
Em seu romance de estréia Maria de cada porto
(1959), Moacir C. Lopes conta a pungente história de um grupo de náufragos cinco dias à
deriva no mar juntando esforços para continuarem vivos. Em Onde repousam os
náufragos, vai além: não é a própria morte que seus personagens precisam
evitar, mas o desaparecimento de um navio que deu sentido a suas existências.
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Imperecível:
Os Trabalhadores do Mar - Victor
Hugo
O prólogo da tradução de Machado de Assis desse clássico diz: "A
religião, a sociedade, a natureza: tais são as três lutas do homem. Estas três lutas
são ao mesmo tempo as suas três necessidades; precisa crer, daí o tempo; precisa criar,
daí a cidade; precisa viver, daí a charrua e o navio. Mas há três guerras nestas três
soluções. Sai de todas a misteriosa dificuldade da vida. O homem tem de lutar com o
obstáculo sob a forma superstição, sob a forma preconceito e sob a forma elemento.
Tríplice ananke (em grego: necessidade, fatalidade) pesa sobre nós, o ananke
dos domas, o ananke das leis, o ananke das coisas. Na Notre-Dame de
Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseráveis, mostrou o segundo; em Os
Trabalhadores do Mar indica o terceiro. A estas três fatalidades que envolvem o
homem, junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.
Houteville-House, março de 1866.Por Luís Peazê: a exemplo de Cervantes, Victor Hugo escreveu suas
melhores obras primas no exílio (aquele estava na verdade preso numa cela quando escreveu
Dom Quixote). Os Miseráveis foi escrito na Ilha de Guernesey, onde o autor ficou exilado,
inimigo acérrimo de Napoleão Bonaparte, e onde escreveu o manisfesto Napoleão, o
pequeno. Os Trabalhadores do Mar é dedicado aos marinheiros de Guernesey.
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Ninfas
do Mar
Embarcações da Petrobras dedicadas ao combate
a derramamentos de óleo no mar
As formas mais jovens, até os seus
cinco ínstares ninfais, dos percevejos são imperceptíveis no colmo das plantas,
entretanto a devastação é iminente. Na fase adulta, com 3 milímetros de comprimento,
sugam o pé do arroz, do milho, do amendoim e de outras plantas até deixá-las chochas e
finalmente mortas. Pesquisadores da Embrapa estão estudando uma forma de combater esses
insetos com a armadilha montada com o cheiro do feromônio que os machos exalam para
seduzir a fêmea para o coito, ou o som que seus corpos produzem na hora da transa
(aqueles gritinhos). Com isso esperam atrair seus predadores, entre eles a micro-vespa,
espiões químico-físicos desses cheiros e sons, que depositam seus ovos dentro da
postura (ovos também) dos percevejos, instalando futuros espiões no corpo das ninfas,
como são chamados os percevejos na sua fase infante.
Enquanto tudo isso pode estar acontecendo surdamente
numa plantação de milhões de hectares de terra, nos 4,2 milhões de quilômetros
quadrados de águas oceânicas que banham o Brasil, gigantescas aranhas de ferro plantadas
no meio do mar sugam as entranhas do planeta extraindo uma substância negra e viscosa
que, se faltar de repente, pode levar o mundo ao colapso e pandemônio. Daí, o nosso
dever de olhar com carinho para àqueles gigantes que se arrastam pelos mares
transportando petróleo, os navios petroleiros, vistos por ferozes ambientalistas como
ameaçadores da vida na Terra. De um certo modo os navios, desde que se descobriu o
petróleo, apenas giram o mundo, é o homem o percevejo que suga a seiva vital deste
pequeno torrão solto em torno do sol e minúsculo em relação ao universo.
Mas e as ninfas? Ninfas não são, na mitologia
grega, as divindades que habitam os rios, fontes, bosques, montes e prados? Ou, mulheres
jovens e esbeltas, crisálidas? São, como também assim são chamados os pequenos lábios
(da vulva). Ou seja, nem sempre o que se vê é o que é, pelo menos apenas isso.
O poeta Rainer Maria Rilke escreveu uma vez, mais ou
menos assim, que enquanto milhões de rosas desabrocham pelo mundo afora guinchando de
modo inescutável no meio do silêncio e mistérios da noite, milhões de bebês mergulham
para fora de úteros dando início a uma nova fase da vida que iniciaram a um tempo
atrás, incontável. Há vinte anos uma empresa multinacional poderia utilizar essa bonita
expressão poética para ilustrar um anúncio institucional de TV, e emocionar a
audiência, para contar orgulhosamente o número de unidades fabris espalhadas pelo mundo.
Hoje em dia já não pode mais. A consciência coletiva com relação à preservação da
vida, ou melhor, com relação à qualidade de vida sobre a Terra, chega cada vez mais
perto de uma massa crítica implacável, e as empresas ficam cada vez mais eterais,
deixando nas mãos dos homens e mulheres que nelas trabalham a responsabilidade de
atenderem às verdadeiras necessidades do indivíduo comum. E isto nos põe em direto
contato com o conceito de responsabilidade social. A empresa que equilibrar no mesmo plano
de importância, a sua finalidade econômica, o lucro, com a de preservação da natureza
e da inclusão social terá sucesso, a que desequilibrar de um desses três pilares,
afundará, ou ficará chocha, mais cedo ou mais tarde.
A atividade das embarcações dedicadas ao combate a
derramamentos de óleo no mar faz parte do plano de contingência da Petrobras. Só para
lembrar, diz-se de contingente o plano que é feito para substituir um outro numa
eventualidade. No caso, o plano original é extrair e transportar petróleo e para isso a
mais alta e diversificada tecnologia (mecânica, física, química, biológica,
geológica, elétrica, eletrônica, marinha, oceânica, de gestão, etc), orgulho
nacional**, é reunida em torno daqueles três pilares mobilizando dezenas de milhares de
empregados, e mais de 175 milhões indiretamente. Em caso de uma ocorrência inevitável,
já que nem uma gota dágua nunca cai no mesmo lugar, na mesma velocidade e
proporção, o barco Astro Ubarana entra em ação com seus seis homens de macacões
azuis, a tripulação responsável por recolher manchas de óleo que navegam na
superfície da água do mar, e seus doze tripulantes, de macacões laranjas, que fazem o
barco andar a um nó de velocidade, isto é, quase parado. Pois é somente nesta
velocidade que é possível se recolher óleo do meio líquido e turbulento pelas ondas do
mar. Por isso a introdução longa desse texto. Como no Astro Ubarana, fica-se horas,
dias, meses sem uma ação sequer e quando ele é chamado tem que agir instantaneamente.
Para isso o Astro Ubarana parece um tubarão
navegando sem parar, nunca pára, fica bordejando de dentro para fora da Baía da
Guanabara ininterruptamente, troca de turma a cada período de 35 dias, e, como é
inimaginável ter-se infinitamente um plano de contingência para o plano de
contingência, a equipe do Astro Ubarana não pode falhar quando é acionada. Assim,
treina incessantemente. E a tarefa, vista do passadiço do robusto barco de aço, parece
simples. Resume-se em colocar lanchas de trabalho na água, de cima do convés, acoplar
esteiras verticais que bóiam com uma saia vertical imersa abaixo do filme hipotético de
óleo derramado para encurralar o óleo perdido, e um equipamento que parece um enorme
percevejo que suga este óleo, os skimmers, para tanques no convés. E ainda treinam a
dispersão de óleo em casos em que o remédio é dispersá-lo, ou o uso de absorventes
gigantes. Que as feministas radicais não se açodem, é apenas uma forma de enxergar a
coisa, pois afinal tudo sai ricamente das entranhas da Terra e não há razão para
pudicísmo, tenhamos olhos para a beleza em tudo, no mais nobre sentido, e paremos de agir
como trogloditas que penetram no mundo, extraem o seu mel e se vão, sem olhar para trás. Neste sentido a Petrobras é
feminina, e lembra uma ninfa.
Mas essas metáforas não são gratuitas. No Astro
Ubarana, o responsável pelo treinamento das equipes, o Engenheiro Cláudio Fayad,
inventou um bambolê que são argolas de vergalhões de ferro equipadas com pequenas
rodinhas de isopor que simulam o comportamento de laranjas-limas boiando e se deslocando
com a corrente do mar. É! Laranjas. As laranjas são utilizadas para simulação de
deslocamento de manchas de óleo no mar. E convenhamos, jogar laranjas no mar é um
desperdício, não é? Palmas para o Bambolê do Fayad, dizem técnicos americanos que
aqui vêm para aprender com a criatividade do brasileiro.
Aliás esse senhor cheio de entusiasmo, o Seu Fayad
como é chamado pela tripulação do Astro Ubarana e do Norsul Marati (operando no litoral
de Aracaju), era um percevejo. Serviu na Força Aérea Brasileira e os soldados que no seu
tempo moravam no quartel da FAB eram chamados de percevejo. Assim, voltando ao assunto
inicial das ninfas, ínstares dos ovos de percevejo, o seu significado etimológico
(origem da palavra) vem do latim nhymphae e, segundo diz o dicionarista renascentista
Bluteau (1712) "Porfírio escreve que se chamavam ninfas as almas dos homens, na
realidade, ninfa tem analogia com o hebraico nephes que quer dizer alma."
E o que se vê, nas equipes do Astro Ubarama, do
Norsul Marati e do Rebello XV (outro barco sendo preparado para a mesma função,
destinado a basear, sem fundear, em São Sebastião), são homens com a alma do mar, sem
exagero, dedicados, treinando dia após dia, tarefas aparentemente monótonas, mas
perigosas e pesadas, sob o sol, sob a chuva, sob condições tempestivas de mar e (**) com
a bandeirinha do Brasil colada no braço.
Copyright
© 2003 Luís Peazê escritor e jornalista científico (MTB 24338) idealizador e
coordenador geral da Aventura no Brasil Costal
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Buarque de Hollanda
na Clínica Literária antes da Bienal Leia mais »»
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