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Falta pouco para nunca mais
lermos jornais do mesmo jeito
O jornal online mudou alguma coisa na imprensa? Procurei um
especialista em Internet para especular sobre um certo traço Leia
mais>>>Hisoletta ouviu o galo cantar e não sabe aonde
Antes
de ler, caro visitante, sugiro limpar de seu computador os programas Plug in, arquivos
temporários e Cookies, que você talvez nem saiba que empresas gravam em seu computador,
enquanto você está ingenuamente navegando nas regatas de volta ao mundo da vida. Faça
disso uma rotina.
Mas
o assunto é a minha personagem ficcional Hisoletta, ou Hizzo, com dois zês,
hem, ela faz questão, e, claro, não é uma questão de vaidade. Com certeza. Para de
show. Fala sério.
E
essa linguagem pobre é porque a Hisoletta é apologista da evolução
linguística via Internet, sabe? Essa coisa de escrever você apenas com as
letras v e c, e daí pra baixo. Mas prometo não descer mais do que isso. Até porque eu
sei que a tentação é grande lembro de quando ainda era programador de computador
(Assembler, Fortran, Cobol, RPG II, Basic, essas tralhas), no tempo em que, para saber se
havia erro de lógica num programa, a gente tinha que dar um dump de memória
durante a sua execução e ler um relatório em hexadecimal. Pré-história, década de
1970. Naquela época, o vírus me pegou de tal forma que escrevia cartas para uma amiga em
hexadecimal, pode.
A
Hisoletta enviou dois emeius abismada com uma nota que eu dei no site do
Instituto Brasil Costal, na modesta página Conversa no Píer,
reproduzida também na sala de visitas da Clínica Literária. Escrevi, publiquei e não
enviei um só e-mail divulgando a tal nota, nem para amigos. Um desabafo em meu próprio
ambiente. Mas, em menos de uma semana, a nota foi parar na caixa de correspondência da
tal Hisoletta, que ficou tiririca, e num blog de lobos do mar, surfistas, navegantes
experientes e sábios, nas altas ondas da rede mundial de computadores.
A
Internet é isso, uma bela idéia, um sistema espetacular de interrelacionamento de dados
e pessoas que rapidamente sofreu a invasão do submundo da natureza humana, e dos
ingênuos. Não é por acaso que os desenvolvedores de web sites de pornografia são
considerados os craques dessa bala mágica, em detrimento dos frutos naturais saudáveis.
Afirmo
sem medo de errar: a maioria dos usuários da Internet pegou o bonde andando, quer dizer,
montou na sela de um computador já na era do Windows, sem saber se é um touro, cavalo ou
bode que lhe vai sob o traseiro. Algumas aprendem rápido a cavalgar, e tratam de tirar
proveito, porque em terra de cego quem tem um olho é rei. A Hisoletta de minha ficção
tem um olho só. Vejam o pishing, por exemplo. Como é fácil cair nessa
vigarice. Quantas tias bem intencionadas já caíram? Até gente informadinha já foi
vista com esse anzol na boca. O que é isso? Vire-se, vá procurar, o espaço aqui é
curto, e eu preciso explicar por que a Hisoletta ouviu o galo cantar e não sabe aonde.
Minha
cruzada é um desafio tão grande quanto a tentativa de explicar o título dessa crônica
em cinco linhas, quase impossível. Mas vamos lá: Hisoletta lê rápido, escreve mais
rápido ainda, como somente no ambiente da Internet é possível (e muitas vezes
necessário), tal como a maioria das pessoas, logo não entende o que leu, não percebe a
sutileza de semânticas e metáforas calculadas com carinho pelos dedos do autor (é
verdade que alguns autores escrevem rápido também, aumentando a confusão da Hisoletta,
nisso eu mesmo sou um pecador incorrigível); Hisoletta não quer salvar o mundo, muito
menos preservá-lo, o dinheiro resolve a maior parte dos problemas e necessidades, mas ela
jura que seu lema é amar o próximo e os rios; Por fim, Hisoletta só come porcaria
processados, refinados, corantes, preservantes, bebe refrigerante, água com metais
pesados, cloro e flúor e resíduos de drogas que os sistemas públicos de água servida
não depuram. Sim, Hisoletta sofre de dores de cabeça, estômago, lombares e pressão
alta. Mas ela toma aspirina e se satisfaz. Eu sei, passei das cinco linhas, mas Hisoletta
ainda faz mais uma asneira: cuida da sua higiene e da higiene de sua casa e escritório
aumentando a poluição ao seu redor (sério, quanto mais limpo mais poluído), porque
ouviu o galo cantar e não sabe aonde, desde o século XVIII.
Hisoletta
somos nós, caro visitante. Esse homo digitalis que viaja no trem da história pelo
lado de fora. E há Hisolettas que têm a pretensão de fazer antropologia ao vivo,
contrariando Quintilhano (40 AC = a história é para ser escrita, não
vivida). Ou, segundo Marlamé, a vida foi feita para acabar num livro. Mas sem saber
que Gilgamesh, 3000 mil anos antes de Cristo, nasceu dentro de uma crônica que deu origem
ao primeiro livro do mundo, sobre um certo dilúvio universal, mais tarde plagiado na
Bíblia. Isto é, o mundo começou com um texto, bem escrito.
Ficou
hermético, muitas Hisolettas não entenderão. Às mais interessadas, meu profundo
respeito e o agradecimento pela oportunidade de continuar com o sub título:
Wella! Cuidado com
o que você põe na sua cabeça
Acompanhe
o raciocínio, por favor: Wella aceita a sedução de uma Hisoletta do mundo do marketing
virtual e larga na rede uma campanha viral para gerar cadastro de compradoras em
potencial. Leia com cuidado, perceba o grau de risco da palavra viral. Trocando em
miúdos, a Wella, aquela do shampoo, captura na Internet mulheres sem nada o que fazer e
as seduz a provocar o efeito corrente, através de fofocas induzidas, amealhando durante o
processo um tesouro de informações sobre os hábitos de cliques
de cada mulher. Depois? Bem, é só dirigir uma campanha direta para essas mulheres e
colher os frutos no caixa.
Você não entendeu ainda, não é Hisoletta? Tudo bem, a culpa
é minha. Então vamos tentar desse jeito: em 2003 77,6% das ações com direito a voto da
Wella foram adquiridas pela Procter & Gamble, com a promessa de adquirir muitas mais,
tudo. Três bilhões de vezes por dia a P&G toca na vida das pessoas ao redor do
mundo, essa é uma afirmação da própria empresa, que possui a Viacom Plus, um gigante
da multimedia e tantas outras empresas que não caberiam aqui neste texto. Grande parte de
sua receita vem do braço farmacológico do conglomerado, cujas vendas incluem remédio
para o coração que podem ser comprados no balcão sem prescrição (over the counter),
com aprovação do FDA (Food & Drugs Administration) para orgulho da P&G, conforme
divulgação em press release (o assessor de imprensa é uma Hisoletta da vida). Sem
esgotar esse sistema malígno legalizado, vale informar que a P&G é o principal
comprador de polpa de celulose da Aracruz (nós, Hisolettas brasileiras, conhecemos de
nome), que comprou terras de índios brasileiros para o plantio de eucalipto,
durante o governo militar matando-os de sede e de fome até hoje e, bem, com paciência
vale a pena ler uma carta aberta ao presidente da P&G publicada num site alemão (só
informo o site para Hisolettas interessadas).
Mas, para encerrar o raciocínio, por favor contemple a
seguinte declaração de um ex-diretor de um grupo farmacêutico, publicada no Herald
Tribune (USA): O primeiro
desastre é se você mata pessoas. O segundo desastre é se as cura. As boas drogas de
verdade são aquelas que você pode usar por longo e longo tempo.
Não é difícil
perceber nisso inúmeras contra-indicações e efeitos colaterais na saúde humana. Não
entendeu ainda, Hisoletta? Acontece que a noção moderna de medicina, de terapêutica e
de higiene, é a bala mágica. Uma droga para cada doença. Atirou curou, ou limpou, matou
o germe. Sem germe o mundo fica mais limpo. Pobre mas limpinho. Leiamos rápido: a
medicina moderna (estrutural) ataca órgãos lesionados, só vê lesões, as quais ela
mesma deu nome de doenças, para as quais a indústria farmacêutica fabrica drogas de
cinco em cinco anos (o método da obsoletização com o olho no valor das suas ações
somente), com grosso mark up para provisionamento de demandas
judiciais, e assim por diante (remédios canadenses não podem entrar nos USA porque
custam cinco vezes menos). E os médicos hisolettas, sonâmbulos, prescrevem
essas drogas acreditando num resultado esperado, ignorando que para cada substância
química, que entra no organismo humano, há três tipos de resultados o esperado,
o não esperado e o que o organismo faz espontaneamente por inúmeras vias do seu sistema
regulador integral (envolvendo ressonâncias, bioeletricidade, reações químicas
espontâneas, ação dos humores líquidos e emocionais e etc). Quando a
droga não produz o resultado esperado, do médico, da indústria farmacêutica, da bolsa
de valores, nós, as Hisolettas, os pacientes, arcamos sozinhos com a responsabilidade
(morremos, na maioria das vezes, cedo ou tarde, de tanta intervenção química). E as
pesquisas acadêmicas são, atualmente, todas financiadas direta ou indiretamente por essa
indústria, incluindo presentinhos para médicos, na forma de viagens para simpósios e
etc. Honestamente um médico tem pouca chance de defender de olhos fechados o que está
ministrando.
Sobre a limpeza, ah,
isso é uma coisa que veio com a teoria do germe de Pasteur, distorcida (isso é que é
distorção, Hisoletta!) pelo homem, formando um pensamento equivocado de que limpo é bom
e sujo (com terra) é ruim. Nem sempre. Não é bem assim. Mas a indústria nos empurra
tantos produtos de limpeza, a ponto de tornarmos nossas casas nos ambientes mais poluídos
do mundo. Quanto mais assépticas, mas poluídas, de uma infinidade de substâncias
nocivas à saúde.
Veja a Cera Johnson,
por exemplo, que certamente tem uma Hisoletta no seu roll de fornecedores de produtos de
marketing pela Internet, o que diz no web site da matriz nos USA: o Banco Franck, Galland
&b Cia S/A em Genebra, e o Trans Ocean Bank & Trust nas Ilhas Grand Cayman
resolvem as necessidades financeiras de seus clientes em circunstância especial mantendo
estrita confidencialidade (alguma Hisoletta aí leu depósitos duvidosos?).
Esses bancos estão relacionados ao Grupo Financeiro da Johnson & Sons, cuja linha de
produtos é facilmente encontrada nas dispensas de nós Hisolettas Shout®, Windex®, Mr. Muscle®, Ziploc®, Edge®, Glade®, Brise®, Vanish®, Raid®, OFF!®, Kabbikiller®, Pledge®, Scrubbing Bubbles®
Está tudo errado na
nossa cabeça, Hisoletta, mas é preciso trocar de shampoo para perceber. E olha que
passei apenas de leve na superfície da ferida.
Por Luís Peazê (MTB
24338) jornalista e escritor www.luispeaze.com
Mentalidade Marítima
Entusiastas que acompanham a Volvo Ocean Race são manipulados pelos criadores do
web site do Brasil 1.
Publicado na Conversa do Píer em 09/06/2006
Todos os passos dos "blogueiros", ou crédulos
torcedores entusiastas, são acompanhados milimetricamente pela agência de propaganda e
marketing online AddComm. Em palestra no seminário Webmétricas,
realizado em São Paulo dia 06/06/2006 último e, no Rio de Janeiro, dia 08/06/2006, a
Sra. Risoletta Miranda, presidente daquela empresa, contou com entusiasmo como ela orienta
seus clientes para tirarem proveito do conhecimento sobre o comportamento dos
frequentadores do blog do Brasil 1, e de outros, como o da marca Wella.
Utilizando ferramentas poderosas e metodologia de análise dos
rastros deixados pelos internatuas pode-se "monetizá-los" (este palavrão é a
vedete dos especialistas em Internet atualmente! Ah, "usabilidade" também, eles
adoram palavrões). Uma "mina de ouro", nas palavras da Risoletta em artigos que
circulam pela Internet. Ela chama de "nossa Bélgica" as classes A, B e C e
afirma que essa "Bélgica" pode influenciar as classes C e D que ela chama de
nossa "Índia". E recomenda aos políticos não ignorar esse ambiente em suas
campanhas. Eu ia escrever um artigo sobre esse vandalismo da mente humana que acontece
"por trás dos web sites da vida", mas fiquei mareado, muito mareado mesmo,
pensando no que eu me transformaria se continuasse trabalhando como publicitário.
É, a gente peca. Mas todos temos a chance de parar de pecar.
Para a marca Wella, por exemplo, um dos clientes
dessa AddComm, foi criado um blog que estimula as mulheres a fazerem
fofoca, e tome análise de comportamento e "monetização".
O pior de tudo é que a Risoletta utiliza poesia, gags
conhecidinhas e outros truques antigos de publicitário para desviar a atenção dos seus
interlocutores e seduzi-los. Risoletta teve passagem pela Denison Propaganda (onde eu
trabalhei também, muito antes dela), e, na net há uma biografia sua
"realçando" que nasceu no Pará, sobre uma palafita, sonhando ser alguém na
vida e lendo Fernando Pessoa numa rede de pano.
Cuidado 1! Ela divulgou que está disposta a dar
palestras "de graça" por aí, porque está fascinada com o poder de suas
descobertas do marketing online.
Cuidado 2! Não há por onde escapar. A rede que
pesca internautas é fina e invisível. Os poderosos motores de busca, e "busca"
é outra palavra chave nesse inferno da monetização, podem classificar, categorizar,
qualificar e quantificar todos os passos do internautas através de seus hábitos de busca
nos Googles da vida.
Pobres torcedores do Brasil 1, marionetes na mão
de "risolettas". Pobre Risoletta, não sabe o mal que está fazendo para o mundo
e para si mesma. Desperdício de uma alma tão inclinada à arte.
Mas quem sou eu para inverter essa onda, nesse imenso oceano
tenebroso que é a Internet e o mundo dos que "buscam" o dinheiro a qualquer
preço? Sou um simples amante de um sereno cruzeiro, que veleja suave como uma pipa solta
sobre o mar.
Termino essa nota com um verso de Pessoa, que me ocorreu ao ouvir
a Rizzo (apelido da Risoletta):
"Diante desse cais de pedra andei léguas de sombra dentro em
pensamento". |
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Quartet Editora, 193pgs
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Por Quem os Sinos Dobram
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Tradução de
Luís Peazê

O 1 Simpósio do Semblante Nacional
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Quartet e Stylita 80 pgs.
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Sécurité! Sécurité! Sécurité!
Traduções de notícias do estrangeiro soçobrando!
O que você faria, se ouvisse no
meio de uma metrópole uma voz apreensiva sussurrando, no seu ouvido, a chamada do
título? Se for um cidadão de qualquer profissão exceto do jornalismo, pensará que
está ficando louco, ouvindo vozes do além. Mas um jornalista entraria em estado de
alerta; em seguida iria querer saber de onde exatamente está vindo; daí em diante é a
rotina de apurar, apurar, apurar e, às vezes, traduzir corretamente antes de publicar a
notícia.
Recentemente fui pego como um
cidadão comum pela notícia de que Mike Tyson envolveu-se em confusão numa boate de São
Paulo, e li a matéria. Andava meio nocauteado de tanta notícia incerta sobre quem seria
indicado para punição na CPI do mensalão, e fiz um desvio para, como dizem os
americanos, limpar o sistema (em português talvez fosse melhor traduzir
clean the system para zerar a paisagem mental, mas, pensando
melhor, às vezes a coisa envolve zerar-se espiritualmente (com uma notícia sobre Mike
Tyson?), deixemos como está). Pois o que aconteceu foi eu ser nocauteado de vez,
literalmente pela tradução das respostas do famoso e bizarro boxeador.
Você diria, muito circunlóquio, não fui direto ao
ponto. Paciência, trabalhar com tradução é assim, parece que vai ser fácil, mas nunca
é. Contudo, é instigante, e vamos direto ao ponto, o espaço aqui é pequeno, como nas
redações, onde a pressa é um vício da notícia:
Após ler várias frases entre aspas, traduções de
respostas de Tyson ao repórter, desconfiei que havia sérios problemas de interpretação
do tradutor. Ao final não tive dúvidas dos danos na e da notícia. Deduzi que a
causa fora a pressa do redator ou a sua falta de experiência, injustificável em
qualquer dos casos, mesmo que repórter, tradutor e redator tenham sido a mesma pessoa, ou
não. A partir daí farejei uma notícia subjacente, ouvi um sussurro e fui investigar. E
a notícia é: as traduções de notícias estrangeiras e de entrevistas com
personalidades internacionais estão com sérias avarias, soçobrando em alto mar.
Bem ao final da entrevista com Tyson o repórter coloca
entre aspas uma de suas respostas, assim: tudo o que eu quero é ser deixado
sozinho. Dois parágrafos acima, Tyson havia revelado que após o seu declínio no
Box, sentia-se abandonado, logo conclui que a frase traduzida, com problemas, teria sido
all I want is to be left alone. A nossa língua também quer ficar em paz, ela
não precisa levar tantos socos assim. Problemas como esse soçobravam ao longo de toda a
matéria, que contou com um colaborador, dois jornalistas, e sabe-se lá quantos mais a
leram antes de ir para as páginas (impressas e digitais) do jornal.
Minha pesquisa na Internet e em jornais impressos
prosseguiu, tendo prospectado uma fábula de lixo perigoso, tanto na superfície dos
textos traduzidos, de notícias reproduzidas de agências internacionais, quanto em suas
profundezas. A última notícia, traduzida da Associated Press, que provocou este aviso de
acidente no mar da informação jornalística, foi a de um australiano e de um
neozelandês náufragos, encontrados à deriva num bote salva-vidas no 11o,
digo, 12o dia.
A manchete anunciava um dia a menos de deriva, até aí
tudo bem. Mas logo no primeiro parágrafo uma frase soou como um direto no queixo. Os
homens estariam trazendo um motor de iate de 60 pés para um cliente de Sydney,
Austrália. Ora, o texto abria com a localização da notícia em Hanói, Vietnam, como
poderiam estar trazendo algo? Certamente eles estavam levando, assim como a
gramática e a mente do leitor estiveram levando uma surra. Mas o pior estava para vir.
Investiguei no texto original de AP e de outros veículos chineses e australianos (graças
à Internet) e descobri que os pobres náufragos levavam um motor yacht, que
é um tipo de veleiro equipado com um possante motor, podendo fazer longas viagens sem
utilizar as velas. Descrição irrelevante para o leitor em português, pois, quem é do
ramo se refere a motor yacht assim mesmo, e tanto faz, continua sendo veleiro.
Grande. A propósito, tinha 20 metros, portanto, 6 pés a mais do que o noticiado. Quem é
do mundo dos barcos sabe quanta diferença isso faz.
Bem, o texto era um acidente atrás do outro. A frase
ao final, sem edição, sem copy desk, e com muita pressa ou pouca atenção, dispensa
comentários: Nos aconchegávamos juntos um ao outro como dois bebês para nos
mantermos aquecidos durante a noite. Durma-se com um barulho desses!
Entre a matéria do Tyson e esse naufrágio, encontrei
muitas outras semelhantes, isto é, com problemas graves de tradução. Não cito nomes
porque não se trata de um patrulhamento gratuito, nem pensar. Mas de um chamado de
distress, um alerta de problemas no horizonte, um apelo para que um salvamento
seja posto em curso, bens e vidas podem ser salvos. Por falar nisso, pelo código de
comunicação náutica, as expressões Sécurité! Sécurité! Sécurité! May Day! May
Day! May Day! Help! Help! Help! S.O.S não querem dizer exatamente a mesma coisa.
O aviso se justifica porque uma dessas expressões
utilizada na ocorrência errada pode causar pânico, ou socorro tardio, e, no caso das
traduções de notícias, é tão fácil resolver, não há necessidade de danos maiores.
Conversando com cientistas da
oceanografia tenho ouvido freqüentes reclamações quanto a péssimas traduções, assim
como de descrições impróprias em textos jornalísticos sobre eventos científicos em
geral. Isso não deixa de ser um problema de tradução, interpretação. Assim, o
público está recebendo desinformação, é aí que está o problema. Por isso, caros
colegas (repórteres, chefes de redação, diretores e donos de veículos), já que a
Internet, os editores de texto, os dicionários temáticos e de expressões idiomáticas
on-line facilitaram tanto a vida da gente, não custa investir um pouquinho mais de
atenção na hora de traduzir e interpretar, pelo menos.
Atenção, revisores de plantão:
este texto foi escrito, propositalmente com pressa, em exatos 40 minutos, com base no
repertório memorizado, portanto, mãos à obra.
Luís Peazê é escritor e
jornalista (MTB 24338), tradutor de Por Quem os Sinos Dobram de Ernest
Hemingway. Dirige a Clínica Literária consultoria e agência de notícias e
preside o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade dedicada à difusão das
questões do meio ambiente marinho e mentalidade marítima
http://www.aventuranobrasilcostal.com.br
A Pequenez do Presidente [14/08/2005]
Em Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, há
diálogos de uma prostituta com um político. Prostitutas são um elemento recorrente na
obra do escritor peruano. E, como retratou tão bem o episódio histórico de Canudos em A
Guerra do Fim do Mundo, me ponho a pensar como eu faria uma resenha, se ele escrevesse A
Pequenez do Presidente, recorte da nossa crise política atual:
A chamada comercial de mais este golpe do mestre Llosa é instigante. Um jornalista e o
concierge de um hotel do Distrito Federal trocam confidências sobre o que ouvem de
suas mulheres. Uma é cafetina e a outra a sua mais requisitada prostituta. As conversas
se dão no Píer, restaurante da cidade, e revelam segredos do alto escalão do governo
brasileiro no fatídico ano de 2005.
Mesmo o leitor mais desatento irá devorar a narrativa até a última letra,
indiferente à alternância atemporal de fatos, típica de Mario Vargas, que se costuram
uns aos outros até a última linha. Motivação? O jornalista vive com a cafetina Jane,
bem mais velha e arrogante mas que lhe financia o uísque importado, carro novo e roupas
finas. A passividade do jornalista só não é irritante porque ele sabe muito, e conta
tudo para o amigo concierge. Este, por sua vez, descrito como um "monge
afeminado" acaba por salpicar o livro de um despertar da libido selvagem só
comparado aos Sete Minutos de Irving Wallace, se é que livros despertam libido. O concierge
vive com a mais bela prostituta de Jane, Karina.
Repetindo o início de Conversa na Catedral, quando Santiago pergunta a si mesmo
"Aonde foi que o Peru se fodeu?", Llosa faz a mesma indagação para o Brasil,
através de Pedro. Aliás, Santiago também era jornalista. Mas o resto das 505 páginas
de A Pequenez do Presidente são uma verdadeira catarse literária, quase em desespero, e
por isso provocante pois, de toda a sua obra pseudo-auto-biográfica, é aqui que o
peruano parece contar toda a verdade sobre o que viu e ouviu das paredes do poder na
América Latina. Ex-candidato a presidente do Peru, escreve com conhecimento de causa.
Apologista do neo-liberalismo, em voga numa época que colocou de uma só vez Menem e
Collor no poder, perdera as eleições para o futuro corrupto e golpista Fujimoro, que
vencera-lhe nas urnas com um discurso de esquerda para logo em seguida trocar de casaca,
diametralmente. Em A Pequenez do Presidente, Llosa joga de chofre essa cartada e sai
explicando por que, afinal, o Brasil terminou como o Peru.
Formado em filosofia e literatura e nascido na alta burguesia, Llosa sabe como ninguém
como as coisas acontecem em grande estilo, na corte, no jet set e coisa e tal. Mas
falta-lhe estofo do corriqueiro, não sentiu o cheiro do berço da malandragem e das ruas,
especialmente do Brasil, e busca socorro na ficção dos dois personagens centrais. Mais,
ao contrário do que possa parecer, também não entende muito do que habita no recôndito
ventre maltratado da consciência e memória das prostitutas, ninguém de fato sabe, por
isso inventa tudo. Mas inventa bem, e entretém o leitor menos acanhado quando esmera-se
na descrição das "coxas fornidas de Karina", chegando ao exagero de colocar na
boca do concierge: "quando Karina vem de madrugada, depois de trepar com não
sei quantos homens, suas coxas ainda estão quentes e parecem cobertas de uma oleosidade
macia de puta". Vamos ver se o leitor aguenta, prossegue a fala do concierge
para Pedro: "parece uma tara, ela me acorda pra transar e fica repetindo tudo o que
ouviu de seus clientes. É assim que ela chega ao orgasmo".
A embriaguez é outra repetição dos textos bem trabalhados de Llosa. E uísque,
charutos, ternos de linho, pulseiras de ouro, suor, meias de arrastão, malas de dinheiro
e dissimulação, tudo comum em qualquer república latina. No Brasil de "A
Pequenez" ele concentra bastante disso em carros oficiais novíssimos, deslizando
pelas largas avenidas do plano piloto, entrando misteriosos com seus vidros fumês em
jardins das mansões do Lago Sul. Não se esquece das festinhas íntimas onde se fofoca de
tudo, em torno das milhares de piscinas de Brasília. A certa altura desconfia-se que
Vargas viveu em BSB, como dizem os agentes de viagem. Até nisso ele é pertinaz.
Mas o livro ganha força é com as conspirações, traições, jogo do poder, medo,
dúvida, risco, ignorância, sobrevivência, luxúria e a desgraça cotidiana dos pobres,
argamassa de A Pequenez do Presidente. Um romance que conta a história daqueles que,
mesmo decepcionados com um presidente pequeno, mantiveram-se fiéis a ele, pateticamente.
Com a palavra o próprio Vargas Llosa: "Condenados a uma existência que nunca
está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para
escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção. Ela lhes permite
viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e
no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo,
da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração."
***
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Embarque
neste projeto!
Uma aventura cada vez mais necessária!
Conheça este projeto que deu origem ao Instituto Brasil Costal - BRCostal, uma empresa
sem fins lucrativos fundada no apagar das luzes de 2003, que nasceu com 28 sócios
fundadores com planos de se espraiar pelos 8500km de linha costal brasileira. Conheça o BRCostal e embarque neste
projeto, uma aventura cada vez mais necessária!

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Mídia e Crítica
A gaivota bicou um peixe - Luís
Peazê - Texto utilizado pela Dra. Zélia Adghirni na Oficina de
crítica literária na Feira do Livro
» Moacyr Scliar
A cidade onde os gatos dançavam (e as pessoas morriam) Crônica inédita, da
verve do médico sanitarista apaixonado pela ficção. Os acidentes ecológicos ocorridos por
negligência de empresas privadas e relapso, inaceitável, do poder público, são tão
fatais para o meio ambiente e a vida humana, quanto o risco de estarmos bebendo veneno, ou
escovando os dentes com arsênico sem sabermos. A diferença é que aqueles chocam pelo
visual de fotos como a do recente acidente na costa espanhola. O médico sanitarista e
renomado escritor Moacyr Scliar, através de seu imaginário fantástico,
acende uma luz dentro das nossas mentes com um caso real.
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