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best_road_big.jpg (21352 bytes)O dia em que o mundo virtual
desapareceu, ficou real

20/01/2009 por Luís Peazê

Há um case antigo, secular, de marketing, do qual talvez os novos (com menos de 30 anos de idade) gurus da internet nunca tenham ouvido falar, ou, se ouviram, o entenderam como um momento comic relief, aquele gag dos filmes de ação para relaxar a platéia... Refiro-me ao caso da estrada de ferro no velho oeste americano, implementada sob o bordão de que iria "levar o progresso" àquelas terras e mentes áridas do gun smoke. Disseram os gurus jurássicos do século passado que se a promessa da estrada de ferro fosse (simplesmente) "levar mercadorias ou passageiros", ela no mínimo seria mais longeva... A promessa apropriada teria sido a cenoura à frente da busca tecnológica pela eficiência, produtividade, lucratividade etc. daquele meio de transporte.

Resultado: o tão chamado progresso chegou, chegaram de fato alguns dos problemas antecipados por muitas pessoas contrárias à estrada de ferro e ela foi perdendo terreno, já não levava mais sozinha o progresso. Vieram os automóveis, os caminhões, os navios, os aviões e hoje a internet chega lá, tudo com muito mais rapidez. Aliás, vem de lá, do velho oeste, para cá.

Da mesma forma, o bordão "mundo virtual" talvez tenha sido o maior erro lingüístico conceitual de marketing que os primeiros desenvolvedores da internet cometeram. Confira aqui.

Tempestade ou céu de brigadeiro?

E nós, aqui no mundo real dos bastidores da internet, não paramos de nos referir ao mundo virtual, empilhando novos problemas para novos males que a internet inevitavelmente nos cria diariamente, dada a sua natureza volátil, dinâmica e de ilimitado alcance.

O primeiro problema, cuja solução veio rapidamente, foi provocar e medir o número de visitas nas páginas da internet. Era ainda uma velha atitude do marketing tradicional. Em menos de 10 anos, isso virou quase uma sucata, sozinho não quer dizer absolutamente nada. Para um fundo de investimento não se sugere P2P (path-to-profitability), por exemplo. Um pouco mais tarde, brotou do Vale do Silício a palavra webmetrics (ok, há quem diga que foi na costa leste americana ou no leste europeu), criou euforia, mas logo surgiu quem começasse a provar que a internet não produz massa crítica e a análise métrica da web deve ser contextualizada; enquanto ocorriam essas e outras alternâncias naturais nesse novo ambiente de mercado, bolhas e sonhos sólidos nasceram na mesma velocidade com que se desmancharam na rede. Fato: da intranet à internet, do e-learnig ao e-commerce, da conectividade à portabilidade, da blogosfera à taglândia, dos sites de relacionamento ao mundo obeso dos search engines, a locução mais utilizada, mesmo que não seja pronunciada na realidade, é "mundo virtual".

Se instalássemos uma ventoinha na Av. Paulista (para ficar só no Brasil) a rodar cada vez que a palavra virtual viesse à mente das pessoas, incluindo nós mesmos, que materializamos (?) o mundo virtual, certamente viveríamos numa permanente tempestade. Mas queremos tempestade ou queremos navegar num mar de almirante e num céu de brigadeiro?

Os bem-sucedidos cartões de crédito

Individualizar não significa necessariamente separar.

Podemos aceitar que somos todos parte de uma nova e única civilização de enorme mistura de culturas e não passamos de múltiplas sociedades cercadas precariamente. Pois, aceitando este status quo, da mesma forma que erramos ao chamar a internet de mundo virtual, podemos aceitar que estamos errando mais uma vez ao nos auto-condenarmos como meros indivíduos. Estamos nos auto-condenando à liberdade criando um paradoxo; pois, se há condenação, não importa se é à liberdade, quando é uma condenação injusta, por crime nenhum.

Mas no mundo dos negócios é proibido filosofar. Certo. Então, o que se quer afirmar é que estamos dando muita ênfase na individualização de cada usuário, falando muito em monetização por viewer, gastando muitos recursos com abordagens one-to-one e outros desvios igualmente dispendiosos, antes de nos concentrarmos em transformar o mundo virtual em real. Ao enfatizarmos a idéia de mundo virtual, criamos uma tendência negativa. Um público mais à vontade, espontâneo, tende a formar grupos e é bem mais fácil fazer promessas a grupos, e atendê-las, do que a cada indivíduo.

Há casos de sucesso. Os cartões de crédito são um exemplo de caso bem-sucedido, de conceito original adequado. Observe-se que os antigos vouchers com carbono foram substituídos por maquininhas; uma compra por um website é feita por cartão de crédito fazendo-se o input, a digitação de números; para citar apenas dois exemplos, mas continuamos dizendo que compramos com cartão de crédito, a idéia do mesmo plástico, passada por Dustin Hoffman no filme The Graduate.

O fenômeno viral

Há sinais claros no horizonte próximo de que o mundo virtual está perdendo terreno, importância, na mente das pessoas, como aconteceu com a estrada de ferro. Leia-se perder importância por incorporar-se à paisagem do inconsciente coletivo. Alô! Há muito tempo que a internet não é utilizada somente no computador tradicional – o é cada vez mais por celular, automóveis, televisão, billboards e vários outros gadgets que os amigos do e-mundo aí sabem muito bem. Desta forma, que tal combinarmos abolir a expressão virtual para sempre? Condená-la a um museu?

Os futurólogos talvez ecoem que a tendência é essa mesma, vivermos cada vez mais no espaço fractal e dos prismas de consciência. Calma, não consta que o homem tenha sequer chegado perto de tal avanço de vida inteligente. E o mais energizado e genial profissional do meio dirá: "Ah, a internet é isso, tudo acontece à velocidade da luz e a gente está aqui para isso mesmo." Certo. Mas duvido que no íntimo, diante de um cliente, da perspectiva de uma conta longeva, ou de um emprego dos sonhos, em sã consciência, você é assim valente todas as segundas-feiras.

Mas o que está mais longe ainda de ser inteligente é esse esforço de arrancar indivíduos da rua e trazê-los para a internet e imobilizarmos aquele indivíduo que já está na internet para que ele não vá para a rua. A distinção matemática desses ambientes é simplista. Marketing, na acepção ampla do termo, é muito mais do que isso.

Ora, o fenômeno viral (expressão que adquiriu significado ambivalente somente com o surgimento da internet) é uma realidade possível e útil muitas vezes. Chegamos a um ponto em que podemos provocar o dia em que o mundo virtual desapareceu, ficou real. De início, aumentamos nosso público ao tamanho que ele é na realidade.

Afinal, o mundo real é ou não é muito mais maravilhoso? Pergunto daqui do deck de um veleiro, na Costa do Descobrimento, sul da Bahia, sobre uma maravilhosa barreira de corais, num dia ensolarado, águas mornas, brisa e visual de coqueiros, utilizando via wifi a rede de uma landbase.


Luís Peazê é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de Por Quem os Sinos Dobram de Ernest Hemigway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria, Traduções, Editora e Agência de Notícias. www.luispeaze.com  Foi programador e analista de sistemas nas décadas de 1970/80, publicitário, analista de marketing e empresário fabricante de componentes para life style products nos Estados Unidos e Austrália. Reprodução somente com a autorização e indicação da fonte Copyright Clínica Literária 2009.



Falta pouco para nunca mais lermos jornais do mesmo jeito
O jornal online mudou alguma coisa na imprensa? Procurei um especialista em Internet para especular sobre um certo traço Leia mais>>>

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Sécurité! Sécurité! Sécurité! Traduções de notícias do estrangeiro soçobrando!

 

O que você faria, se ouvisse no meio de uma metrópole uma voz apreensiva sussurrando, no seu ouvido, a chamada do título? Se for um cidadão de qualquer profissão exceto do jornalismo, pensará que está ficando louco, ouvindo vozes do além. Mas um jornalista entraria em estado de alerta; em seguida iria querer saber de onde exatamente está vindo; daí em diante é a rotina de apurar, apurar, apurar e, às vezes, traduzir corretamente antes de publicar a notícia.

 

Recentemente fui pego como um cidadão comum pela notícia de que Mike Tyson envolveu-se em confusão numa boate de São Paulo, e li a matéria. Andava meio nocauteado de tanta notícia incerta sobre quem seria indicado para punição na CPI do mensalão, e fiz um desvio para, como dizem os americanos, “limpar o sistema” (em português talvez fosse melhor traduzir “clean the system” para “zerar a paisagem mental”, mas, pensando melhor, às vezes a coisa envolve zerar-se espiritualmente (com uma notícia sobre Mike Tyson?), deixemos como está). Pois o que aconteceu foi eu ser nocauteado de vez, literalmente – pela tradução das respostas do famoso e bizarro boxeador.

 

Você diria, muito circunlóquio, não fui direto ao ponto. Paciência, trabalhar com tradução é assim, parece que vai ser fácil, mas nunca é. Contudo, é instigante, e vamos direto ao ponto, o espaço aqui é pequeno, como nas redações, onde a pressa é um vício da notícia:

 

Após ler várias frases entre aspas, traduções de respostas de Tyson ao repórter, desconfiei que havia sérios problemas de interpretação do tradutor. Ao final não tive dúvidas dos danos na e da notícia. Deduzi que a causa fora a pressa do redator ou a sua falta de experiência, injustificável em qualquer dos casos, mesmo que repórter, tradutor e redator tenham sido a mesma pessoa, ou não. A partir daí farejei uma notícia subjacente, ouvi um sussurro e fui investigar. E a notícia é: as traduções de notícias estrangeiras e de entrevistas com personalidades internacionais estão com sérias avarias, soçobrando em alto mar.

 

Bem ao final da entrevista com Tyson o repórter coloca entre aspas uma de suas respostas, assim: “tudo o que eu quero é ser deixado sozinho”. Dois parágrafos acima, Tyson havia revelado que após o seu declínio no Box, sentia-se abandonado, logo conclui que a frase traduzida, com problemas, teria sido “all I want is to be left alone”. A nossa língua também quer ficar em paz, ela não precisa levar tantos socos assim. Problemas como esse soçobravam ao longo de toda a matéria, que contou com um colaborador, dois jornalistas, e sabe-se lá quantos mais a leram antes de ir para as páginas (impressas e digitais) do jornal.

 

Minha pesquisa na Internet e em jornais impressos prosseguiu, tendo prospectado uma fábula de lixo perigoso, tanto na superfície dos textos traduzidos, de notícias reproduzidas de agências internacionais, quanto em suas profundezas. A última notícia, traduzida da Associated Press, que provocou este aviso de acidente no mar da informação jornalística, foi a de um australiano e de um neozelandês náufragos, encontrados à deriva num bote salva-vidas no 11o, digo, 12o dia.

 

A manchete anunciava um dia a menos de deriva, até aí tudo bem. Mas logo no primeiro parágrafo uma frase soou como um direto no queixo. Os homens estariam trazendo um motor de iate de 60 pés para um cliente de Sydney, Austrália. Ora, o texto abria com a localização da notícia em Hanói, Vietnam, como poderiam estar “trazendo” algo? Certamente eles estavam levando, assim como a gramática e a mente do leitor estiveram levando uma surra. Mas o pior estava para vir. Investiguei no texto original de AP e de outros veículos chineses e australianos (graças à Internet) e descobri que os pobres náufragos levavam um “motor yacht”, que é um tipo de veleiro equipado com um possante motor, podendo fazer longas viagens sem utilizar as velas. Descrição irrelevante para o leitor em português, pois, quem é do ramo se refere a “motor yacht” assim mesmo, e tanto faz, continua sendo veleiro. Grande. A propósito, tinha 20 metros, portanto, 6 pés a mais do que o noticiado. Quem é do mundo dos barcos sabe quanta diferença isso faz.

 

Bem, o texto era um acidente atrás do outro. A frase ao final, sem edição, sem copy desk, e com muita pressa ou pouca atenção, dispensa comentários: “Nos aconchegávamos juntos um ao outro como dois bebês para nos mantermos aquecidos durante a noite”. Durma-se com um barulho desses!

 

Entre a matéria do Tyson e esse naufrágio, encontrei muitas outras semelhantes, isto é, com problemas graves de tradução. Não cito nomes porque não se trata de um patrulhamento gratuito, nem pensar. Mas de um chamado de “distress”, um alerta de problemas no horizonte, um apelo para que um salvamento seja posto em curso, bens e vidas podem ser salvos. Por falar nisso, pelo código de comunicação náutica, as expressões Sécurité! Sécurité! Sécurité! May Day! May Day! May Day! Help! Help! Help! S.O.S não querem dizer exatamente a mesma coisa.

 

O aviso se justifica porque uma dessas expressões utilizada na ocorrência errada pode causar pânico, ou socorro tardio, e, no caso das traduções de notícias, é tão fácil resolver, não há necessidade de danos maiores.

 

Conversando com cientistas da oceanografia tenho ouvido freqüentes reclamações quanto a péssimas traduções, assim como de descrições impróprias em textos jornalísticos sobre eventos científicos em geral. Isso não deixa de ser um problema de tradução, interpretação. Assim, o público está recebendo desinformação, é aí que está o problema. Por isso, caros colegas (repórteres, chefes de redação, diretores e donos de veículos), já que a Internet, os editores de texto, os dicionários temáticos e de expressões idiomáticas on-line facilitaram tanto a vida da gente, não custa investir um pouquinho mais de atenção na hora de traduzir e interpretar, pelo menos.

 

Atenção, revisores de plantão: este texto foi escrito, propositalmente com pressa, em exatos 40 minutos, com base no repertório memorizado, portanto, mãos à obra.


 

 

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