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setinha down.JPG (713 bytes)Comportamento - Jornalismo - Mundo
O que está por trás da Burca
por Luís Peazê     
Publicado em 20/05/2010 10:15

A lei que proíbe o uso da burca na França, indumentária de mulheres muçulmanas proibidas de mostrar o rosto – e os cabelos – em público, seria um marco histórico negativo numa época em que se tem a sensação de que chegamos à entrada do futuro, diante de tantas inovações tecnológicas e das ciências. Era esse o futuro que procurávamos, ou chegamos ao lugar errado após tanto tempo de caminhada?

A Bélgica já havia, no mês passado, proibido por lei o uso da burca, embora digam especialistas que essa proibição bizarra, de indumentárias de princípios religiosos bizarros, agride princípios dos direitos humanos contidos na Convenção Européia sobre esses direitos.

Que futuro é este que temos ao alcance da ponta de nossos dedos, literalmente? Com eles podemos efetuar operações a laser na frágil e intangível película invisível da retina, para que um ser humano míope enxergue com mais clareza. Mas somos incapazes de enxergar meios mais inteligentes de resolver o simples fato de uma mulher usando burca ser uma potencial ameaça terrorista. Podemos tocar com a ponta de nossos dedos um minúsculo vaso sanguineo do coração (precisa mais exemplos?) de uma pessoa. Mas não conseguimos alcançar o discernimento entre duas suecas de seios nus numa piscina de hotel e a escolha do resto das mulheres da Suécia quanto a exporem seus seios em público. Chegou-se ao ponto em que, num piscar de olhos, baixa-se uma lei generalizando um assunto que representa o recorte de todo um arcabouço de avanço – ou tradição – das civilizações.

Nos corredores climatizados das Nações Unidas, das relações diplomáticas dos países, de qualquer calibre, das rodas de livre comércio regionalizado no planeta, dos fóruns mundiais de discussão do futuro é lugar comum expressões tais como “transversalidade”, território “transfronteiriço”, acordo “multilateral”, “moedas amigas”, mas são incapazes, os protagonistas desses corredores, de vislumbrar situações paradoxais como, por exemplo, a da burca: em território muçulmano os homens não admitem que as mulheres mostrem o rosto e o cabelo em público, e elas obedecem; o que acontece com um casal muçulmano de férias em Paris registrando seu passeio para mostrar à família quando retornar? Uma situação simples, mas qualquer lógica simplista pode criar situações mais complexas e indissolúveis. Definitivamente, há muitas outras questões por trás do uso da burca do que a simples potencialidade de um ato terrorista.

Justamente na capital da moda feminina, num lugar que já foi consagrado pelo vanguardismo, tão permeável a novidades que, marcado pela disposição à polêmica, que cunhou a expressão do livre arbítrio, decide-se por lei a proibição de uma veste feminina.   Enquanto isso, uma repórter brasileira é obrigada a cobrir a cabeça com véu ao cobrir a visita do presidente do seu país ao Irã, provavelmente as jornalistas francesas foram obrigadas ao mesmo “dress code”. E se fossem obrigadas a vestir a burca?

Teriam esses pequenos homens com o poder de baixar leis perdido a noção da sua pequenez, ou é algo muito mais grave que o resto de nós está irresponsavelmente ignorando?

Seria isto uma espécie de  soma de modelos bizarros da ética e da moral vigentes através dos tempos, de tudo o que representou o passado, até aqui, ou é a partir disso que, no futuro, pontuaremos nosso modo de viver em sociedade?

Se por um lado podemos saber tudo o que acontece de extraordinário em todo o mundo instantaneamente, por outro, é extravagante, o fato de chegarmos à porta do futuro lado a lado, numa infinita fila lateral, sem hierarquia por faixa etária, sem distinção cultural, sem qualquer senha de ordem de atendimento, com a falsa noção de igualdade e todos com o futuro ao alcance de um clique, sem saber o que fazer com ele...


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