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Mentalidade Marítima
Entusiastas que acompanham a Volvo Ocean Race são manipulados pelos criadores do web site do Brasil 1.

 

Publicado na Conversa do Píer em 09/06/2006

 

Todos os passos dos "blogueiros", ou crédulos torcedores entusiastas, são acompanhados milimetricamente pela agência de propaganda e marketing online AddComm. Em palestra no seminário Webmétricas, realizado em São Paulo dia 06/06/2006 último e, no Rio de Janeiro, dia 08/06/2006, a Sra. Risoletta Miranda, presidente daquela empresa, contou com entusiasmo como ela orienta seus clientes para tirarem proveito do conhecimento sobre o comportamento dos frequentadores do blog do Brasil 1, e de outros, como o da marca Wella.

 

Utilizando ferramentas poderosas e metodologia de análise dos rastros deixados pelos internatuas pode-se "monetizá-los" (este palavrão é a vedete dos especialistas em Internet atualmente! Ah, "usabilidade" também, eles adoram palavrões). Uma "mina de ouro", nas palavras da Risoletta em artigos que circulam pela Internet. Ela chama de "nossa Bélgica" as classes A, B e C e afirma que essa "Bélgica" pode influenciar as classes C e D que ela chama de nossa "Índia". E recomenda aos políticos não ignorar esse ambiente em suas campanhas. Eu ia escrever um artigo sobre esse vandalismo da mente humana que acontece "por trás dos web sites da vida", mas fiquei mareado, muito mareado mesmo, pensando no que eu me transformaria se continuasse trabalhando como publicitário.

 

É, a gente peca. Mas todos temos a chance de parar de pecar.

 

Para a marca Wella, por exemplo, um dos clientes dessa AddComm, foi criado um blog que estimula as mulheres a fazerem fofoca, e tome análise de comportamento e "monetização".

 

O pior de tudo é que a Risoletta utiliza poesia, gags conhecidinhas e outros truques antigos de publicitário para desviar a atenção dos seus interlocutores e seduzi-los. Risoletta teve passagem pela Denison Propaganda (onde eu trabalhei também, muito antes dela), e, na net há uma biografia sua "realçando" que nasceu no Pará, sobre uma palafita, sonhando ser alguém na vida e lendo Fernado Pessoa numa rede de pano.

 

Cuidado 1! Ela divulgou que está disposta a dar palestras "de graça" por aí, porque está fascinada com o poder de suas descobertas do marketing online.

 

Cuidado 2! Não há por onde escapar. A rede que pesca internautas é fina e invisível. Os poderosos motores de busca, e "busca" é outra palavra chave nesse inferno da monetização, podem classificar, categorizar, qualificar e quantificar todos os passos do internautas através de seus hábitos de busca nos Googles da vida.

 

Pobres torcedores do Brasil 1, marionetes na mão de "risolettas". Pobre Risoletta, não sabe o mal que está fazendo para o mundo e para si mesma. Desperdício de uma alma tão inclinada à arte.

 

Mas quem sou eu para inverter essa onda, nesse imenso oceano tenebroso que é a Internet e o mundo dos que "buscam" o dinheiro a qualquer preço? Sou um simples amante de um sereno cruzeiro, que veleja suave como uma pipa solta sobre o mar.

 

Termino essa nota com um verso de Pessoa, que me ocorreu ao ouvir a Rizzo (apelido da Risoletta):

 

"Diante desse cais de pedra andei léguas de sombra dentro em pensamento".

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Tradução de
Luís Peazê

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Sécurité! Sécurité! Sécurité! Traduções de notícias do estrangeiro soçobrando!

 

O que você faria, se ouvisse no meio de uma metrópole uma voz apreensiva sussurrando, no seu ouvido, a chamada do título? Se for um cidadão de qualquer profissão exceto do jornalismo, pensará que está ficando louco, ouvindo vozes do além. Mas um jornalista entraria em estado de alerta; em seguida iria querer saber de onde exatamente está vindo; daí em diante é a rotina de apurar, apurar, apurar e, às vezes, traduzir corretamente antes de publicar a notícia.

 

Recentemente fui pego como um cidadão comum pela notícia de que Mike Tyson envolveu-se em confusão numa boate de São Paulo, e li a matéria. Andava meio nocauteado de tanta notícia incerta sobre quem seria indicado para punição na CPI do mensalão, e fiz um desvio para, como dizem os americanos, “limpar o sistema” (em português talvez fosse melhor traduzir “clean the system” para “zerar a paisagem mental”, mas, pensando melhor, às vezes a coisa envolve zerar-se espiritualmente (com uma notícia sobre Mike Tyson?), deixemos como está). Pois o que aconteceu foi eu ser nocauteado de vez, literalmente – pela tradução das respostas do famoso e bizarro boxeador.

 

Você diria, muito circunlóquio, não fui direto ao ponto. Paciência, trabalhar com tradução é assim, parece que vai ser fácil, mas nunca é. Contudo, é instigante, e vamos direto ao ponto, o espaço aqui é pequeno, como nas redações, onde a pressa é um vício da notícia:

 

Após ler várias frases entre aspas, traduções de respostas de Tyson ao repórter, desconfiei que havia sérios problemas de interpretação do tradutor. Ao final não tive dúvidas dos danos na e da notícia. Deduzi que a causa fora a pressa do redator ou a sua falta de experiência, injustificável em qualquer dos casos, mesmo que repórter, tradutor e redator tenham sido a mesma pessoa, ou não. A partir daí farejei uma notícia subjacente, ouvi um sussurro e fui investigar. E a notícia é: as traduções de notícias estrangeiras e de entrevistas com personalidades internacionais estão com sérias avarias, soçobrando em alto mar.

 

Bem ao final da entrevista com Tyson o repórter coloca entre aspas uma de suas respostas, assim: “tudo o que eu quero é ser deixado sozinho”. Dois parágrafos acima, Tyson havia revelado que após o seu declínio no Box, sentia-se abandonado, logo conclui que a frase traduzida, com problemas, teria sido “all I want is to be left alone”. A nossa língua também quer ficar em paz, ela não precisa levar tantos socos assim. Problemas como esse soçobravam ao longo de toda a matéria, que contou com um colaborador, dois jornalistas, e sabe-se lá quantos mais a leram antes de ir para as páginas (impressas e digitais) do jornal.

 

Minha pesquisa na Internet e em jornais impressos prosseguiu, tendo prospectado uma fábula de lixo perigoso, tanto na superfície dos textos traduzidos, de notícias reproduzidas de agências internacionais, quanto em suas profundezas. A última notícia, traduzida da Associated Press, que provocou este aviso de acidente no mar da informação jornalística, foi a de um australiano e de um neozelandês náufragos, encontrados à deriva num bote salva-vidas no 11o, digo, 12o dia.

 

A manchete anunciava um dia a menos de deriva, até aí tudo bem. Mas logo no primeiro parágrafo uma frase soou como um direto no queixo. Os homens estariam trazendo um motor de iate de 60 pés para um cliente de Sydney, Austrália. Ora, o texto abria com a localização da notícia em Hanói, Vietnam, como poderiam estar “trazendo” algo? Certamente eles estavam levando, assim como a gramática e a mente do leitor estiveram levando uma surra. Mas o pior estava para vir. Investiguei no texto original de AP e de outros veículos chineses e australianos (graças à Internet) e descobri que os pobres náufragos levavam um “motor yacht”, que é um tipo de veleiro equipado com um possante motor, podendo fazer longas viagens sem utilizar as velas. Descrição irrelevante para o leitor em português, pois, quem é do ramo se refere a “motor yacht” assim mesmo, e tanto faz, continua sendo veleiro. Grande. A propósito, tinha 20 metros, portanto, 6 pés a mais do que o noticiado. Quem é do mundo dos barcos sabe quanta diferença isso faz.

 

Bem, o texto era um acidente atrás do outro. A frase ao final, sem edição, sem copy desk, e com muita pressa ou pouca atenção, dispensa comentários: “Nos aconchegávamos juntos um ao outro como dois bebês para nos mantermos aquecidos durante a noite”. Durma-se com um barulho desses!

 

Entre a matéria do Tyson e esse naufrágio, encontrei muitas outras semelhantes, isto é, com problemas graves de tradução. Não cito nomes porque não se trata de um patrulhamento gratuito, nem pensar. Mas de um chamado de “distress”, um alerta de problemas no horizonte, um apelo para que um salvamento seja posto em curso, bens e vidas podem ser salvos. Por falar nisso, pelo código de comunicação náutica, as expressões Sécurité! Sécurité! Sécurité! May Day! May Day! May Day! Help! Help! Help! S.O.S não querem dizer exatamente a mesma coisa.

 

O aviso se justifica porque uma dessas expressões utilizada na ocorrência errada pode causar pânico, ou socorro tardio, e, no caso das traduções de notícias, é tão fácil resolver, não há necessidade de danos maiores.

 

Conversando com cientistas da oceanografia tenho ouvido freqüentes reclamações quanto a péssimas traduções, assim como de descrições impróprias em textos jornalísticos sobre eventos científicos em geral. Isso não deixa de ser um problema de tradução, interpretação. Assim, o público está recebendo desinformação, é aí que está o problema. Por isso, caros colegas (repórteres, chefes de redação, diretores e donos de veículos), já que a Internet, os editores de texto, os dicionários temáticos e de expressões idiomáticas on-line facilitaram tanto a vida da gente, não custa investir um pouquinho mais de atenção na hora de traduzir e interpretar, pelo menos.

 

Atenção, revisores de plantão: este texto foi escrito, propositalmente com pressa, em exatos 40 minutos, com base no repertório memorizado, portanto, mãos à obra.

Luís Peazê é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de “Por Quem os Sinos Dobram” de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – consultoria e agência de notícias e preside o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e mentalidade marítima

http://www.aventuranobrasilcostal.com.br

 


A Pequenez do Presidente [14/08/2005]

Em Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, há diálogos de uma prostituta com um político. Prostitutas são um elemento recorrente na obra do escritor peruano. E, como retratou tão bem o episódio histórico de Canudos em A Guerra do Fim do Mundo, me ponho a pensar como eu faria uma resenha, se ele escrevesse A Pequenez do Presidente, recorte da nossa crise política atual:

A chamada comercial de mais este golpe do mestre Llosa é instigante. Um jornalista e o concierge de um hotel do Distrito Federal trocam confidências sobre o que ouvem de suas mulheres. Uma é cafetina e a outra a sua mais requisitada prostituta. As conversas se dão no Píer, restaurante da cidade, e revelam segredos do alto escalão do governo brasileiro no fatídico ano de 2005.

Mesmo o leitor mais desatento irá devorar a narrativa até a última letra, indiferente à alternância atemporal de fatos, típica de Mario Vargas, que se costuram uns aos outros até a última linha. Motivação? O jornalista vive com a cafetina Jane, bem mais velha e arrogante mas que lhe financia o uísque importado, carro novo e roupas finas. A passividade do jornalista só não é irritante porque ele sabe muito, e conta tudo para o amigo concierge. Este, por sua vez, descrito como um "monge afeminado" acaba por salpicar o livro de um despertar da libido selvagem só comparado aos Sete Minutos de Irving Wallace, se é que livros despertam libido. O concierge vive com a mais bela prostituta de Jane, Karina.

Repetindo o início de Conversa na Catedral, quando Santiago pergunta a si mesmo "Aonde foi que o Peru se fodeu?", Llosa faz a mesma indagação para o Brasil, através de Pedro. Aliás, Santiago também era jornalista. Mas o resto das 505 páginas de A Pequenez do Presidente são uma verdadeira catarse literária, quase em desespero, e por isso provocante pois, de toda a sua obra pseudo-auto-biográfica, é aqui que o peruano parece contar toda a verdade sobre o que viu e ouviu das paredes do poder na América Latina. Ex-candidato a presidente do Peru, escreve com conhecimento de causa. Apologista do neo-liberalismo, em voga numa época que colocou de uma só vez Menem e Collor no poder, perdera as eleições para o futuro corrupto e golpista Fujimoro, que vencera-lhe nas urnas com um discurso de esquerda para logo em seguida trocar de casaca, diametralmente. Em A Pequenez do Presidente, Llosa joga de chofre essa cartada e sai explicando por que, afinal, o Brasil terminou como o Peru.

Formado em filosofia e literatura e nascido na alta burguesia, Llosa sabe como ninguém como as coisas acontecem em grande estilo, na corte, no jet set e coisa e tal. Mas falta-lhe estofo do corriqueiro, não sentiu o cheiro do berço da malandragem e das ruas, especialmente do Brasil, e busca socorro na ficção dos dois personagens centrais. Mais, ao contrário do que possa parecer, também não entende muito do que habita no recôndito ventre maltratado da consciência e memória das prostitutas, ninguém de fato sabe, por isso inventa tudo. Mas inventa bem, e entretém o leitor menos acanhado quando esmera-se na descrição das "coxas fornidas de Karina", chegando ao exagero de colocar na boca do concierge: "quando Karina vem de madrugada, depois de trepar com não sei quantos homens, suas coxas ainda estão quentes e parecem cobertas de uma oleosidade macia de puta". Vamos ver se o leitor aguenta, prossegue a fala do concierge para Pedro: "parece uma tara, ela me acorda pra transar e fica repetindo tudo o que ouviu de seus clientes. É assim que ela chega ao orgasmo".

A embriaguez é outra repetição dos textos bem trabalhados de Llosa. E uísque, charutos, ternos de linho, pulseiras de ouro, suor, meias de arrastão, malas de dinheiro e dissimulação, tudo comum em qualquer república latina. No Brasil de "A Pequenez" ele concentra bastante disso em carros oficiais novíssimos, deslizando pelas largas avenidas do plano piloto, entrando misteriosos com seus vidros fumês em jardins das mansões do Lago Sul. Não se esquece das festinhas íntimas onde se fofoca de tudo, em torno das milhares de piscinas de Brasília. A certa altura desconfia-se que Vargas viveu em BSB, como dizem os agentes de viagem. Até nisso ele é pertinaz.

Mas o livro ganha força é com as conspirações, traições, jogo do poder, medo, dúvida, risco, ignorância, sobrevivência, luxúria e a desgraça cotidiana dos pobres, argamassa de A Pequenez do Presidente. Um romance que conta a história daqueles que, mesmo decepcionados com um presidente pequeno, mantiveram-se fiéis a ele, pateticamente.

Com a palavra o próprio Vargas Llosa: "Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção. Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração."

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Mídia e Crítica
A gaivota bicou um peixe - Luís Peazê - Texto utilizado pela Dra. Zélia Adghirni na Oficina de crítica literária na Feira do Livro


» Moacyr Scliar
A cidade onde os gatos dançavam (e as pessoas morriam)
Crônica inédita, da verve do médico sanitarista apaixonado pela ficção.
Os acidentes ecológicos ocorridos por negligência de empresas privadas e relapso, inaceitável, do poder público, são tão fatais para o meio ambiente e a vida humana, quanto o risco de estarmos bebendo veneno, ou escovando os dentes com arsênico sem sabermos. A diferença é que aqueles chocam pelo visual de fotos como a do recente acidente na costa espanhola. O médico sanitarista e renomado escritor Moacyr Scliar, através de seu imaginário fantástico, acende uma luz dentro das nossas mentes com um caso real.


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