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femme1.jpg (6198 bytes) femme2.jpg (7327 bytes) Beijo de língua
entre meninas
A brincadeira da libido da moda em relação ao estudo da lingüística - a Clínica Literária faz uma aventura radical num texto impossível.

by Luís Peazê
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Recentemente presenciei, num ponto de ônibus, duas colegiais brincando de prender a carteira de identidade com a sucção dos lábios semi-abertos passando a identidade uma para a outra, num quase beijo na boca disfarçado pela cédula feito um hímen protetor, digo, uma membrana inofensiva e apenas simbólica.

No filme Femme Fatale, com Antônio Banderas e Rebecca Romijn-Stamos, esta, na pele de Laure e ou Lily (ela encarna  duas personagens no(a) mesmo(a) filme/trama) dá um longo e suculento beijo inteiro, boca a boca, na atriz dinamarquesa Rie Rasmussen, modelo nos Estados Unidos da conhecida loja Victoria's Secret (e Gucci) onde a maioria das mulheres emergentes (de lá) escolhem suas roupas sonhando ser uma Hillary Clinton. Ambas são magras e profundas como todas as magras, profundas fisicamente falando, e tudo o que um modelo de Rembrandt insinua a peso de carnes fartas e curvas lentas e leitosas, elas erotizam no tempo de uma ejaculação silenciosa e infindável - garças, esguias, prometendo um monte de vênus quase assustador visto por todos os ângulos, coisa que as gordinhas jamais se atreveriam.

A aventura continua, mas é de lingüística que falaremos. No dia da volta às aulas, junto a uma matéria sobre o peso das mochilas que os estudantes "baixinhos" têm que carregar, acima de 10% do peso do próprio corpo, proibido por lei, a TV Globo gastou nobres dezenas de minutos com duas reportagens (em dois dias consecutivos) sobre o primeiro beijo na adolescência, entrevistando mancebos e mancebas e inaugurando para o público o que, entre os jovens, já é termo corriqueiro, a boca virgem. Enquanto isso, o site do IG coloca online uma questão: O que você acha do beijo entre as meninas? Se for apenas por curiosidade, ou brincadeira, pode ser considerado lesbianismo?

Curiosidade frugal, mais uma poluição eletrônica, modismo banal, que desfila aos olhos da gente, mas alto lá! É um fato social tão vigente quanto o foi a chegada e refluir da lambada, do tchan e agora do "é potocó, potocó, potocó", sem falar do mais que descartável vocabulário dos big brothers e ratinhos.

Vocabulário e coqueluches estas inseridas no estudo da lingüística como o bagaço da cana na refinaria do açucar ou destilar da cachaça, porquanto, ainda que desprezíveis, indissociáveis.

Na Introdução à Lingüística - domínios e fronteiras, livro organizado em volumes I e II pelas Professoras Dras. Fernanda Mussalin e Anna Christina Bentes, podemos beber de sobra - até escorrer pelo canto da boca - o quanto tudo isso tem a ver com o nosso dia-a-dia, sem nos assustarmos com o tema, tido até então como seara acadêmica e obscura e, pedante para muitos arrivistas de todas a profissões, até desproposital e quem sabe inócuo.

No século XIX, segundo comentário de Câmara Jr. em História da Lingüística, o alemão Augusto Schleicher não era apenas um linguista mas também um estudioso das ciências naturais, dedicado à botânica. Fazendo um corte social à filosofia vigente de Hegel, que dominara o pensamento alemão na mesma época, as ciências humanas, incluindo a História, eram o produto do livre pensamento do homem, e não podiam ser colocadas sob influências de leis imutáveis e gerais tais como o fenômeno da natureza. Schleicher, obtuso pensador, propunha-se, desta forma, a colocar a lingüística dentro das ciências naturais, dissociando-a da tradição filológica (i.e. um ramo da História, das ciências humanas). Sua idéia de língua era que cada uma era o produto de um complexo de substâncias, é, substâncias, naturais no cérebro e no aparelho fonador. Isto levou-o a afirmar que a diversidade das línguas dependia da diversidade dos cérebros e órgãos fonadores dos homens. Daí, para abordar a diversidade das raças, foi um beijo, a língua associada à raça de maneira indissolúvel. Mas a coisa evoluiu, como acontececom às línguas constantemente antes de morrerem como um ser humano, são apenas um pouco mais longevas.

Na hora do rush ao atravessar a Primeiro de Março, na Praça XV (Rio), após uma passeata contra a guerra, a favor da paz, vi e ouvi uma índia, alta, curvilínea, de pele sedosa, jambo, cabelos lisos e longos, franjinha, uma índia escrita, com o filho pela mão dizendo-lhe exatamente o seguinte:

- Cê vai perdê a natação. Ih, já é seis hora, já tá acabando de começar a perdê.

Disse e cruzou em direção a um automóvel parado do outro lado, presumivelmente o marido. Foi rebolando, exibindo o seu corpo atlético, ondulando as pernas e remexendo os quadris sobre um par de scarpim número sete, deixando em meus ouvidos aquela frase genuína, e a do menininho repetindo "u quê? ãh?", adquirindo a linguagem que Deus lhe ia dando, vestido com roupinhas da moda - rapper, street culture dude, baseball player e surfer, tudo.

Novamente peço help a TV que dá exemplos (bons e maus) de sobra. O comercial de um cursinho de línguas, línguas estrangeiras, bem entendido, em trinta segundos resume o que talvez pelo menos um dos volumes desta Introdução à Lingística dará em detalhes. Duas moças se encontram. Uma diz para a outra, de modo pausado, enunciando num mesmo ritmo cada letra, cada sílaba de cada palavra: - o-i, co-mo vai vo-cê? - eu vou bem, e vo-cê co-mo v-a-i? - Vou bem. Es-ta blu-sa é ver-me-lha, ela é sua, mas a mi-nha é ver-de. - sim, a mi-nha é ver-me-lha e a sua é ver-de. Segue o diálogo, concluindo o comercial com a voz em off perguntando ao telespectador: - é assim que você fala a sua língua? Venha para o curso tal e aprenda como os estrangeiros realmente falam no seu dia-a-dia... Blá, blá, blá.

Assim como um beijo na boca não precisa de explicação. Um beijo é um beijo, é um beijo, é um beijo, a língua que se fala na rua, em casa, no bar, ao telefone etc, é o resultado da relação entre linguagem e sociedade. Neste sentido a língua é o sistema subjacente à atividade da fala, a parte invariante. Da fala se ocupa a Estilística, ou Lingüística Externa. A Lingüística, propriamente dita, descreve o sistema formal, a língua (fonética, fonologia, morfologia e sintaxe), mas sem eximi-la do fato social, um sistema que vai sendo adquirido (e trocado) pelos indivíduos no convívio tribal, privilegiadas neste contexto as considerações de natureza etnológica, histórica e política. Tudo bem, aquele alemão quis separá-la do todo, mas no século XX, e hoje mais do que nunca, a Lingüística, apesar dos estruturalistas, além de continuar tendo uma orientação diacrônica (paciência, molhe os lábios com a língua e continue) é inseparável da história da cultura e da sociedade.

Em outras palavras, fazendo associação a um poema de Rilke do qual me lembro somente da idéia geral (e olhe lá): há situações indizíveis em que palavra alguma jamais tenha pisado, e, enquanto estamos aqui lendo, nascem milhares de bebês nos quatro cantos do mundo, acrescento adquirindo hábitos e costumes e linguajares, e milhares de flores desabrocham silenciosas no meio da noite. Uma língua, mal falada porque infelizmente se lê cada vez menos em relação ao conhecimento disponível sobre todas as coisas sobre a terra, está nascendo em cada gueto, em cada bairro, em cada interação social e até nos nossos impulsos contidos mais íntimos - de sorte que as formas, muito pior as normas, só nos servem se mantivermos o desejo malicioso de sorver cada palavra dita, escrita, lida, ou pensada, como se estivéssemos beijando, ou querendo beijar, a pessoa amada. Ou dar um beijo em alguém, por curiosidade ou de brincadeira.

INTRODUÇÃO À LINGÜISTICA - domínios e fronteiras VOLUMES I e II  - Cortez Editora ISBN 85-249-0772-X e 85-249-0773-8 Fernanda Mussalin e Anna Christina Bentes (organizadoras), 29,00 pilas cada volume.

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