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Política - Jornalismo - Meio Ambiente Marinho & Costeiro
Niterói: do sorriso pelo lixo à tristeza
Hora de achar os responsáveis solidários
por Luís Peazê publicado em 13/04/2010 10:00

Arquivo pessoal de Luís Peazê (2006)
A cidade
sorriso, como passou a ser chamada Niterói após perder o status de capital fluminense,
no início dos anos 1900, substitui a alegria (de algumas pessoas para sempre) para a
tristeza, após as inesquecíveis chuvas pós Páscoa de 2010, e ganha a lembrança
perpetuada de que milhares de seres humanos ficaram desabrigados, e centenas de seus
ex-sorridentes moradores morreram enterrados no lixo. Lixo o qual servia de base para
casas precariamente construídas na encosta de um morro, precariedade a qual o
prefeito declarara publicamente, em plena tragédia, tinha apenas uma vaga idéia de que
aquele morro era uma área de risco, realidade ignorada por todos os demais
responsáveis: do cadastro técnico municipal às obras e saneamento, do fornecimento de
água à energia, do transporte à limpeza urbana e à defesa civil.
Niterói, em
tupi lugar de águas escondidas, chora um dilúvio de lágrimas à vista de
todos, que se estende por onde quer que as espetaculares imagens de TV tenham chegado,
espetáculo providencial, neste caso (dos males o menor), pois ajuda a chamar a atenção
para a irresponsabilidade do poder público que não pode ser ignorada pelo poder da
justiça. A mesma justiça que contraria a vontade do nosso Presidente da República que
insiste em querer ignorar as leis que não lhe são convenientes, cito: caixa 2
(lembremo-nos de sua entrevista a respeito da matéria); uma perereca não pode impedir a
curva de um rio (sobre as obras de transposição do Rio São Francisco); greve de fome
por motivo político é a mesma coisa que greve de fome de bandido (caso dissidente
cubano); propaganda política; só para citar alguns casos. Da mesma forma que o Sr. Jorge
Roberto Silveira, prefeito de Niterói, se defende antecipadamente de uma acusação do
ministério público (ainda por fazer) inferindo irônica e arrogantemente que não
é hora de achar culpados, é hora de solidariedade.
Imaginemos o
seguinte cenário, utópico: não havia um lixão em pleno perímetro urbano na cidade
sorriso, com o terceiro melhor IDH do Brasil; aliás não havia lixão algum em Niterói,
todos os espaços de descarte adequado de resíduos sólidos eram aterros sanitários; na
linguagem técnica, aterro sanitário sugere uma obra de engenharia apropriada para o
descarte ambientalmente amigável (lixão é coisa irregular), inserido num contexto de
gestão responsável e eficiente de lixo, incluindo progamas de reciclagem e outras
ações pertinentes; especialmente em se tratando de uma cidade de grande densidade
demográfica litorânea, isto é, potencialmente geradora de lixo marinho de base
terrestre, uma das maiores ameaças que o planeta sofre atualmente, segundo a UNEP/ONU.
Continuando a utopia, não havia casas construídas irregularmente e com o agravante de
obras promovidas pelo poder público naquele Morro do Bumba.
Passando para a
realidade imediata, choveu mais do que a pobre estrutura de meteorologia brasileira
poderia prever, ruas ficaram inundadas (como sempre ficam em Niterói quando chove
normalmente, veja foto ao lado tirada de minha janela, de uma esquina da Rua Roberto
Silveira, ex-governador, pai do atual prefeito, tabmém Roberto Silveira), nenhuma casa
teria desabado, nenhuma morte teria acontecido, exceto aquelas provocadas por motoristas
insanos. Desta realidade para aquela utopia é fácil chegar-se ao culpado. Esta é uma
investigação pela via do conceito jurídico (pouco utilizado, esquecido
até) da responsabilidade solidária: sou culpado solidário porque fui
capaz de evitar uma transgressão, um crime, uma morte, mas me omiti, não agi, ignorei
minha responsabilidade aproximada.
No caso da prefeitura de Niterói
foi bem próximo, este caso da tragédia pós Páscoa de 2010, que provocou tantas mortes,
as primeiras merecendo hoje uma missa dos sete dias, na igreja de São Lourenço, marco da
fundação da cidade, num lugar tão esquecido da mesma, sujo, com lixo visto a céu
aberto nas suas redondezas, esquecimento continuado do Sr. Prefeito que clama por
solidariedade, inclusive há uma campanha em rádio, pedindo solidariedade. Que haja,
responsabilidade solidária, jurídica, que nada seja esquecido.
Luís Peazê, que já jogou
bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos
Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária Consultoria e
Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade sem fins
lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria

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