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CRÔNICO
uma aventura diária -
Nas Esquinas do Rio
Luís Peazê
Imago Editora  (2006)
164 pg 21x15
ISBN 978.85.312.1003-8
Preço de capa R$30,00

 

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29/12/2006
Crônico de Brasil: uma vergonha nacional.
Bandidos analfabetos mas rigorosamente organizados e competentes.

Luís Peazê*

enchente.jpg (816914 bytes)Um dia para ficar na história da nação. Quarta-feira 27, quatro dias do final de 2006, bandidos aquartelados em presídios de segurança máxima comandam postos avançados em morros do Rio de Janeiro e patrocinam uma sequência de atentados terroristas na Cidade Maravilhosa. Segundo uma reportagem de TV, um bilhete deixado por esses bandidos, num dos 12 pontos estratégicos de ataque, esclarece as razões dos incêndios de ônibus e automóveis, rajadas de metralhadora contra delegacias e guaritas policiais e assaltos em bando sobre elevados.

Diz o suposto bilhete dos bandidos que os ataques são uma represália ao apoio da governadora do estado às “mellissias” que protegem os moradores dos morros. Esses bandidos notoriamente analfabetos se referem às milícias instituídas nas favelas, por policiais da ativa, ex-policiais, bombeiros, seguranças e indivíduos de atividades diversas, que, cansados da incompetência da Secretaria de Segurança do Estado e, por extensão, de sua polícia militar, resolveram prover suas comunidades com a segurança contra o poder constituído pelo narcotráfico. E, para tornar mais complexo ainda o problema, sabe-se que essas milícias promovem a extorsão de seus protegidos (no comércio irregular de serviços de utilidade pública tais como gás, luz, TV a cabo, Internet, transporte alternativo, etc) criando um cenário criminoso dentro de um cenário já minado pelo crime à exaustão. Analfabetos sim, mas rigorosamente organizados, e competentes – bandidos e milícias.

Efeito retardado (mas nem tanto), um dia após os atentados, é estarrecedor o fato que vem à público da boca dos responsáveis oficiais pela segurança na cidade, de que a sua “inteligência” tinha conhecimento de que o terror seria deflagrado antes do fim do ano, uma reprise do que acontecera na Terra da Garoa, São Paulo, meses atrás.

Tudo isso deixa perplexa, desarmada, indefesa uma população que viveu aos sobressaltos e insegura o ano inteiro, com relação aos rumos do país como um todo; pelos escândalos na política, no próprio núcleo duro do governo Lula, no Senado, no Congresso e até no sistema judiciário; pela tentativa de aumento de salário abusivo dos senadores e deputados; pela incompetência da administração do sistema de controle de tráfego aéreo, que culminou com a morte de centenas de pessoas; com a falta de respeito das companhias aéreas expondo passageiros à humilhação e perdas morais e materiais nos aeroportos; enfim, a lista de desgoverno é interminável, mas não bastasse isso tudo, somam-se as enxurradas que provocam enchentes na mal administrada cidade e arredores (pobres) tornando a vida das suas populações um caos, surge esta bomba de fim-de-ano: vários ônibus e automóveis queimados, pessoas mortas, pessoas severamente vitimadas, postos policiais acintosamente metralhados.

Na imprensa internacional lê-se sobre a guerra no Iraque, um lugar comum, e vem da Somália a notícia da sua guerra civil que se arrasta por quinze anos, será que essa imprensa abre manchetes mundo afora de que no Brasil um massacre civil, moral e físico, está em franco progresso? Não, nossas notícias são departamentalizadas, pontuais, e há inclusive algumas tendenciosas sobre uma suposta popularidade positiva do nosso Presidente da República, tido como líder atual da América Latina. Um homem que admite publicamente que “caixa 2” em campanha política é normal, que não sabe o que seus homens de confiança fazem (roubam) ou deixam de fazer na sala ao lado da sua, e outras barbaridades. Essa imprensa destaca também, mas em pequenos cantos de seus periódicos, que no Haiti a Força de Paz da ONU, liderada pelas Forças Armadas Brasileiras, reconduz o país à estabilildade política e social, mas sabe-se que ela, essa imprensa, não destaca que aqui no Brasil as suas Forças Armadas são inúteis, desmazeladas, um desperdício de dinheiro público, de consumo de riqueza de seus contribuintes.

Ironicamente na quinta-feira, quando a cidade vive uma atmosfera de medo, insegurança e sofrimento pelas perdas humanas nos ataques covardes daqueles bandidos aquartelados nos novos presídios de “segurança máxima”, a governadora e autoridades (expressão indecente) participam solenemente da implosão espetacular do mais antigo e obsoleto presídio da cidade. Uma implosão da moral, ética e do respeito à família brasileira, encarcerada pelo lado de fora dos presídios modernos. O “Frei Caneca” vai abaixo com salva de palmas e ovação. Ali foram executadas muitas penas de morte, abolidas no Brasil quando o nosso Imperador ficou envergonhado por ter descoberto que um certo fazendeiro fora executado injustamente. Uma vergonha nacional.


Luís Peazê é escritor e jornalista (MTB 24338) e tirou a foto que ilustra essa crônica da janela de seu apartamento, onde ficou ilhado, metade do dia. Onde mora, sempre que cai uma chuva ininterrupta de trinta minutos, Peazê e seus vizinhos convivem com enchentes como esta, entra ano sai ano. Pura falta de respeito da Prefeitura para com os seus contribuintes.


000_0093.jpg (784646 bytes)05/12/2006
Logo após entrevista na Rádio MPB FM 90.3
Vá você dar uma entrevista...

Fale Mansur, digo, gravemos novamente, conte-me tudo não me esconda nada, usando o seu bordão dos anos 80, quando foi mesmo que você começou no rádio?

Gostaria de ter começado a entrevista assim, mas era o Mansur que iria me entrevistar. Bah! A gente é encurralado por aqueles microfones... Claro que há pessoas que se sentem à vontade num estúdio de rádio, há inclusive aquelas que adoram mesmo é uma câmera de TV.

Logo no início, Mansur acertou meu tendão de aquiles: - Bah! – repetiu ele brincando com o meu sotaque. Esse bah que acompanha nós gaúchos, e às vezes a gente nem sente que ele veio junto, como um fiapo de linha pendurado na bainha das calças. E lá fui eu tentar explicar como um gaúcho se atreve a escrever um livro com este título: CRÔNICO – uma aventura diária – Nas Esquinas do Rio. Pensando melhor, talvez por isso, porque olha para o Rio com um olhar diferente.

De qualquer modo, está aí um dos méritos do rádio. Pela voz passa a nossa personalidade e, com sorte, uma série de outros traços com os quais a imagem tenderia a competir, se fosse na TV – para o bem e para o mal, é verdade.

Curioso é que ouvimos essas vozes bem colocadas, enunciando corretamente cada palavra, vozes macias, suaves, e imaginamos que o visual é isso tudo também. Que preconceito, né? Em Porto Alegre havia um locutor que fazia um programa chamado Aconteceu. Tinha uma voz tipo trovão, mas que era agradável, e narrava casos de violência, brigas de família, entre vizinhos, etc. Diziam que era tudo inventado. Mesmo assim, ficava-se com o ouvido colado no rádio, acompanhando as histórias que o radialista narrava. Acho que com sua voz ele hipnotizava os ouvintes. Um dia conheci o radialista. Era retaco, calvo, usava óculos com aros pesados, vestia-se de um modo engraçado, calça branca com cinto preto e sapatos pretos, camisa branca aberta no peito, ninguém adivinharia que era dono daquela voz no rádio. Espere! Mansur não é nada disso, totalmente ao contrário, exceto a qualidade da voz e a experiência. E certamente faz parte de um compêndio da história do rádio nas últimas décadas.

Lembro do Mansur entrevistando os Carpenters quando visitaram o Brasil. Se não me falha a memória foi em 1981, pois eu chegara ao Rio em 1978, morava ali em Copacabana, jogava no Camburão (mais tarde Baguzinho), escalava o Pão de Açúcar para não pagar no Noites Cariocas, no deserto da Barra da Tijuca só havia o espigão do Novo Leblon...

Então, de repente, eu estou no estúdio da Rádio MPB FM 90.3 e a entrevista começa, sem nenhuma preleção. Chegara pontualmente na hora marcada e na recepção havia um senhor sentado, lendo umas folhas de papel, que levantou-se e disse para mim: – Oi, sou o Mansur. – Ué, desculpa, não te reconheci – respondi surpreso. Quem iria acreditar que o Fernando Mansur tem o tipo físico de um monge, e o jeito afável também, de deixar você à vontade. E aos poucos os cabelos grisalhos do Mansur foram sendo tingidos pela sua voz.

Mas vamos ao que interessa aqui: o meu total despreparo. Depois dos sessenta minutos de entrevista, fiquei com a sensação de que me enrolei a cada respostas e não conseguia lembrar o que havia falado. Havia pensado em dizer tanta coisa para destacar as qualidades do livro que estou lançando. Pobre CRÔNICO, não pode contar comigo desta vez. A simpática Carla Paes Leme - que astral! -, produtora do programa, ainda tentou me animar: - Que nada, você fala muito bem. Mais tarde algumas frases minhas recorreram à mente e fiquei vermelho de vergonha, mesmo sozinho dirigin000_0095.jpg (752622 bytes)do sobre a ponte Rio-Niterói ao voltar para casa. Por sinal, ouvindo a voz de Mansur no programa Palco MPB, produzido ao vivo na Lapa. Não se dá mais do que trinta anos ao Mansur.

Pra não dizer que não acertei nada, se desafinei na letra, na música mereço aplausos: o nome do programa é Letra & Música e o Mansur sempre pede para o entrevistado dedicar uma música para o ouvinte. Saquei do bolso a cola e mandei: Elis Regina, Alô, alô, marciano. Mas voltando lá para o fiasco: ouvia o rádio do carro e me perguntava: - Como será que eu disse isso e aquilo? E a minha terrível dicção?

Exagero? Ah, você acha que é fácil? Então vá você dar uma entrevista... Especialmente quando for o entrevistador que deve ser entrevistado por você.


29/11/2006
Crônico de Letras & Músicas

Luís Peazê

Só os músicos se tocam da primeira nota numa música. Só uma pessoa letrada consegue ler nas entrelinhas. O resto da gente se deixa invadir pelo som, simplesmente. O resto da gente se deixa iludir, por essas coisas escritas que eles chamam de letras. Até que alguém diga, palavras são palavras, nada mais do que palavras; ou, as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti. Pronto, nunca mais paramos de ler. Se tiver melodia, então, ninguem resiste. E não há nada de complicado, há é um golpe bem dado, embora possa ser até calculado, metrificado, e sair suado, seja lá por quem for.

Às vezes esse “quem for” é um Noel Rosa, que, ainda menino, não queria estudar, e sua mãe para impedi-lo de sair com amigos escondeu-lhe toda a roupa, e ele, de seu quarto, gritou: - Com que roupa, com que roupa, eu vou!

Estava criada uma das letras mais singelas e lindas do samba de carnaval. De 1931 e de todos os tempos.

Recomendação: continue lendo como se estivesse gazeando aula, ou fugindo do trabalho no meio da tarde, lambendo um sorvete. É a única sensação que me ocorre com letras para copiar o efeito da música na alma da gente. Entrelinhas: gazear também é chilrear, emitir sons, soltar a voz; só pra lembrar.

Ou, a idéia de correr por entre automóveis em ruas e avenidas, buzinas tocando sem cessar, debaixo de chuva, enquanto está chovendo, e abraçar uma mulher toda molhada, e despenteada; que maravilha, que coisa linda que é o amor. Pense bem, ela vem chegando de branco, meiga e tímida, com a chuva molhando o seu corpo, e a gente no meio da rua, do mundo, no meio da chuva a girar, a girar, que maravilha, a girar, que maravilha. Acabamos de ouvir Jorge Ben Jor e Toquinho juntos ao teclado de uma máquina de escrever, melhor dizendo, rabiscando num guardanapo de bar, talvez. Ou dedilhando o seu violão que depois foi tresdedilhado de incontáveis variações.

Pois bem, quando letra e música comportam-se como dois amantes, no mesmo tom; quando cada um quer surpreender o outro, em vez de superar; revezando-se por cima, por baixo, enrodilhando-se em notas, estrofes e refrões, infinitamente. Mesmo que dure uma eternidade ou o tempo de fazer amor, de um beijo, ou de um olhar, ora, se não for assim, melhor que a música toque sozinha, e as palavras falem surdas à mente... Mas alto lá, a solo também têm o seu valor. E como.

Exemplos não faltam, e, como música e letra rimam com sede e fome, até a receita de uma feijoada completa, regada ao que acontece no cotidiano, passa pelo coração da gente e fica. Quer ver, é Chico Buarque quem diz, não sou eu: Mulher, você vai gostar. Tô levando uns amigos pra conversar. Eles vão com uma fome que nem me contem. Eles vão com uma sede de anteontem. Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão. E vamos botar água no feijão. Mulher, não vá se afobar. Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar. Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto. E prepare as lingüiças pro tiragosto. Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão. E vamos botar água no feijão. Mulher, você vai fritar. Um montão de torresmo pra acompanhar. Arroz branco, farofa e a malagueta. A laranja-bahia ou da seleta. Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão. E vamos botar água no feijão. Mulher, depois de salgar. Faça um bom refogado, que é pra engrossar. Aproveite a gordura da frigideira. Pra melhor temperar a couve mineira. Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão. E vamos botar água no feijão.

Mudando de conversa, onde foi que ficou? Aquela velha amizade. Aquele papo furado todo fim de noite. Num bar do Leblon. Meu Deus do céu, que tempo bom! Tanto chopp gelado, confissões à bessa. Meu Deus, quem diria que isso ia se acabar. E acabava em samba. Que é a melhor maneira de se conversar. Quem assina em baixo é o menestrel Herminio Bello de Carvalho, sonorizado (com o perdão da palavra) por Mauríco Tapajós.

Quem disse que crônica não combina com música? Meu amigo o dono da Toca do Vinicicius, toca de toca mesmo, simpática, aconchegante, ali em Ipanema, na rua do poetinha, que vende tudo o que toca à música popular brasileira. Abre aspas, uma partitura, uma biografia, um método, uma historiazinha da música ou - quem sabe ? - um CD de bossa nova, samba clássico ou choro, fecha aspas, palavras de Carlos Afonso.

Eu bebo sim, estou vivendo... de tanto levar frechada do meu amor, meu corpo até parece sabe o quê, tauba de tiro ao auvaro, não tem mais onde furar... Misturando música com música, letra com letra, um jeito crônico de ser.


25/11/2006
003 Bate papo com passantes L&E 25 nov 2006.jpg (253496 bytes)Leblon, o bairro mais nobre da pobreza brasileira

Macedo, sargento da Polícia Militar, veste colete à prova de balas e porta duas pistolas automáticas. Uma na cintura, outra sob a axila num coldre à meia espalda. Macedo tem uma rechonchuda simpatia, para os passantes, senhoras e senhores; Macedo tem a ginga carioca expressa na fala, para conhecidos prestadores de serviços das redondezas; eletricistas, caminhoneiros a frete, porteiros, engraxates... Macedo diz: - não, minha senhora, isso é o Rio de Janeiro.

É um sábado torrente de fim de primavera, já ferve pelas compras de Natal, o trânsito ruge febril, e um carro com placa de Teresópolis pára bem em frente à passagem de pedestres. – Ei, aí não pode – fala Macedo, sem impor autoridade, e estuda a reação do motorista. Um homem gordo que abre a porta de seu automóvel e grita: - É só pra comprar o jornal. Pode? É rapidinho... Macedo lhe faz um gesto de repreensão, mas amigável, estuda o homem, e o condena abanando com a cabeça, pessoas em volta interagem e aprovam a condenação de Macedo, o homem sai de seu carro, deixa a porta aberta e corre até a banca de jornal da esquina. O carro permanece atravessado impedindo parte do trânsito, três minutos, uma eternidade a contar pelas buzinas.

-    É gente de cidade do interior – diz a senhora para Macedo.
-    Não, minha senhora, isso é Rio de Janeiro.

Na semana passada, a poucas quadras dali, uma executiva abastada, de sobrenome conhecido no país, foi morta com um tiro na cabeça. Supostamente por um menor assaltante, que confessara o crime dias depois. Na mesma semana outra senhora foi morta com um tiro, no mesmo bairro. Por toda a cidade, país, morre-se a tiros.

-    Se a imprensa vê a gente afastado mais de 10 metros da guarita, fotografa e põe no jornal – diz Macedo para a senhora.
Um escritor comenta:
-    Vocês já repararam na parede humana de homens com terno escuro e gravata nas calçadas do Leblon e Ipanema, ao longo da Ataulfo e Visconde?

Macedo faz um gesto com a cabeça, sorri ironicamente e alguém do grupo diz:

-    Esses seguranças tomam dinheiro dos comerciantes.

Macedo comenta: - mas nós estamos fardados, aparecemos mais, e levamos a culpa – a conversa se estende e, a certa altura, Macedo diz: - Sou de uma outra época, minha mãe me olhava de cara feia e eu já sabia que tinha que me enquadrar.

Passa um engraxate e vê o escritor sob um guarda-sol, conversando com o policial e dois passantes. O escritor promove seu livro, escrevendo ao vivo numa máquina antiga de datilografia. O engraxate pergunta: - o que é isso? – o escritor lhe oferece a cadeira para sentar, e para testar as teclas, praticar naquela máquina que foi de um homem famoso. Quem sabe já fora tocada até por um Rubem Braga, que por sinal era amigo do Almirante Paulo Moreira, dono daquela máquina, tradutor de Aldous Huxley, pioneiro da oceanografia brasileira. O engraxate senta-se à máquina, seus olhos brilham, é uma criança diante de um brinquedo inusitado. Chega outro engraxate, como o outro, com o cabelo pixaim oxigenado, e faz a mesma pergunta. - Senta aí, e tira uma foto -, diz Alex, o primeiro engraxate que fora fotografado enquanto escrevia seu nome, o de sua mãe e irmã. Ninho, o outro engraxate não consegue passar das letras nin, não sabe como terminar seu próprio nome, apelido. Alex zomba: - Aí, não sabe escrever seu nome, eu sei. O escritor toma o lugar de Ninho e mostra como é, aproxima os dois e pede para alguém clicar foto dos três.

Enquanto passa pela rua um four whell drive modificado, com quatro enormes rodas, repleto de logomarcas, merchandizing, altíssimo, tão alto que passa da altura de um ônibus. Toca música funk, divulga e-music (deus do céu, o que é isso, diria o Pixinguinha), ensurdecedora, retumba sob os nossos pés na calçada, vibra o peito da gente, impossível conversar.

Passa uma senhora, olha para o grupo sob o guarda-sol do escritor e diz a esmo: - É duro pagar caro para morar no Leblon e ter que aturar isso – pernóstica, é claro, tem razão, infelizmente. O escritor aproveita a confusão e atravessa a rua. Pede ao garçon do bar da esquina, bar não, delicatessen com mesinhas à calçada, pede um chopinho servido no guarda-sol. – Não servimos chope – responde o garçon – só long neck – num sotaque genuino de nordestino, cabelo cortado com estilo, brinquinho, tatuagem no braço, Havaí, é aqui, tudo que sonhamos, conforme diz a música. No bairro talvez mais nobre da pobreza brasileira.


21/11/2006
E o CRÔNICO foi lançado.

"...Daqui para frente ele deve levar a sua vida pelas próprias pernas. Vai, e comporte-se, hem. Não seja muito seletivo, mas não abuse da convivência com as más companhias. Aprenda tanto com os mais comportados e circunspectos, quanto com os aparentemente malandros. Cuide-se, e não dê bola para as críticas, de cada uma mesmo que pareça injusta é possível aprender algo. Seja simpático com os leitores, fique em suas mãos até o fim. Apareça, lembre que você existe, não seja acanhado. E, se algum dia por acaso você for viver num balaio empoeirado, mantenha o sorriso, e confie, mais cedo ou mais tarde um leitor muito especial, quem sabe farejador de sebos, lhe trará de volta para um leitura faceira. Acredite, esta leitura será feita como fizeram os seus amigos que foram ao seu lançamento, por puro prazer. Neste caso, não esqueça de agradecer."

Leia o texto completo de agradecimento de Peazê, clique aqui


15/11/2006 Dia da Proclamação da República
O jeitinho brasileiro: um caso crônico?

Luís Peazê

Crônico ou não, o fato é que há até uma tabela de preços para o jeitinho brasileiro. Espera aí, vamos tratá-lo da forma correta, Jeitinho com letra maiúscula, Brasileiro da Silva. Sim, porque é um dos personagens que fazem parte do cotidiano de nós brasileiros e abrasileirados. É, pois os estrangeiros que se instalam aqui, de camisa aberta no peito, barba mal feita, alimentam nosso jeitinho de uma tal maneira que nós mesmos ficamos impressionados. Eles acham que pra ser brasileiro tem que ser meio desarrumado, veja só.

José, João, Jeitinho e outros nomes bem nacionais há em todas as camadas sociais. De norte a sul, leste a oeste. Há o Zé Vice-presidente da República e há o Zé sapateiro aqui da esquina. Há o Joca, do time de peteca, em Icaraí, Niterói, RJ e certamente há um Joca famoso e importante por aí. E há o Jeitinho no mais recôndito e paupérrimo canto do Brasil assim como há o Jeitinho abonado até do próprio Presidente Lula, ou alguém duvida que haja um Jeitinho no Palácio do Planalto?

O negócio é o seguinte: parece que tudo vai dar errado e na última hora o Jeitinho surge de repente e resolve. Modesto, ele faz o que tem que fazer e sai de cena, deixa sempre um salvador da pátria, um milagroso, que leva todos os créditos. Não é assim?

E os “jeitinhos” que vivem por aí, podem agir tanto para o bem quanto para o mal. Ah, isso é verdade.

É claro, sendo um país continental, de população com traços regionais tão marcantes e diferenciados, há o Jeitinho Brasileiro Gaúcho da Silva, ou o Jeitinho Brasileiro Sul e Silva; há o Jeitinho Paulista da Silva e o Jeitinho Paulistano e Silva Só; o famoso, ah, esse é famoso no mundo inteiro, Jeitinho Carioca (sem o Brasileiro e sem o da Silva); o Jeitinho Mineiro Brasil da Silva; o Jeitinho Baiano (há um projeto no Senado para tornar facultativo o uso do “da Silva” no jeitinho nascido na Bahia, não precisa mesmo, cá entre nós); o Jeitinho Nordestino Ceará da Silva (Silva do Piauí, Silva da Paraíba, Silva do Recife, são tantos no nordeste); o Jeitinho do Norte do Brasil; são centenas de milhões de jeitinhos brasileiros, e cada um age de acordo com o seu traço regional, e até de família.

Agora, quem estuda um Jeitinho urbano brasileiro, numa determinada cidade como o Rio, por exemplo, notará que há jeitinhos locais também, que agem de acordo com o bairro. Para não ir muito longe, se um jeitinho carioca agir numa rua da Tijuca, ali perto de um dos vários botequins enfeitados permanentemente para Copa do Mundo, será uma coisa. Se o jeitinho for do Centro, aí a história é outra.

Essa descoberta surgiu com uma constatação: a de que os jeitinhos dos bairros, e de fora do eixo Rio - São Paulo, são mais afáveis, amáveis até, do que os jeitinhos, como disse um amigo outro dia, que atuam no meio da “tigrada”. Na loucura da cidade grande, onde se mata um leão por dia, onde o bicho pega de sol a sol.

Isso é tão verdade que, quanto mais tranquilo for o lugar brasileiro, mais o jeitinho atuará a ponto de se poder afirmar que, nesses lugares não se resolve nada se não for através do jeitinho. Só que é um jeitinho devagar e tal, não comete nenhum pecado capital. Quanto mais a gente se aproxima do Centrão, o jeitinho vai adquirindo nuances de birrolho grinza (esta gíria foi cunhada na década de 1970, ainda vale embora poucos a conheçam), olha, sai de baixo. Aliás, conheça abaixo a tabela para serviços especias feitos pelo Jeitinho. Por falar nisso, há quem queira acabar com ele. Se passarem a cobrar vão acabar mesmo...

Numa loja de impressão de camisetas promocionais do Saara, no Rio de Janeiro, foi vista a seguinte Tabela de Preços para Serviços do Jeitinho.

Serviço e Valor:
Besteirinha R$10,00
Quebra-galho R$20,00
É só uma coisinha R$15,00
Muda só isso R$20,00
Pra ver como é que fica R$15,00
Favor R$10,00
Favorzinho de amigo R$15,00
É coisa rápida R$30,00
Meu amigo R$50,00
Não leva 5 minutos R$100,00
Testadinha R$5,00
É só um negocinho R$40,00
Dá um jeitinho R$35,50
Eu pego amanhã R$ sob consulta.


08/11/2006
Ziraldo não enforcaria Saddam Hussein

Luís Peazê

O jornalista é dos profissionais o mais sortudo. Material para trabalhar nunca lhe falta. Quando falta ele enche com lingüiça, se esmera no estilo, capricha na forma e aproveita pra ficar afável. Depois das eleições, subseqüentes aos "dossiês" e "mensalões", entraram em cena a pena de morte de Saddam Hussein e o julgamento de bandidos terríveis brasileiros; o primeiro acaba de ser condenado ao enforcamento, os outros a prisões por mais de trezentos anos. E esse é o prato dos jornais, impressos, radiofônicos, televisivos e digitais, neste pré-Natal de 2006. Tirando a derrota de Bush para os democratas, nada mais tomaria lugar das grandes manchetes? Só se Ziraldo, de repente, viesse a público dizer que não enforcaria Saddam Hussein.

Pois, com o seu humor característico, Ziraldo disse na É(é)poca : “me deixaram aparecer, agora aguentem”.

Ziraldo inaugurava a Livraria Bolívar, em Copacabana, que por sua vez lhe presenteava com um bolo de aniversário, no dia 24 de outubro último, me pegou pelo braço e disse: - Peazê, você tem que ler este livro. Se tratava do “Aspite – há um jeito pra tudo”, de sua autoria. De cara não gostei da capa, mas minha opinião de capa não vale e já havia ouvido falar do livro, assim, sendo do Ziraldo, fiquei curioso. Só não comprei porque esgotei minha cota do dia, ao comprar o Menino Maluquinho, que provocou um sorriso e meio espanto do próprio Ziraldo, quando lhe respondi para quem era o autógrafo. – É pra mim mesmo, ora!

No dia seguinte, passei na Saraiva e li a introdução do Aspite e o primeiro capítulo. Na semana seguinte, voltei à Livraria Bolívar, sentei numa cadeirinha na seção infantil e li o resto do Aspite. Esta é uma forma de protesto que estou deflagrando: compro um livro em vez de dois, e leio os não comprados de graça, até que a TARIFA LIVRO (estabelecida por lei) seja implementada e possamos enviar livros mais baratos pelos Correios.

Mas, voltando ao enforcamento de Saddam Hussein, pelo otimismo e originalidade dos palpites de Ziraldo em seu livro (mesmo que ele plageie sua mãe, Dona Zizinha, em pelo menos metade dos palpites – delito perdoado), tenho certeza que o ex-editor da Bundas que foi um sucesso e fracasso de vendas (ambivalência que só o Ziraldo consegue, como o caso de ser adulto na infância e continuar sendo menino da vida adulta), já vou terminar este parágrafo, este período, esta frase, tenho certeza que Ziraldo, repetição proposital e daí?, defenderia que Saddam Hussein não deveria ser condenado à morte por qualquer método. Ou pelo menos sua morte deveria ser por um meio criativo, original. Talvez ele palpitasse algo assim:

Saddam Hussein deveria ser exibido até a sua morte natural em uma vitrine, como as prostitutas de Amsterdã, com crônicas diárias penduradas em seu peito, escritas pelo público, em repúdio aos crimes que cometeu. Seria um monumento vivo contra o crime hediondo, uma forma concreta e pura de protesto. Aliás, estendido a todos os criminosos hediondos, presos para sempre numa vitrine. Talvez até surgisse alguns seguidores de Ziraldo, palpitando, por exemplo, que as vitrines percorressem o mundo, numa exibição planetária contra o mal, a favor do bem. Uma punição pró-ativa, sem dor visível, só interior, intelectual, sentimental. Uma vitrine à prova de bala, obviamente.É claro, sem prejuízo das idéias já defendidas por outros “ziraldos” de que os presos deveriam cumprir pena em fazendas e fábricas, trabalhando duro.

Não sei se Ziraldo aprova esse palpite que dou sobre que palpite ele daria no enforcamento de Saddam Hussein, mas recomendo o Aspite. É otimismo e leveza de cabo a rabo. É a vivência adulta da infância do Ziraldo, daí o Menino Maluquinho, a opinião é minha. Contém desde palpites de como fazer pó de feijão para caldinho instantâneo caseiro, à soluções para arrumar o Brasil. Bom para o coração, integralmente sem efeitos colaterais, palavra da Clínica Literária www.clinicaliteraria.com.br .


XI.jpg (40505 bytes)05/11/2006
Xi, chega ao Brasil o homem mais alto do mundo!
Luís Peazê

Como deve ser para uma pessoa muito alta fazer isso e aquilo? Inúmeras perguntas passam pela cabeça da gente, quando nos deparamos com uma notícia dessas: o homem mais alto do mundo visita o Brasil para autografar o livro de recordes Guinnes. Ele é chinês e seu nome completo é Xi Shun.

Como seria o namoro (tudo o que um namoro do século XXI envolve) de Xi com uma moça baixinha? Ela nem precisaria ser anã, para realçar as diferenças. Digamos, uma moça de 1,60 m de altura. Pelos cálculos aqui com meus botões, se ele tiver, como dizem, 2,36 m, ela bateria abaixo da sua cintura. Se ele se abaixasse para beijá-la, teria que afastar-se, e, assim, encurvado à distância aproximada de um metro. Isto é, o clássico beijo e abraço não seria possível, só o beijo, ou só o abraço. Neste caso ele teria que levantar a moça nos braços. Xi, não é bom nem pensar, deve ser complicado o negócio. Ou apenas diferente?

Tenho a impressão de que Xi se sente o tempo todo, no mundo dos com altura média, como quem viaja numa Van de lotação. Outro dia eu peguei uma Van em Icaraí, e tive que desistir da viagem à Copacabana antes de chegar na Ponte Rio – Niterói. Estava lotada, 16 pessoas mais o motorista. A capacidade máxima é de 15, mas essas Vans adicionam um banquinho de plástico (pro beleleu toda a engenharia das montadoras de automóveis quando calculam a arquitetura e segurança dos assentos). O ar condicionado estava pifado, foi dando uma agonia, fui ficando nervoso e gritei para o motorista:

-    Ô amigo, por favor, pare aí mesmo, vou descer, não estou agüentando!

Sai, em pleno surto de claustrofobia, mas sentindo um alívio, e ficaram os demais me olhando através do vidro fumê, como se eu fosse um alienígena. Pô, só por causa do meu sotaque? Foram-se, amontoados naquela Van tresloucada, a 100 por hora, acima da velocidade do tráfego, fazendo ziguezague, um horror, um perigo, um hospício ambulante. Depois dessa experiência, penso duas vezes antes de pegar uma Van. Mas e o Xi, como deve fazer para andar por aí, “de Van” o tempo todo?

Sem falar que por onde ele passa, todos devem olhar para ele. Com espanto e com curiosidade. E não é por que ele é um artista carismático, um esportista, ou um político envolvido num caso de corrupção exposto na TV, notoriedade momentânea. É porque ele é grande, grande além do normal, totalmente fora do padrão. Só o Xi sabe como deve ser isso, e deve ser o que ele mais responde por aí.

Mas eu tenho uma curiosidade extra bizarro: soube que ele é pastor, numa aldeia do interior da China. Fico imaginando como devem ficar intrigadas as pessoas ao ouvirem seus sermões. Deve ser como estar ouvindo um personagem de histórias infantis, de Token; deve ser como fazer parte de um conto, não deve? Pois, não bastasse, Xi tem aquelas feições características de chinês simpático, uma feição de sorriso meigo permanente, coom os olhinhos e lábios puxados. Grande e meigo, de olhinhos e lábios puxados. E se veste com uma túnica de seda arrastando no chão. Definitivamente, Xi não é deste mundo, Xi é especial.


02/11/2006
Crônico de Notícias
Luís Peazê

Rio de Janeiro – Um homem mordeu um cachorro entre os bairros do Catete e do Flamengo. Por volta das 04:00 horas da madrugada desta sexta-feira, um cachorro com a língua de fora ia dobrando calmamente a esquina da Rua do Catete com a Dois de Dezembro e recebeu uma mordida, sem mais nem menos, de um homem de aproximadamente 40 anos, atarracado, cor parda, vestindo camiseta do Tricolor, calças jeans e chinelo de dedo.

Segundo as poucas testemunhas, pelo adiantado horário, o homem mordeu o cachorro e fugiu em disparada deixando o pobre bicho uivando e rolando de dor na calçada.

A polícia já elaborou um retrato falado do agressor e anda espalhando o mesmo pelos postes da cidade, oferecendo a recompensa de R$500,00 para quem fornecer alguma pista. O cachorro foi levado para o Hospital Pronto Socorro da Misericórdia e, após cuidados médicos, não corre perigo de vida. Deve receber alta a qualquer momento. Nenhum parente da vítima apareceu, o que leva a polícia a crer que esse cachorro é um vira-lata.

Este é o quinto caso de homem mordendo cachorro ocorrido somente no mês de outubro, mas as autoridades não trabalham com a possibilidade de um crime em série. Nos últimos meses surgiram muitas pessoas matando cachorro a grito, chutando cavalo morto, e querendo comprar galinha morta. Isso sempre acontece em agosto, mas, com a chegada do El Niño, acredita-se que a onda de animais sendo vitimados atrasou este ano. A previsão das autoridades no assunto é de que pessoas podem começar a largar um pombo seguro na mão e correr para pegar dois voando. Com as proximidades do Natal, isto seria uma calamidade. O Ministério dos Animais Racionais está estudando a possibilidade de desenvolver uma vacina contra esse tipo de doença, a exemplo do que foi feito no tempo da ditadura, quando a epidemia de se amarrar cachorro com linguiça devastou o país.

Essas eram as notícias que o Jornal da Hora tinha para hoje. Desde que todos os traficantes foram presos, os políticos nunca mais cometeram deslizes de corrupção de natureza alguma, desde que o peso e o preço do pãozinho nunca mais foram negligenciados pelos padeiros e as companhias aéreas passaram a buscar os passageiros em suas casas, de graça, lamentamos informar que não temos muito a informar. O país está equilibrado economicamente, todo o sistema está funcionando uma maravilha, o presidente sabe de tudo o que se passa no Brasil, não há o que reclamar, digo, noticiar.

Contudo, honrando os nossos princípios editorias, o JH mantém para o seu leitor fiel todas as 86 páginas numeradas, com o cabeçalho e o resto em branco. Desta forma, as utilidades de abanar moscas e embrulhar peixe, para as quais nosso jornal se oferece desde 1995 (com o advento da Internet), continuam as mesmas, firmes e fortes. Por falar nisso, enquanto este editorial era escrito, uma mosca foi abanada com o JH de ontem. Ela não sofreu nenhum ferimento e voou alegremente janela afora.

(slogan do JH) Jornal da Hora, não precisa de bateria, nem de conexão!


01/11/2006
Crônico de Sexo

Mara e Luiz
Luís Peazê

Ela ria de tudo. Ria ao dar bom dia para o vizinho. Ria para o trocador de ônibus. Ria para o guarda de trânsito. No trabalho, atendia o telefone rindo. Levava uma bronca do patrão e ria. Mara ria de tudo.

Ria de nervosa. Nunca se viu pessoa mais nervosa do que a Mara. Era tímida e disfarçava a timidez rindo. Ria à toa.

Mara era, como os homens dizem com gana animal na roda de chope, "gostosa pra cacete!". Pernas fornidas, glúteos bem arredondados, e firmes. Cintura fina. Vivia cheirosa e sempre usava vestido, nunca a viram de calça jeans. Não era baixinha nem alta. Caminhava com o rosto escondido pelos cabelos cortados a channel. Tinha dias que era uma tentação.

Mas havia uma coisa meio estranha na Mara: ela tinha um tique, fazia um biquinho e franzia o senho de um modo que seu rosto adquiria um ar de pateta. Nestes momentos, perdia toda a graça, era, como dizer, sexualmente desanimador.

Um dia o Luiz inventou de dar em cima da Mara para depois contar na roda: - Comi a Mara e descobri porque ela ri tanto e faz aquela cara de pateta.

E não que é ele comeu mesmo. Só que o Luiz apareceu com o mesmo comportamento da Mara. Começou a rir de tudo. Um riso meio encabulado também, como o da Mara. Perguntava-se ao Luiz o que aconteceu, como era a Mara afinal de contas, e nada. Ele disfarçava, ria, e ficava nisso mesmo.  

Para piorar a curiosidade do grupo, a Mara vinha encontrar o Luiz e ficava no outro lado da rua. Dava pra ver a silhoueta de seu corpo através do vestido. Ô mulher gostosa! Mas aí o Luiz levantava as orelhas, como um cachorro, olhava para a Mara, do outro lado da rua, fazia aquela cara de pateta, ela devolvia a mesma cara de pateta para ele, se encontravam e sumiam dobrando a esquina. O grupo brochava na hora. O grupo ficava desolado. Ficava, como dizer, curiosamente apatetado. Perdia a graça.

Jamais descobriram o que a Mara e o Luiz tinham que riam daquele jeito e faziam aquela cara de pateta.


Sobre o autor: Verbete na Enciclopédia Brasileira de Literatura: Peazê, Luís, cronista, romancista, tradutor e jornalista (MTB 24338). Escreve crônicas diariamente desde 1998. Foi analista de sistemas, empresário no Brasil, Estados Unidos e Austrália, e publicitário premiado com medalhas de ouro, prata e bronze pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. Membro da Hemingway Society – USA, tradutor do romance “Por Quem os Sinos Dobram” de Ernest Hemingway (Bertrand, 2004). Um dos títulos do autor: Alvídia – Um Horizonte a Mais, narrativa da aventura de “largar tudo”, construir um veleiro com as próprias mãos e velejar com sua mulher, Helga, ambos sem experiência prévia, num dos mares mais perigosos do mundo, nas costas sul, leste e norte da Austrália. Mais bibliografia em www.luispeaze.com/home.htm

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