| Se
há alguém que ainda não acredita que há uma indústria de diagnósticos em franco
crescimento de poder em nossa sociedade, e, se há alguém que ainda pensa que isso não
produz efeitos colaterais maléficos a nossa vida eis a prova:
Fabricantes
Americanos de Aparelhos de Diagnósticos Lançam Associação no Japão
Hoje, 14/04/2009, 62 empresas de tecnologia avançada em aparelhos médicos de
diagnósticos anunciaram o lançamento da Associação de Aparelhos Médicos e
Diagnósticos (AMDD) no Japão de acordo com o press release distribuído pela nova
entidade.
Informa o press release dos fabricantes de aparelhos de diagnósticos: A AMDD foi
estabelecida em 01/04/2009 como uma organização independente para imprimir velocidade e
eficiência na advocacia de interesses de empresas anteriormente representadas pelo Sub
Comitê de Aparelhos Médicos e Diagnósticos da Câmara Americana do Comércio no Japão
(ACCJ). As atividades de advocacia incluem recomendações pontuais de políticas
relacionadas a assuntos regulatórios, pagamento de reembolso de seguro nacional de saúde
e reforma do sistema de saúde no Japão no sentido de prover padrões globais de
tecnologia médica avançada aos pacientes japoneses.
O Dr. Huimin Wang, presidente da AMDD e Vice-Presidente corporativo japonês e
intercontinental da Edwards Lifescienses (líder mundial na ciência de válvulas
cardiovasculares e monitoramento de hemodinâmica, o estudo dos movimentos e pressões da
circulação sanguínea) declarou: A AMDD conduzirá atividades para estabelecer um
ambiente onde o valor da tecnologia médica avançada seja apreciado integralmente
buscando melhorar a qualidade de vida do paciente, salvando vidas e reduzindo as despesas
médicas .
O Sr. David W. Powell, Vice-Presidente da AMDD e Presidente da Johnson & Johnson K.K.
declarou: A AMDD trabalhará com associações japonesas e européias quando
recomendações forem submetidas a governos sobre demora na aprovação de preços de
produtos novos e tecnologias médicas avançadas, conhecidas como device lag
(lapso de aparelhos).
O grupo informa ainda que atuará colaborativamente com a comunidade acadêmica e
organizações da indústria.
Além da Edwards Lifesciences e da Johnson & Johnson, entre os 62 membos da AMDD
estão a Abbott, Boston Scientific, Cardinal Health, Medtronic, Smith & Nephew e
Zimmer.
O
que nos faz ficar doentes
É a epidemia de diagnósticos
Por H. GILBERT WELCH, LISA SCHWARTZ and STEVEN WOLOSHIN -
Universidade da Califórnia, Berkeley - Tradução de Luís Peazê
Para a maioria dos americanos, a maior ameaça a sua saúde NÃO é a gripe aviária, o
virus West Nilo nem o mal da vaca louca. É o nosso próprio sistema de saúde.
Você pode pensar que a razão disso é porque os médicos cometem erros (nós cometemos
erros). Mas você não pode ser vítima de um erro médico, se você não faz parte do
sistema. Pois, a maior ameaça que a medicina americana nos impõe é nos internalizar
cada vez mais no seu sistema, não pela epidemia de doenças, mas pela epidemia de
diagnósticos.
Nós americanos estamos mais longevos do que nunca, no entanto estamos cada vez mais sendo
diagnosticados como doentes. Como isso pode acontecer?
Uma das razões é que destinamos (nós americanos) mais recursos para o sistema de saúde
do que qualquer outro país. Alguns dos investimentos são produtivos, curam doenças e
aliviam o sofrimento, mas também produzem mais diagnósticos, uma tendência que tem se
tornado uma epidemia.
Esta epidemia é uma ameaça a sua saúde. E possui duas fontes distintas:
Uma fonte é a "medicalização" da vida diária. A maioria de nós experimenta
sensações físicas ou emocionais desagradáveis e, no passado, essas sensações eram
consideradas parte de nossas vidas. Entretanto, cada vez mais essas sensações vêm sendo
consideradas sintomas de doenças. Experiências cotidianas como a insônia, tristeza,
dormência nas pernas e falta de desejo sexual hoje são diagnosticadas assim: distúrbio
do sono; depressão; síndrome das pernas irrequietas e disfunção sexual.
E é possível que a maior preocupação seja a medicalização da infância. Se as
crianças tossem após se exercitarem, elas têm asma; se elas apresentam dificuldade par
ler, são disléxicas; se elas são infelizes, é porque estão em depressão; se alternam
entre infelizes e eufóricas, têm distúrbio de bipolaridade.
Se, por um lado esses diagnósticos podem beneficiar algumas pessoas com severos sintomas,
por outro deve-se questionar sobre o efeito nas muitas pessoas em que esses sintomas são
apenas brandos, intermitentes ou transitórios.
Como é possível todos estarmos
predispostos a doenças ou em grupo de riscos?
A outra fonte é o esforço em descobrir doenças antecipadamente. Enquanto no passado os
diagnósticos eram reservados para doenças graves, hoje se faz diagnósticos em pessoas
sem sintoma qualquer, aquelas com a chamada "predisposição" ou que fazem parte
dos "grupos de risco".
Dois desenvolvimentos aceleram esse processo.
Primeiro, a tecnologia avançada permite aos médicos procurarem de modo invasivo por
aquilo que possa estar errado. Podemos detectar marcadores no sangue. Podemos direcionar
dispositivos de fibras-ópticas em qualquer orifício. E mais: varreduras através de
tomografias computadorizadas (CT scans), ultra-sonografias, ressonâncias magnéticas
(M.R.I.) e tomografias por emissão de positróns (PET scans) permitem aos médicos
definirem defeitos sutis no interior do corpo humano, tais como: artrites em pessoas com
dores nas juntas; lesões estomacais (úlceras, por exemplo) em pessoas sem nenhuma
queimação ou dor no estômago e câncer de próstata em milhões de pessoas as quais,
não fossem por esses exames, viveriam indiferentemente e sem serem pacientes com câncer.
Segundo, as regras estão mudando. Especialistas vêm expandindo constantemente os
conceitos de doença: parâmetros para diagnóstico de diabetes, hipertensão, osteoporose
e obesidade têm decrescido nos últimos anos. O critério para colesterol normal tem
caido múltiplas vezes. Com essas mudanças mais da metade da população pode ser
diagnosticada com doenças.
A maioria de nós acredita que todos esses diagnósticos adicionais só nos beneficiam. E
alguns realmente são benéficos. Mas, no final das contas, a lógica da detecção
antecipada é absurda. Pois, se mais da metade da população está doente, o que
significa ser normal?
Muitos de nós somos "predispostos a certas doenças" das quais, na realidade,
nunca adoeceremos, e, todos nós estamos em algum "grupo de risco".
A medicalização na vida diária não é menos problemática. Tomemos o caso de nossas
crianças, o que exatamente estamos fazendo a elas, sabendo que 40% dos frequentadores de
acampamentos de verão estão sob prescrição crônica de um ou mais medicamentos?
Ninguém tem o direito de transformar pessoas em pacientes, mesmo que brandamente. Há
prejuízos reais nisso . Simplesmente rotular pessoas como doentes pode fazê-las
sentirem-se ansiosas e vulneráveis particularmente com relação às crianças.
Mas o real problema com a epidemia de diagnóstico é que ela leva à epidemia de
tratamento. Não é todo o tratamento que produz benefícios, mas quase todos podem lesar.
Algumas vezes as lesões são conhecidas, mas muitas vezes as lesões provocadas por novas
terapias demoram anos para emergir após muitas pessoas terem sido expostas a essas
terapias.
Para as doenças severas, essas lesões são relativas dados os benefícios potenciais do
tratamento. Mas para aqueles que experimentam sintomas brandos, os malefícios se tornam
muito mais relevantes. E, para as muitas pessoas rotuladas de "predispostas a
doenças" ou em "grupos de risco", embora destinadas a permanecerem
saudáveis, tratamentos podem causar apenas lesões ou malefícios, nenhum bem.
O inimigo é o nosso grande falso
amigo
A epidemia de diagnósticos possui muitas causas. Mais diagnósticos
significa mais dinheiro para a indústria farmacêutica, hospitais, grupos de médicos e
advogados. Pesquisadores e até as organizações do Instituto Nacional (americano) da
Saúde orientadas para doenças asseguram sua estrutura (e financiamento) promovendo a
detecção de "suas" doenças. Preocupações médico-legais, da mesma forma,
alimentam a epidemia. No entanto, ao passo que uma falha por não diagnosticar pode
resultar numa ação judicial, não há risco de punição correspondente para o caso de
uma super exposição a diagnósticos.
Deste modo, o caminho de maior inclinação para nós, clínicos, é o de diagnosticar
deliberadamente mesmo que ocasionalmente nos questionemos se agindo assim realmente
ajudamos nossos pacientes.
Quanto mais nos falam que estamos doentes, menos ouvimos que estamos bem. As pessoas
precisam pensar seriamente sobre os benefícios e riscos da ampliação dos diagnósticos:
a principal questão que se propõe é ser ou não ser um paciente. E os médicos precisam
lembrar do valor de assegurar às pessoas que elas não são doentes.
Talvez alguém devesse começar a monitorar uma nova medição da saúde: a proporção da
população que não demanda cuidados médicos. E os Institutos Nacionais de Saúde
(americanos) poderiam propor um novo objetivo para pesquisadores da medicina: reduzir a
necessidade de serviços médicos, o contrário de aumentá-la.
Dr. Welch é autor de "Should
I Be Tested for Cancer? Maybe Not and Heres Why/ Devo Fazer Exame de Câncer? Talvez
não e Aqui Está a Razão" (University of California Press). Luís Peazê
está autorizado pelo próprio Dr. Welch a traduzir e publicar seus artigos e o livro
acima mencionado - ora oferecido a editoras brasileiras.
Dr. Schwartz e Dr. Woloshin são pesquisadores
seniores associados ao VA Outcomes Group em White River Junction, Vt.
Whats Making Us Sick Is an Epidemic of Diagnoses - New
York Times 03/26/2007 09:38 AM
Copyright 2007 The New York Times Company
Este artigo foi obtido
originariamente do Sr. Raul Magalhães, irmão do renomado ator Tarcisio Meira;
após o Natal de 2008, Luís Peazê visitara JJ Magalhães, comodoro do Tamoios Iate
Clube, Ubatuba, também irmão do famoso ator, e lá houve o encontro. Peazê presenteou o
Sr Raul com um Elo Perdido da Medicina e ganhou uma cópia xerox do Sr.
Raul, de uma tradução publicada no Jornal do CREMESP - Conselho Regional de Medicina de
SP. Ao retornar para a Bahia, Peazê procurou o artigo orignal no New York Times
e o Dr. Welch na Universidade da Califórnia e obteve a autorização do Dr. Welch para
publicar todos os seus artigos neste blog, assim como um de seus livros de enorme
repercussão internacional Should I Be Tested for Cancer? Maybe Not and
Heres Why/ Devo Fazer Exame de Câncer? Talvez não e Aqui Está a Razão"
(University of California Press).
Prefácio de O Elo Perdido da Medicina - O físico americano
Richard Feynman (1918-1988), laureado com o Nobel em 1956, disse em seu livro
Lectures On Physics, 1963, o seguinte: Não faz qualquer diferença o
quão inteligente você é, quem produziu tal pensamento, ou qual é o seu nome .... se
isso (o que você produz) estiver em desacordo com os processos da vida real, estará
errado. Isso resume tudo.
Poderíamos acrescentar que a realidade precede o conhecimento.
Transpondo essa concepção para a medicina, poderíamos dizer que toda a produção de
conhecimento que estivesse em desacordo com os princípios da vida, com as dinâmicas que
mantêm a vida, estaria errada... LEIA>>>
Fragmento do conteúdo do livro: (...) Deve-se ter respeito pelo
organismo humano, no sentido de querer entendê-lo. A pior ameaça que o nosso organismo
pode sofrer é uma intervenção externa em termos de supressão do próprio homem com
suas invenções...
A indústria da ´farmapoder` comprometida
com capitais de investimento...
Na verdade, ele está sempre lutando pela
vida nele contida. Aos médicos cabe desenvolver a consciência desse fato com humildade,
pois o organismo é mais sábio do que qualquer medicina.
Interpretar esse organismo incrivelmente
complexo, dinâmico e individualizado é o que se chamou de Ars, arte médica. Mas, em um determinado
momento histórico de nossa civilização, o médico perdeu contato com essa arte, rompeu
o elo principal, perdeu mesmo o interesse por ela, passou a dedicar-se, ou delegar seus
poderes em detrimento dos seus dons, à ciência. Coisa menor, ainda que fabulosa também...
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Blogue-se no Elo Perdido da Medicina>>>
Da mesma forma que o médico deveria
maravilhar-se diante de cada paciente (indivíduo), uma maravilha da natureza, cada um de
nós deveria ter a noção da mplexidade espetacular que somos enquanto seres vivos
diferenciados. Um princípio de arte e obra divina.
Aqui são
abordadas esta ligação íntima, indissociável, do ser humano com a natureza, e a
importância dessa verdade, não só na terapêutica, mas, em tudo o que envolve a
saúde das pessoas.
A história
da medicina, sua forte herança ecológica, sua dependência das forças vitais naturais;
a medicina oficial
(da beira do leito ao consultório ao
hospital) versus a medicina integral (as várias medicinas praticadas na nossa
civilização e nas antigas); os mecanismos e avanços sociais e tecnológicos (bem ou
mal) apropriados pelo establishment médico; eis os caminhos para O Elo Perdido da (arte médica) Medicina.
Luís Peazê Verbete na Enciclopédia Brasileira
de Literatura: Peazê, Luís, cronista, romancista, tradutor e jornalista (MTB 24338). Foi
analista de sistemas, empresário no Brasil, Estados Unidos e Austrália, e publicitário
premiado com medalhas de ouro, prata e bronze pela Escola Superior de Propaganda e
Marketing. Membro da Hemingway Society USA, tradutor do romance Por Quem os Sinos Dobram de Ernest Hemingway (Bertrand, 2004). Um
dos títulos do autor pela Imago Editora: Crônico uma aventura
diária Nas Esquinas do Rio. www.luispeaze.com
O Elo Perdido da Medicina poderia ser resumido no primeiro mandamento
de Hipócrates, a que todo o formando jura honrar por toda a sua vida profissional de
médico: primeiro não lesar. Só isso, contudo, ainda que espetacularmente
necessário, não tem sido suficiente.
A terapêutica, a
cura e o próprio relacionamento médico-paciente-arcabouço do sistema de saúde
(pública e privada) estão tão longe do ideal quanto mais longe estiverem desse
princípio básico. Daí,médico, leigo e profissionais do meio, o conteúdo deste tomo em
suas mãos...
Para o leigo, porque sofre da tendência de
entregar ao médico toda a responsabilidade (e poder) pela cura de sua enfermidade ou
mal-estar. Para o médico, porque tende a ceder à medicina oficializada pelo sistema,
pelo estado, pelas engrenagens mais duras da sociedade globalizada e da indústria
do farma poder dependentes do capital.
Dr. Eduardo Almeida Graduado (1977) pela Faculdade de
Medicina da Universidade Federal Fluminense UFF. Professor Adjunto do Instituto
Saúde da Comunidade da UFF. Mestre em Medicina Social (1988) e Doutor (PhD) em Saúde
Coletiva pela UERJ (1996). Criou e dirigiu por 15 anos Unidade Docente de Posto de Saúde,
voltada para a formação em medicina geral e comunitária. Coordenador (1992-94) do
convênio Brasil-China de intercâmbio em Medicina Tradicional Chinesa. Adepto da medicina
biológica praticada na Alemanha e nos EUA. Autor do livro: As Razões da Terapêutica
Racionalismo e Empirismo na Medicina. EDUFF, 2002. www.arzt.com.br
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