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O Beijo, no fundo, nem sempre é româtico
Historicamente beijamos para matar
por Luís Peazê Publicado em 21//11/2009 08:35
Saiu no Dr. Mercola, um site de onde a Clínica
Literária volta e meia traduz artigos sobre medicina e saúde, que o beijo,
desde a sua origem, é uma forma de espalhar germes. Que o homem começou a beijar a
mulher no início da gravidez para ela ir adquirindo imunidade e proteger o feto, e
proteger-se também. No mínimo discutível.
A afirmação acima foi feita naquele website com base em depoimentos de cientistas
britânicos (não esclarece quais os cientistas), mas cita o germe inoculável pela mulher
grávida, o cytomegalovirus, contido na saliva, através do beijo, de um artigo do
pesquisador Dr. Colin Hendrie, da Universidade de Leeds, publicado no jornal Hipóteses
Médicas (Medical Hypotheses), porém, fora do contexto de que o beijo surgiu na nossa
civilização porque o homem descobriu um jeito de proteger a sua prole e, com sorte, a
parceira também.
Pesquisando um pouco mais em meus alfarrábios (que ainda não estão armazenados no
Kindle), provavelmente ricos em ácaros, pincei que, até prova em contrário, o mundo
sabe quase nada sobre o mistério do amor e muito menos sobre o beijo, uma forma de troca
de afeição existente mundialmente em 90% das culturas. Humm, quer dizer que há 10% que
não beija? Interessante. Não sabem o que é bom.
Da meia prateleira sobre comportamento das várias espécies da fauna, resgatei que os
animais lambem-se mutuamente, cheiram-se, bicam-se, e não só boca a boca, mas com a boca
em outras partes, como faz o cachorrinho de uma senhora qualquer passeando numa manhã de
sol, enfim, os animais teriam este tipo de intróito oscular da mesma forma que os
cristãos beijam-se em sinal de fraternidade recíproca. Calma, não precisa avançar no
Google, oscular é o termo científico para beijar. Ósculo-te e nunca mais serás a
mesma. Diga isso durante uma balada, com uma lata de redbull na mão e veja o que
acontece. Provavelmente nada.

Vou botar a
minha tromba dentro de você
Diz-se, também, que o beijo teria nascido da prática da fêmea (humana e animal)
mastigar alimentos antes de passar para o bebê, boca a boca, com a sua rica fauna
salivar, aliás, segundo aprendia-se no ginásio (é, sou um velho beijoqueiro), a saliva
seria o mais eficiente antibiótico natural, além, é claro de enriquecer o bolo
alimentar antes de sua longa viagem até o mar. Tudo acaba no mar, lembre-se.
Não acredito que a origem do beijo venha da alimentação, embora saiba-se dessa prática
alimentar nos pássaros e elefantes - cujas fêmeas enfiam mesmo a tromba na boca do bebê
elefante, para alimentá-lo , saiba-se também de mães que fazem isso na maior cara
de pau, mãe é mãe, com suas crianças de colo, e a amamentação não deixa de ser uma
porta para o beijo incestuoso involuntário. Pensando bem, talvez a expressão vou
te comer tenha um pouco a ver com isso... Vejamos:
Do latim cunnilingus (cunnus,
vulva + lingus, lingere, lamber) tem-se no vernáculo a expressão sexo oral em que a
parte mais sensível da mulher é estimulada com a língua (do/a parceira) até o orgasmo,
sem a necessidade invariavelmente secular da espera pela lubrificação, posto que a
saliva resolve no ato, orgasmo este que pode ser confundido com o que se chama de
ejaculação feminina. Derivação aprazível, mas avante com o assunto:
Os bonobos, chimpanzés que se
assemelham geneticamente ao homem em 98%, e não é só pela aparência física e postura
ereta, levam a sério o lema faça amor não faça guerra. Fazem sexo por
qualquer motivo, inclusive sem motivo aparente.
Para começar vivem em sociedade matriarcal. Na adolescência a macaquinha sai
esporadicamente do grupo familiar para conhecer novos grupos e, sem cerimônia, quando
avista a macacada, já vai rebolando as ancas e chega beijando quem ela encontrar pela
frente, beija os pés, os focinhos e, claro, os órgãos genitais. O primeiro macaco que
resolve aceitar a macaquinha faz sexo com ela na posição em que ela estiver,
é rápido e serve apenas para testar e dizer para o grupo: é carne fresca. Aí o grupo
todo vai à loucura, e celebra o evento com uma grande orgia. Entre os bonobos é normal o
sexo a qualquer hora, em público, com qualquer um, de qualquer jeito, oral, anal, na
posição cachorrinho, papai-com-mamãe, frango assado, aranha, barranco, trapézio,
estão sempre criando, e também entre parentes, filhos e com parceiros do mesmo sexo.
Ufa, só de imaginar fiquei enfastiado.
O fato é que os bonobos são mais
sábios que nós humanos, extraem do sexo a solução para tensões pessoais e conflitos
de parceria ou coletivos. Nós, miseráveis contumazes, acumulamos frustrações,
resolvemos as tensões pessoais pelo suicidio gradual ou homicídios passionais, os
conflitos com parceiros em competição de poder (quando não muito mais do que isso), e
os conflitos coletivos pela via da sacanagem "política". A ponto de haver
mulher que nunca goza, homem que ejacula em 13 segundos e o amor se reduz a uma pedra no
caminho. Filosofe à vontade sobre esta pedra no caminho...
Voltando
para o início da nossa relação (aqui nesta crônica), o beijo, estaria globalizado como
tudo o mais? A sua filha de 14 anos sabe quem ela beijou na noite passada? O mancebinho
(ou marmanjo) que beijou a sua filha saberia quem ela beijou antes de beijá-lo? Ela sabe
que poderia estar espalhando germes em casa ao lhe dar um beijo de bom-dia? Nestes tempos
de gripe suína, AIDS, aftosa (mas isso é coisa de vaca? é, mas não esqueçamos
dos bichos, ora), estaríamos diante de uma potencial pandemia viral que transcende ao
ambiente virtual? Pode um inofensivo beijo matar?
Nem tanto, não acredito, mas não deixa de ser uma preocupação. Enquanto isso, lembro
de uma imagem que criei na pré-adolescência e gostava de repetir no colégio, em
bilhetinhos (não havia iPhone nem Twitter) ou pessoalmente: vou te matar com um só
beijo, um beijo com gosto de tutti frutti, em forma de chuva púrpura e rolando pelo teu
corpo todo, da cabeça aos pés.
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