Campanha pela Tarifa Livro de Envio de Livros pelos Correios
Iniciativa lançada em 07/09/2006 por Luís Peazê e Clínica Literária
Moacy Scliar:"......"
Estas são as marcas oficiais dos CORREIOS: Você sabia que uma carta pessoal, escrita à mão livre E na tradicional folha de papel pautado, custa apenas R$0,01 se escrito na frente do envelope, padrão dos correios, CARTA PESSOAL?
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Tem Que ser Durinho (crônica) Encontrei um ermitão muma ilha, a 70 milhas da costa leste da Austrália: Andy Martin, apaixonado por livros, e louco. Disse-me que estava reescrevendo a Bíblia, para provar que o Judeu é o povo escolhido de Deus. Eu acabara de chegar, após dias no mar sem ver terra, discutíamos o sexo dos anjos quando ele completamente irado projeta através da janela o tijolo A Origem do Homem, de Charles Darwin, provocando um escarcéu das galinhas no quintal. Depois do bate-papo sui generis levantei âncora, rumo à civilização. Na bagagem mais um amigo e um saco de livros para colocar no correio para Andy.
Lá na Austrália, assim como nos Estados Unidos, livros pelo correio têm uma tarifa diferenciada, quase nada em relação a outras encomendas. Andy recebia livros de malucos como ele, e os que não serviam para a sua pesquisa sobre a Bíblia, doava para bibliotecas de todo o país. Ou seja, quase todos os livros que chegavam a Ilha Piercy continuavam sua longa e paciente travessia até uma biblioteca. Fiquei orgulhoso por estar participando de uma doação de livros, que teria começado meio ano antes, e de estar fazendo parte de uma história muito doida. Agora, doida mesmo é a língua que se fala no Brasil. Já escrevera Nas Esquinas do Rio sobre o indefectível Cadiquê, arrebatador quando se adiciona um Aí na frente. - Aí, cadiquê?! Serve como pergunta, interjeição, truque para chamar a atenção num balcão de carnes de supermercado, perguntar repdinho para o cobrador se o ônibus passa no Buraco, ali em Bonsucesso; multifuncional Andando pelo Rio, porém, descobre-se facilmente que a comunicação verbal transcende ao fenômeno da gíria, da morfologia e sintaxe, extrapola os limites da gramática e da própria lingüística, me arrisco a dizer que chega a definir a filosofia do povo, lato sensu. Também já falei do hábito de se soltar frases no ar, em ambientes públicos, para ver quem as intercepta e entabula uma conversa. Mas há algo mais grave ainda, ou curioso, pois parece que as pessoas forjam uma linguagem falada e comportamental como escapismo ao poder, opressão econômica e contínua desobediência civil instituída. Elas criam assim um paradoxo, realimentam um ciclo vicioso. É claro, não sendo sociólogo eu posso cometer o pecado dessas afirmações, mas duvide de mim se for capaz. Experimente pedir uma informação numa loja, por telefone ou pessoalmente e esforce-se para utilizar corretamente o português. Quanto mais correto, menos êxito você terá. Mas há casos interessantes para lingüistas lamberem os beiços. São as expressões que o povo cria quando há um balcão entre uma pessoa e outra. Outro dia entrei numa agência de correios para enviar dois livros para São Paulo. Não, no Brasil, com mais da metade da população tão pobre quanto a mais pobre da África e qualquer outro país pobre, onde o governo afirma que vai acabar com o analfabetismo em cinco anos, enviar livros pelo correio custa relativamente o mesmo que enviar ouro e telefone celular. Não, a tarifa de impresso nem sempre pode ser aplicada, ou você terá que enviar um livro quase à mostra, sujeito a danificação no transporte e manipulação. Ao entrar naquela agência dos Correio, em Copacabana, tive a leviana constatação pseudo-sociológica acima. Perguntei quanto custava o embrulho de dois livros que ofereci a atendente do correio, e ouvi dela, por sobre a voz da gerente que aproximou-se vindo não sei de onde, que se fosse durinho poderia ir como encomenda normal do contrário teria que ir como Sedex. Durinho? Perguntei, surpreso. É, assim na caixinha. Que caixinha, envio livros do mesmo modo frequentemente? Aí a gerente já estava interagindo e pessoas da fila entraram na conversa. Ao tomar a Bíblia na ponta da língua, onde no princípio era o verbo, acho que ainda não chegamos no começo. Desculpe-me Andy, mas quando me olho no espelho uma pergunta reincide na mente: espelho, espelho meu, existe alguém mais símio do que eu?
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