Se você não conhece Heloisa Buarque de Hollanda,
entrevistá-la é como viajar num supersônico em pleno espaço aéreo onde navegam
aeroplanos, tapetes voadores e máquinas do tempo. Se você a conhece, é como fazer
piruetas num aeroplano de brinquedo tendo como pano de fundo um céu azul congestionado
por vôos comerciais em pleno século XXI, bem atual. De um jeito ou de outro, aperte o
cinto, a viagem vai começar.
Heloisa Buarque de Hollanda é professora titular de Teoria Crítica da
Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/UFRJ), coordenadora da
Biblioteca Virtual de Estudos Culturais (Prossiga/CNPq) e uma das donas da Aeroplano Editora &
Consultoria ao lado do ex-doidão Rui Campos, hoje dono da charmosa rede
carioca de livrarias Travessa, por sinal vale à pena ler o Rui entrevistado pela própria
HBH no Portal Literal onde, aliás, ela é a curadora. Avisamos, este não é
um vôo convencional.
Lá ela ainda divide os dias de curtição, em torno de livros que só
edita e publica se gostar (e lê-los, ao contrário de alguns editores que não lêem o
que publicam), com Elisa Ventura, Lula Buarque de Hollanda e Luiz Noronha (os sobrenomes
lhe dizem alguma coisa?).
Foi ainda diretora do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro,
diretora da Editora UFRJ e Coordenadora Interdisciplinar de Estudos Culturais
(CIEC/ECO/UFRJ). Atenção turbulência à frente:
Sua principal linha de pesquisa tem sido as relações entre política e
cultura a partir da década de 60. Coordenou vários projetos, leia-se "deu guarita
para a Marginália,
digo, poetas e loucos" que reinventavam o carioquismo naqueles anos de chumbo, um
pouco antes do pau comer. E a primeira pergunta da Clínica Literária
ela responde assim:
- Sou professora de grego.
Melhor paciente não poderia ser. Antes que nos aprofundemos no assunto
Book-Business, indiferente ao tema pernóstico em inglês, mesmo tendo vivido muitos anos
na Califórnia, ela solta uma longa frase com um sorriso cheio de candura:
- O bom da idade é que a gente vai tendo cada vez mais tempo para
aquilo que realmente se quer fazer. Por exemplo, se a minha netinha ligar agora eu te
deixo falando sozinho e vou atendê-la.
Estamos no aprazível e sofisticado, para os padrões brasileiros,
bairro do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. A editora tem uma varanda em L, numa
esquina, é no segundo andar e poderia ser um bar para saraus e algazarra de adultos
ex-despirocados, como a amiga Regina Casé, o ex-marido Chacal, Caio F. Abreu e alguns
tantos que ainda existem entre nós, apesar de bem mais calmos.
E o lançamento das Cartas do Caio Fernando Abreu, Heloisa? Vamos falar
de negócios.
- Ah, foi um sucesso, aqui e em Porto Alegre. Trabalhão foi
para selecionar as cartas. É muito difícil, sabe, decidir o que pode e o que não pode
sair. Cartas são um negócio muito delicado, nossa, mexe com outras pessoas, ah não,
tive que ler e reler uma por uma com o maior cuidado.
De repente esbarramos numa nuvem de surpresas. Heloisa não sabia que
livro é tão caro, não sabia que havia tanta coisa com que se preocupar numa editora,
não sabia um monte de coisas, isto é, ela sabia, corrige-se, mas na prática o furo é
mais embaixo. Enquanto ela estava dando aulas para uma turma de produção editorial da
UERJ era uma coisa, quando abriu a Aeroplano a fantasia foi quase toda pelos ares.
Sim, quase, porque os seus olhos brilham quando ela fala que ao se
decidir por publicar um determinado título, já começa a imaginar a sua carinha, a capa,
o formato, e não vê a hora de abrir o primeiro exemplar e cheirar.
Bem, aí a Heloisa disse que o nome da Clínica Literária
é uma graça, seu charme inundou a sala, começamos a falar de projetos, daqueles que a
gente sabe que nunca irá realizar.
HBH poderia ser um verbete no Aurélio: anti-marketing. Felizmente
Heloisa conservou um pouco de insanidade necessária, e as tarefas mais prosaicas ela
deixa para o braço da editora que presta consultoria para projetos editoriais e
culturais, internos e externos.
O
pulo do gato? É lógico que o editor que conhece o pulo do gato não diria assim numa
entrevista despretensiosa, numa manhã de final de verão. Mas Heloisa não pratica nenhum
pulo do gato, ela é aeroplano mesmo. Produz os seus livros como pãezinhos e doces
caseiros, e o resultado é uma cristaleira recheada, de dar água na boca.
Enfim, caro leitor, o serviço de bordo será oferecido agora, no site http://www.aeroplanoeditora.com.br/livros.html,
que dispensa comentários, ou melhor ainda, na Bienal do Livro que começa dia 15 e vai até o dia 25 de maio.
