Kaci Cronthike: A Mulher do Vento
Diretora do mais tradicional festival de barcos de
madeira do mundo
Entrevista exclusiva concedida à Clínica Literária de Luís Peazê
Postado em 31 de março de 2009 - 10:00:00 BRT A frase "as mulheres
estão tomando o lugar dos homens é batida" e, a meu ver, sem sentido, pois não
gosto deste debate sobre o poder, ou a hegemonia, de um gênero ou sexo sobre o outro,
masculino, feminino, etc. Mas uma coisa eu posso afimar: há atividades que as mulheres
participam e a deixam muito mais..., como dizer, diferente, mais colorida, numa atmosfera
no mínimo mais ebuliente, parecida com festa. E está aí um meio em que é raro se
ver uma mulher dando as cartas, o meio náutico, e, mais ainda, o meio tradicional que por
equívoco infere rusticidade, o ambiente dos barcos de madeira. A seguir uma rápida mas
estimulante entrevista com a Mulher do Vento, cridora da International
Women's Sailing Network, diretora da Wooden Boat Foundation e do Maritime
Northwest Center, em Port Townsend, USA, onde ocorre anualmente o Wooden
Boat Festival, o mais tradicional festival de barcos de madeira do mundo:
Clínica Literária: Kaci, sabemos que você tem um livro em andamento. Conte para nós, e,
afinal de contas, por que lhe chamam a mulher do vento?
Kaci Cronthike: Tenho três livros em
andamento: o primeiro Quando uma Mulher vai para o Mar, sobre a minha vida desde Oklahoma,
num rancho de gado, até a volta ao mundo velejando; o segundo, Lições do um Mar
Abissal; e o terceiro, Encontrando PAX, o nome de meu barco (1936) da classe dinamarquesa
Spidsgatter. [sobre o apelido a mulher do vento] A primeira vez que velejei eu
tinha 31 anos de idade. O vento lembrou-me muito da minha infância nas planícies de
Oklahoma. Foi o vento: isto revolveu alguma coisa dentro de mim e levou-me a velejar numa
volta ao mundo quando eu já tinha 40 anos de idade. Costumo dizer que sou
autodiagnosticada (risos).
CL: Então, vindo de
uma vida rural você velejou pelo mundo e adquiriu água de sal nas veias, apaixonou-se
pelos barcos de madeira e aqui você está: fale-nos sobre a sua atividade na Wooden Boat
Foundation.
KC: Em setembro de 2001 eu viajei para Port
Townsend para o meu primeiro Wooden Boat Festival. Quando eu voltava para o Canadá, sem
saber se eu ficaria nos EUA ou voltaria a velejar, aconteceu o 11 de setembro.
Obviamente viajar para o Canadá naquele dia não era permitido, e muitas coisas mudaram.
Fiz muitas amizades neste lugar que compartilham com meus valores e paixões pelo oceano e
o mundo. Havia um pequeno trabalho na WBF e oitos anos mais tarde eu continuo aqui!
CL: O 33º Wooden Boat
Festival continua tendo a atmosfera original dos hippies do mar o ?
KC: Os hippies da água salgada, como eles
são chamados, foram pessoas que procuravam um estilo de vida que dependia uns dos outros,
não de dinheiro, ou de poder ou prestígio. Eles vislumbraram nos barcos o veículo
perfeito e encontraram Point Hudson a avenida perfeita, a qual continua sendo até hoje.
Muitas daquelas pessoas continuam aqui em Port Townsend, continuam envolvidas e
contribuindo para criar este evento maravilhoso. O festival hoje inclui atividades para
crianças e famílias, pessoas com interesses em todos os níveis, de todos os talentos e
sim, alguns hippies continuam por aqui.
CL: Qual é a maior
dificuldade de manter a Wooden Boat Foundation e o Wooden Boat Festival ano após ano?
KC: Eu conto com uma comunidade incrível de
voluntários que tornam meu trabalho ricamente compensador. A maior dificuldade é
substituir uma dessas incríveis pessoas quando a vida, a idade, o trabalho e as mudanças
algumas vezes as levam embora. Este é o meu oitavo festival, nosso 33 evento anual.
Ninguém mais tem feito este trabalho mais de quatro vezes consecutivamente. Eu acho que a
chave são os voluntários e todas as pessoas que generosamente ajudam quando eu solicito.
CL: Agora, o que você diria para encorajar mais
mulheres a engajarem-se no ambiente dos barcos de madeira, o que elas encontrariam aqui
entre nós que não podem encontrar, ou talvez detestem, em outras comunidades náuticas?
KC: Barcos de madeira oferecem uma conexão
mais próxima da natureza. Madeira por toda a parte. A madeira oferece opções
favoráveis para aprendizagem. Todo o barco precisa de reparo e eu ouvi de Warram, o
famoso designer de catamarãs, que as mulheres são muito superiores aos homens
quando constroem com epoxy e compensado, elas seguem as instruções, são mais
organizadas e cuidadosas quantos aos detalhes e isso tudo faz com que os barcos durem
mais. Mas eu adoro encontrar os homens na Wooden Boat Foundation todos os dias e
ouvir histórias sobre barcos de madeira. Eles têm paixão, são românticos, sensíveis
e sem medo de compartilhar seus sentimentos. Isto é bonito. Eu também gosto de trabalhar
com madeira porque ela torna as nossas mãos fortes e macias ao mesmo tempo. Mais ainda:
as mulheres entendem o valor da história e das qualidades inatas da madeira, sua
linguagem universal, sua conexão com a natureza, tudo isso são as grandes razões para
as mulheres se envolverem com barcos de madeira em detrimento dos de fibra ou metal.
CL: O que é mais
gratificante para você, para seus colegas..., para todos nós, na sua opinião, falando
de barcos de madeira?
KC: Para mim, o mais gratificante é ver a nossa zona
portuária (Port Townsend) de lazer tornar-se o negócio de maior sucesso na cidade. Eu
adoro ver barcos de todos os tipos virem aqui por causa dos talentos e estaleiros
disponíveis e o fácil acesso a pé ou de bicicleta de uma ponta a outra da cidade. Eu
adoro presenciar a conexão das pessoas com seus barcos, o passado encontrando o presente,
os barcos passando de geração em geração construindo uma família de pessoas muitas
vezes sem laços sanguineos.
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Saiba mais sobre Kaci Cronthike no seu web site: www.womanofthewind.com/
Wooden Boat Foundation, onde será exibido o
Dinghy Peazê, o primeiro barco brasileiro da história do tradicional Wooden
Boat Festival, nos dias 11, 12 e 13 de setembro de 2009, é conhecida como a Cidade
dos Sonhos.
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Entrevista comentada por:
Maria Manuela Juliano
da Ilha dos Açores:
Licenciada em Ciências Geofísicas, especialista em Oceanografia
Física, Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa; professora,
investigadora do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores,
desenvolve trabalho no Laboratório de Ambiente Marinho e Tecnologia e descobridora da
Corrente Santa Helena, a alma gêmea no Atlântico Sul da Corrente dos Açores:

"Ao ler a entrevista percebe-se o
porquê da "Mulher do Vento". Kaci transmite força, coragem, alegria de viver e
um entusiasmo contagiante e apaixonante. Esta "força da natureza", como tenho
vontade de lhe chamar, enaltece a natureza feminina com graciosidade e grandiosidade. Como
mulher não posso deixar de me render ao seu encanto. Um dia em conversa com um amigo meu
enquanto se cozinhava o jantar, discutíamos o papel masculino e feminino na cozinha. Ele
disse "...os grandes cozinheiros são homens" ao que eu respondi "...e as
grandes mulheres não são cozinheiras.." e isto claro sem desprimorar o papel das
grandes mulheres que são as cozinheiras. Mas para dar razão a Kaci, essa grande mulher
que transmite uma intrusão muito grande com o seu mundo. Adorei a entrevista, Luis, e vou
pedir ao vento que traga mais mulheres assim.
PS: Fico à espera dos livros de Kaci, por favor, me avise quando sairem."
O Centro de Clima, Meteorologia e Mudanças
Globais da Universidade dos Açores disponibiliza desde a semana passada, pela Internet,
previsões para três dias para a temperatura, salinidade e correntes à superfície e
profundidade nos mares dos Açores.
Manuela Juliano, investigadora daquele Centro, disse à Agência Lusa (FONTE
DESTA INFORMAÇÃO) que as previsões abrangem, numa primeira fase,
todos os mares interiores e exteriores do arquipélago até às 200 milhas
marítimas. A informação disponibilizada serve os pescadores profissionais, de recreio,
a segurança marítima e os iates de recreio regionais que se deslocam entre as ilhas e os
nacionais e internacionais que cruzam o oceano, explicou a investigadora.
A consulta dos dados é feita através do sítio da Internet www.climaat.angra.uac.pt que tem
atualizações diárias.
Manuela tem uma filha e é casada com João Rodeia, um entusiasta de barcos tradicionais
de madeira, atualmente "às voltas" com um projeto de réplica das famosas
baleeiras açoreanas.
(foto cedida por João Rodeia).

Último barco açoreano de caça à baleia, contruído em 1952 por José Machado Oliveira,
de uma das mais famosas famílias de construtores navais das Ribeiras, Ilha do Pico. |