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De boas intenções o inferno está cheio
By Luís Peazê

Imitar Deus, ou substituí-lo por algo melhor parece ser a tendência de alguns homens que se julgam inteligentes, quando o assunto é evoluir, ou resolver problemas – seus ou do mundo – sempre em benefício próprio. Neste sentido, Davos está para Porto Alegre, assim como o inferno de Dante está para o Paraíso em sua Comédia, ou vice-versa, dependendo do ângulo de visão.

No purgatório estamos nós, os leitores da Terra, embora para os mais pessimistas o inferno seja aqui e agora.

Dante havia perdido um amor, imaginou um passeio virtual pela vida para explicar a si próprio afinal o que é o mundo. Mas pelo menos ele foi humilde e aceitou a mão de Virgílio para lhe conduzir pelos domínios do Diabo, através do purgatório e até a entrada do Céu, deixando claro que Virgílio fora enviado por Beatriz, a sua amada morta, tentando fazer-nos crer que o amor é o motor de tudo. Perdão por esta rima minha, tão pobre diante da obra de Dante que é monumental – um enorme poema de 100 capítulos de milhares de versos, todos em tercetos rigorosamente metrificados – perfeita, Divina.

Associo esta engenharia literária ao agrupamento dos líderes do mundo em torno do destino do restante dos povos deste planeta, pois é assim que eles se definem, segundo os primeiros parágrafos dos princípios do Fórum Econômico Mundial. A diferença é que Dante escrevia com dor de cotovelo e paixão frustrada, exilado sob a acusação de corrupto e crime de improbidade na administação pública. Já, Klaus Schwab, fundador do FEM, e seus parceiros de rodadas anuais atravessam mais de trinta anos de bate-papo animado definindo os destinos da gente, acumulando a função do próprio Minós na entrada do Inferno. Teoricamente, no pensamento daqueles homens, ou adotamos tudo o que é ensinado em Harvard como padrão para um mundo melhor, sem problemas, ou somos condenados a um dos vários círculos cada vez mais profundos nas entranhas do fogo e sofrimento. 

Não estamos mais bi-polarizados entre esquerda e direita, comunismo e capitalismo, nem divididos entre o poder papal e do Império Romano, como no tempo de Dante. Mas o que me foge a compreensão, ou aceitação, é o fato destes homens inteligentes complicarem tanto para resolver um simples problema de fome de comida mesmo e de saber. Ora, era só dar a César o que é de César.

Klaus assim como Kofi Annan, Secretário Geral da ONU, autor do chute inicial da Globalização (Global Compact), e presumivelmente todos os demais líderes (chefes de estado e donos de conglomerados) passaram bem perto ou sairam dos bancos de Harvard. Após trinta anos de esforço duro no Fórum Econômico Mundial ainda não resolveram os problemas do mundo, mas não desistem. Protegidos por um esquema de segurança que custou 13 milhões de dólares e que inclui a utilização de caças F-18 para proteger o espaço aéreo, os líderes da política e economia discutirão até 28 de janeiro de 2003, tudo o relativo à humanidade, e também à divindade: são vários os líderes religiosos convidados. Vale lembrar que na reunião de 1994, Yasser Arafat conseguiu alcançar um acordo sobre a faixa de Gaza e Jerincho, pavimentando a estrada para a paz no Oriente Médio. Continua pavimentando. Como trabalha este homem.

Sob o tema deste ano, “Restabelecer a Confiança”, uma olhada no programa do Fórum Econômico Mundial pode provocar náusea. Alguns títulos: "O que é confiança?; "Para entender a psicologia do terror"; "Em busca do melhor grau de regulagem financeira"; "As relações transatlânticas: um longo caminho para percorrer"; "A volatilidade dos preços do petróleo" e "Filantropia: estratégia para tempos agitados".

Enquanto isso, em Porto Alegre, um alto membro do conselho internacional do Fórum Social Mundial afirma: – Estamos em limites muito sérios e agora teremos uma explosão – concluindo que o gigantismo da reunião e o crescimento "incontido" do movimento se converteu num obstáculo para a discussão. Nos próximos cinco dias, em Porto Alegre, haverá 1.714 seminários e uma quantidade ainda não definida de outros eventos que somarão a milhares. Ou seja, a tendência à Harvard, ou ao posto de Deus, isto é, a crença de que o poder aglutinado, ou supremo, é mais eficaz. Quem estiver perto do topo que se agarre onde puder, garanta a promoção pessoal ou remuneração direta mesmo. Para quem despencar, bem-vindo à realidade.

Neste cenário, Lula da Silva, sem diploma, parece o Lancelote querendo roubar a mulher do Rei Arthur. Se vai conseguir ninguém sabe, mas o namoro já começou. Que seja um amor verdadeiro e não apenas o pecado da luxúria. A propósito, considerado o menos grave por Dante, e portanto numa esfera mais asfastada de punição, como a hipocrisia e outros pequenos delitos que nem o Dante mencionou. Para estes pecadores Minós dá um banquinho com algumas brasas semi-apagadas e ainda afaga a dor.  Pois o que vale são as boas intenções, que aliás o inferno está cheio.

Mas não sejamos tão céticos, continuemos rezando, e lendo.

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