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Oficina de crítica literária com a
Dra. Zélia Adghirni

(Dias 10 e 11/11) na Feira do Livro de Porto Alegre

Luís Peazê
Texto utilizado pela Dra. Zélia Adghirni na Oficina de crítica literária na Feira do Livro de Porto Alegre
*
A Dra. Zélia Adghirni é
Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Doutora em Ciências da Comunicação e Informação pela Universidade de Grenoble (França). Pesquisadora de Jornalismo e novas tecnologias.

Na oficina, Zélia Adghirni trabalha com a leitura e a produção de textos de crítica literária através da mídia impressa. Serão avaliados suplementos dos jornais nacionais Folha de São Paulo e O Globo, e da publicação regional Zero Hora. O objetivo é debater e refletir sobre a crítica literária na mídia e estimular a produção de exercícios de crítica a partir dos textos trabalhados durante a oficina.


Crônicas recentes:



Vendem-se terrenos no fundo do mar

Luís Peazê

O Dr. Paulo Hardgreaves, do Laboratório de Engenharia Oceânica do COPPE/UFRJ, palestrante do 4. Seminário sobre Meio Ambiente Marinho, realizado pela SOBENA – Sociedade Brasileira de Engenharia Naval, no auditório da sede da Petrobras no Rio de Janeiro, entre os dias 19 e 21 de novembro, provocou espanto num grupo de biólogos e oficiais da Marinha do Brasil, durante o coffee break que era uma verdadeira tribuna de debates daquele evento que reuniu cientistas, profissionais da gestão ambiental e da indústria naval do mais alto nível em oferta atualmente no Brasil.

Dr. Hardgreaves, desajeitado num terno e gravata pois, mesmo contornando os cinqüenta anos de idade, mantém a atitude de um jovem surfista apaixonado pelo mar, trouxe à tona dois assuntos polêmicos dentro de uma já polêmica discussão na qual às vezes ninguém sabe quem é quem nesta guerra do Paraguai. Você sabia, por exemplo, que no Japão há pressão para uma espécie de mercado imobiliário no fundo do mar? Você já pensou que as tintas anticrustantes utilizadas nos navios liberam camadas na ordem de toneladas/ano, feito cebolas químicas de metais nocivos às comunidades microbiológicas do ambiente marinho colocando em risco toda a cadeia alimentar do ambiente marinho e portanto a própria vida humana? Falando em vida, você sabia que o cemitério de navios descomissionados é a alegria (incerta) dos pescadores? Mas para o Dr. Hardgreaves temos que parar de atrasar projetos de desenvolvimento sustentáveis por causa das recomendações de infinitos riscos feitas pelos biólogos, assim como devemos anexar oficialmente as 200 milhas náuticas, consideradas apenas zonas economicamente exclusivas e não territoriais, ao território brasileiro. Estas afirmações orais com o maneirismo da dialética do surfe podem soar meio irresponsáveis e não inspirar credibilidade, não fosse a experiência do Dr. Hargreaves de décadas de estudos no Japão e Estados Unidos e à frente do Projeto Petropesca de Múltiplo Uso do Espaço Oceânico do COPPE/UFRJ.

Felizmente o cenário era o ideal para a discussão, este seminário da SOBENA/Petrobras, e toda a polêmica uma vez protegida por barreiras e absorventes acadêmicos, não deixando poluir o ambiente do grande público com informação mal depurada, era bem-vinda. O que se discutia e os trabalhos apresentados derivavam da macro e micro gestão ambiental, dos planos de contingência das empresas, dos recursos tecnológicos disponíveis no mundo (quatro países estavam representados no seminário), às questões de licenciamento e normatização ambiental, fim de um navio velho, por exemplo, e acidentes de grande impacto social e ambiental, como o caso Prestigie, o navio que derramou toneladas de óleo na costa européia não muito tempo atrás.

Um elogio se faz necessário à Petrobras, posto que a empresa já recebeu duras críticas do público em episódios infelizes de impato social e ecológico. Ao comemorar seus cinqüenta anos de vida a empresa atinge um nível de percepção de imagem institucional saudável e singular, no mundo. A primeira palestra do seminário foi proferida pelo Gerente Executivo de Gestão Ambiental, Cláudio Fontes Nunes, que de uma certa forma pontou o alto nível de conteúdo do que seria o seminário dali para frente. Cláudio Fontes Nunes entretanto se destacou pela versalidade na matéria, e especialmente pela coletânea de programas desenvolvidos pelo seu departamenteo de segurança, meio ambiente e saúde. Um retardatário desatento poderia entrar no auditório e pensar que se tratava de um curso de pós graduação em gestão ambiental – sem exagero. A Petrobras chega a correr o risco de ser confundida como a fonte de recursos para qualquer problema ecológico em águas marinhas, dado o seu knowhow e aparelhamento tecnológico e recursos humanos.

Outro painelista peso pesado, o Dr. Silvio Jablosnki, professor de biologia da UERJ, chamou a atenção dos presentes ao seminário para as limitações dessas soluções mágicas de reprodução artificial de habitats marinhos objetivando formar pesqueiros produtivos. Não passam de experiências, dependem de monitoramento criterioso e futura administração, leia-se: quem, quantos, quando e o quê se poderá pescar na área de um velho cargueiro afundado.

Excetuando as poucas opções especializadas, como a TN Petróleo e alguns sites na Internet, a imprensa brasileira não abre espaço para matérias deste tipo porque elas demandam uma introdução muito longa, talvez, e conhecimento mínimo necessário para que se compreenda o que afinal isto pode representar na vida do indivíduo comum no seu dia-a-dia. Um dono de um veículo disse uma vez que gostaria que o seu produto fosse a primeira coisa que o homem utilizasse antes de sair de casa – para saber desde a previsão de tempo, às condições do trânsito, surtos políticos e promoções imediatas de mercado e culturais.

Com a feliz efervescência em torno das questões ambientais atualmente, chegou a hora dos veículos de comunicação assumirem de vez sua parcela de responsabilidade na disseminação da informação científica, neste caso em linguagem palatável para o grande público, do contrário passarão à audiência uma falsa expectativa como foi a matéria do Jornal Nacional deste Sábado, mostrando um navio que foi afundado na costa do Espírito Santo como solução espetacular para a produção de pescado – antepara artificial para o florescimento de vida marinha.

Ao público incauto, por sua vez, os demais estão absolvidos, cabe selecionar cada vez mais as suas fontes de informação e não ter medo de adquirir conhecimento que aparentemente não lhe diz respeito, ou seja muito complicado. Do contrário será pego pela boca aberta e vazia, como o peixe, e merecerá um veículo de informação ultrapassado ou basicamente sensacionalista, que hoje em dia não deveria ser utilizado nem para embrulhar um bagre.

Copyright © 2003 Luís Peazê – escritor e jornalista científico (MTB 24338)


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