 19% das emissões de gases com efeito estufa, 60% da poluição de fósforo e nitrogênio e 30% da poluição tóxica na Europa. O dado mais alarmante é que a carne e os laticínios representam a categoria da agricultura mais ambientalmente exaustiva, desde que os animais alimentam-se com mais da metade das lavouras do mundo, além de produzirem eles mesmos gases de efeito estufa.

Brasil instala adidância agrícola na Europa

Esta reportagem conversou com o autor líder do estudo, o Dr. Edgar Hertwich, professor e diretor do Programa de Ecologia Industrial da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e também sócio da empresa norueguesa Misa - sistemas de análises ambientais. Indagado sobre previsões objetivas, o Dr. Hertwich informa que "esse estudo partiu da catalogação dos impactos ambientais da Avaliação dos Ecossistemas do Milênio (programa financiado pelas Nações Unidas, iniciado em 2001 com um orçamento de 24 milhões de dólares) e do trabalho da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre o peso da doenças no mundo". Enquanto aquela primeira fonte de informação, diz ele, "faz um alerta sobre a possibilidade de extinção de muitas espécies, não vai muito mais além disso. O estudo desse painel está preocupado com o estado do meio ambiente e sobre as tendências de extração de recursos sustentáveis e aumento das emissões, e não investigou os potenciais impactos da continuação dessa tendência".

Este painel realiza-se na sede da Comissão Européia, colocando em destaque o segmento do agronegócio, no momento histórico em que o Brasil instala o seu primeiro adido agrícola, um posto avançado inédito das relações comerciais internacionais. Este posto foi instituído pelo Decreto Nº 6.464, de 27 de maio de 2008, e, somente após dois anos, portanto, é nomeado o engenheiro agrônomo Odilson Luiz Ribeiro e Silva, executivo do Ministério da Agricultura pós-graduado em economia e sociologia rural pela Faculdade de Agronomia de Gembloux, na Bélgica. Procurado por esta reportagem, entretanto, informou que está "com problemas de horário, na missão de instalar a adidância agrícola". O posto de adido agrícola, escolhido segundo aquele decreto por concurso interno, é uma prática comum de outros países e uma reivindicação antiga do setor. Sua função básica é exercer a missão permanente de assessoramento especializado em assuntos agrícolas junto às Missões Diplomáticas brasileiras.

Foram designados, pelo Presidente da República, oito adidos agrícolas escolhidos em processo seletivo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para ocuparem seus postos nas embaixadas do Brasil na África do Sul, Argentina, Bélgica, China, Estados Unidos, Japão, Rússia e Suíça.

Assim, a seleção de defesa dos interesses comerciais agrícolas no exterior parece ter entrado em campo, ainda que instalando as suas respectivas "adidâncias". Mas esse painel endossado pela UNEP, encabeçado por Ashok Dosla, presidente da União Internacional para a Conservação da Natureza, pelo cientista alemão Ernst von Weizsaecker, incluindo vários membros americanos, encaminha-se, pelo menos tecnicamente, para uma rota no mínimo antagônica ao atual status quo de competição no mundo internacional do agronegócio. Eles ecoam em uníssono a seguinte prescrição: "entre as melhores opções que desacoplariam a produtividade de áreas prioritárias dos danos à natureza estaria suprir as necessidades humanas com mercadorias e processos de produção mais magros".

A saída é buscar a felicidade

No caso das mercadorias de bens de consumo e correlatos, menos consumo de energia e inovações criativamente sustentáveis. No caso do agronegócio, dada a previsão de crescimento de 50% da população mundial em 2050, que a alimentação das pessoas utilize as grandes áreas de terra ainda disponíveis com mais grãos e vegetais em detrimento da pecuária.

As recomendações do longo estudo e opiniões de especialistas consultados também incluem inovações legislativas e de regulamentações, tais como incentivos, instrumentos econômicos e campanhas de sensibilização.

Outros resultados interessantes do estudo ressaltam que os impactos ambientais aumentam em torno de 80% com o aumento do poder aquisitivo das pessoas, contrariando o pensamento de que quanto mais economicamente saudável for a população, mais verde ficará o planeta. Outro dado a considerar no cenário internacional é que até 30% das pegadas ambientais ocorrem além dos territórios nacionais devido as importações.

Sobre a busca incansável dos países pelo crescimento de seu produto interno bruto, como uma óbvia sensação de contrariedade ao estudo, o Dr. Hertwich respondeu que: "vê esforços de redução de emissão em vários níveis..., embora não saiba se são suficientes. Mas gostaria de ver o desenvolvimento de medidas governamentais voltadas para o bem-estar que expressem mais precisamente o quanto realmente as pessoas se sentem bem, que apontem para o trabalho da Comissão Stiglitz, cujas medidas de prosperidade vão além do PIB".

A Comissão Stiglitz é uma iniciativa, do presidente francês Nicolas Sarkozy, para medir o desempenho econômico social de países. Esta nova abordagem mostra que a medição do PIB de um país não representa o grau de qualidade de vida da sua população. Cada vez o PIB - Produto Interno Bruto é criticado por especialistas como uma medida ultrapassada. Criado em 1950, este indicador sempre limitou-se a atividades que envolvem dinheiro. Em outras palavras, não estamos medindo felicidade.

O Painel Internacional para os Recursos Sustentáveis ocorre na semana verde, instituída pela UNEP na Europa, às vésperas da celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, e tem a participação de 20 países, incluindo África do Sul, Alemanha, Argentina, Austria, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, Filipinas, Finlândia, França, Índia, Japão, México, Nigéria, Noruega, Quênia, Reino Unido, Rússia e Tailândia. O relatório completo por ser conhecido no URL http://www.unep.fr/scp/rpanel/ .

setinha down.JPG (713 bytes) Mundo - Jornalismo
Notícia inofensiva sobre bomba, mole mas com diploma

por Luís Peazê publicado em 30/05/2010, 17:30

Em 1987 eu realizava o sonho de refazer a viagem através dos Estados Unidos, lida em On the Road de Jack Kerouac e, como era sonho, também brincava que estava no filme Sem Destino, cujo diretor Denis Hooper falecera semana passada, e quase me matei acidentalmente no deserto de Mojave. Fotofóbico, fui iludido pela luz difusa do pôr do sol, perdi momentaneamente a noção de distância e quase me atirei no que eu pensava fosse uma rampa de areia macia. Tratava-se da beirada de um abismo, início de um lugar com o nome de Portal do Vale da Morte.

Não poderia imaginar que, décadas mais tarde, estaria escrevendo uma crítica do jornalismo que perdeu a chance de chamar a atenção do mundo com uma notícia bombástica, ou, pelo menos que a notícia sobre o teste do míssil X-51A Waverider hipersônico americano fosse contextualizada, e não apenas mal copiada do press release da empresa que fabrica o tal equipamento bélico. Teste este realizado no Portal do Vale da Morte.

O assunto não poderia ser mais momentoso, mas a nossa imprensa parece não pensar assim. Primeiro, porque foi ali (há uma bandeirinha dos Estados Unidos sinalizando) naquele vale que caiu, matando o seu piloto, o veículo aéreo tripulado X-15A em 1967, evento que fez com que o governo americano cancelasse o projeto X-15A; segundo, se a notícia fosse contextualizada apropriadamente.

O caminho da morte da notícia

Em 26 de maio último a assessoria de comunicação da empresa Pratt & Whitney Rocketdyne (fabricante do X-51A Waverider junto com a Boeing) dispara um press release, através da distribuidora de notícias plantadas PRnewswire. Quem primeiro avançou na notícia foi a AFP, no mesmo dia, através de seu acordo com o Yahoo news. A France Press (AFP) publicou um pedaço do press release original e, em seguida a EFE (agência espanhola), um pedaço quase idêntico da notícia, porém, ambas somente no dia 27 (será que o editor trabalha para as duas empresas?). A partir daí o mundo (o pequeno mundo dos que se interessam por testes de aviões hipersônicos tripulados) ficou sabendo da notícia, através (no Brasil três dias depois) do Último Segundo, do Correio Braziliense, do UOL, de todos os veículos que acharam interessante publicar esta que já se tratava de uma notícia morta, após ser mutilada. Seria uma vibrante notícia para futuro “suíte”, se fosse divulgada integralmente e contextualizada. Mas não foi.

Não bastasse a mutilação, erros de tradução

Fora a manchete, alterada do press release original, além de ser mutilada, a coitada da notícia foi levemente adulterada, por conta de erros de tradução do inglês para o português. O press release produzido pela própria empresa destaca entre aspas uma declaração do diretor responsável pelo teste do míssil hipersônico.

A declaração é que eles, no laboratório, “estão em êxtase” por terem concluído o teste, e o tradutor preferiu dizer que “eles estavam felizes”. Relevável, concordo, mas uma de suas declarações, escolhidas a dedo pela assessoria de imprensa, não foi aproveitada nem pela AFP, nem pela EFE e, claro, tampouco pelos tupiniquins Último Segundo, Correio Braziliense, UOL, por aí afora. Trata-se de uma bomba, ignorada pelo jornalismo de diplomados vigente.

We equate this leap in engine technology as equivalent to the post-World War II jump from propellers to jet engines." A Clínica Literária, que além de agência de notícias sob demanda é também prestadora de serviços de tradução, assim traduz a bomba: “Comparamos este salto na tecnologia de motores como o equivalente ao pulo pós Segunda Guerra Mundial das hélices aos motores a jato”. Mas o detalhe importante, contextualizado apropriadamente, é que a notícia não se refere somente ao teste de um motor capaz de levar uma aeronave a um vôo seis vezes mais rápido do que o som (Mach 6, no jargão do meio), mas do teste de lançamento de um míssil acoplado nesta aeronave não tripulada.

Repetindo: uma aeronave similar, porém tripulada, caíra no Portal do Vale da Morte, em 1967, e o programa foi cancelado – pelo visto, temporariamente. Mas observe: o programa cancelado em 1967 que matou um piloto foi do X-15A e a matéria atual é sobre o X-51A. Contudo, a matéria publicada nos jornais brazucas mistura imperdoavelmente os dois números.

Do mesmo release original: “The X-51 fits in with US plans to hit distant targets with conventional weapons within an hour, dubbed "prompt global strike." Tradução: O X-51 se encaixa nos planos dos Estados Unidos, apelidados de “ataque global”, para atingir em uma hora alvos distantes com armas convencionais.

Outra informação (ignorada) importante da notícia é que o teste foi interrompido, segundo uma declaração por escrito da Força Aérea Americana, porque foi observada uma anomalia no vôo.

Amolecimento da notícia, apesar da manchete dura

O PR original foi disparado com a seguinte manchete induzida: “Motor Scramjet da Pratt & Whitney Rocketdyne impulsiona o Histórico Primeiro Vôo de um X-51A”.

A AFP tempestivamente saiu com: “Força Aérea dos Estados Unidos testa míssil hipersônico”. O Correio Braziliense não brincou em serviço e reproduziu quase na íntegra, tanto o título, quanto o pedaço do press release a esta altura mutilado, e também com erros de tradução.

A EFE Brasil, copiada pelo plantão do Último Segundo, deu: “EUA testam míssil seis vezes mais rápido que o som. Míssil pode ser usado para atacar alvos distantes em menos de uma hora. Só faltou o estampido. Talvez porque soubesse que o texto era aquele pedaço morto de notícia.

Oportunidade perdida

Há algum tempo atrás, Ana Gerez, diretora da EFE no Brasil, fez eco com outros correspondentes internacionais, em evento para estudantes de jornalismo na UERJ, realçando a necessidade de explicar melhor, certas informações, em notícias de seu país de origem. Para o público leitor inserir-se no contexto de uma notícia que talvez não lhe faça sentido, se não for explicada um pouco mais.

O mundo assiste com interesse a interferência do Brasil e Turquia na questão do potencial de armas atômicas do Irã, em contraposição ao interesse dos Estados Unidos e seus seguidores, sobre a mesma questão. Em discurso semana passada  o Presidente Lula insinuou que é necessário que os Estados Unidos e outros países que já possuem armas atômicas se desfaçam das mesmas. Por que os Estados Unidos, Rússia e demais países que possuem poder atômico de destruição exigem que o Irã, ou qualquer outro país, pare de fabricar esse tipo de arma, se eles mesmos não abrem mão da mesma?

Como se vê, a partir de agora, além do poder atômico, os EUA podem disparar uma bomba atômica acoplada a uma aeronave não tripulada que viaja à velocidade seis vezes maior do que a da luz. Isso é ou não é uma contextualização para ser explorada, apurada? Ou basta resumir (errado) o press release da assessoria de imprensa da empresa que fabrica o X-51A?

Recentemente William Bonner produziu calculadamente um sorriso de saudade, ao noticiar “a aposentadoria do ônibus espacial americano”, a notícia era só esta e o sorriso do simpático âncora, belas imagens e o texto da aposentadoria da coisa, nada mais, em pleno prime time. Não havia mais nada para informar sobre a descontinuidade do negócio?

Hoje, o Último Segundo publicou o resultado de um estudo do INEP sobre o percentual alarmante de professores do ensino fundamental e médio regular sem diploma de licenciatura. O texto é impecável, quanto à receita de bolo da pirâmide invertida apreendida na faculdade, mas contém inúmeros erros de português, de ortografia a paralelismos. Será que diploma de jornalista resolve este e os outros problemas de nossa imprensa, como os das matérias do míssil e do ônibus espacial?

Continuo sonhando que sim.

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