barracl.jpg (30949 bytes)

 

Mídia e Crítica
A gaivota bicou um peixe

Luís Peazê
Texto utilizado pela Dra. Zélia Adghirni na Oficina de crítica literária na Feira do Livro de Porto Alegre
*

Freud escandalizou um grupo de senhoras numa palestra ao afirmar que o animal racional se diferenciou do animal irracional quando passou a ofender intelectualmente o seu semelhante, e deu exemplos in loco.

Se você aceitar a associação que eu faço do pensamento de Freud com a crítica literária, neste contexto da mídia, então acabamos de presenciar uma bofetada e o início de uma escaramuça, intelectual, ou a indiferença recíproca, o que dá no mesmo. Caso contrário tudo o mais a seguir é o contraponto impróprio, e talvez útil por isso mesmo. Basta ler ao inverso, nas entre linhas, e ler o que estiver subjacente também – em suma, sofra, leia fazendo esse esforço brutal, pelo caminho mais longo, para chegar ao mesmo lugar – que não deixa de ser uma definição particular do que é a crítica.

Antes de mais nada tiremos o gesso do cérebro, pois, tirando Machado de Assis, que era um crítico antes de ser escritor, que não errava a toa, não escrevemos nem lemos com uma receita de bolo ao lado, ou uma tese premiada de doutorado em semiótica, ou com sorte em crítica literária, como pano de fundo mental. Temos algo que quer parir de dentro de nossas mentes ou uma sede de ler por motivos diversos, e pronto. Depois do verbo exposto, feito um osso quebrado ou pedra bruta, vamos limpando o sangue residual, enfaixando, colocando talas, ou polindo, mas jamais ficará o que era antes de nascer. Nunca o saberemos posto que todos os textos são incompletos. Exemplos? Se a biblioteca de Alexandria tivesse sido concluída conforme o sonho original, seu acervo seriam os exemplos. Aceito ilações e ensaio eu mesmo uma crítica ao meu próprio argumento, tomando emprestada uma frase de Fernando Pessoa: "diante do cais deitei léguas dentro em pensamento". É uma frase completa, ou não é? É, mas não passa de uma frase, e precisamos mais Fernandos Pessoas escrevendo sem parar, aliás escrever sem parar é o único jeito de vencer a crítica. Pois parece que ela só existe para anotar erros – e o duelo saudável, entre o crítico e o escritor, aonde fica?

Mas e o jornalismo pelo menos permite esta disputa?

Tomando emprestada uma metáfora empregada por Walter Galvani sobre a crônica, seu despertador matutino, vejo a mídia e a crítica como a gaivota que bicou um peixe. Na crônica a sua comparação é perfeita, com o vôo da gaivota, rente a água e depois mais alto, mais alto, e é aí que o cronista se revela, gênio ou desastrado.

Quanto à crítica, na mídia, ela começa como a gaivota graciosa que dará um show ao navegante que passa, mas a pilha de exemplares que chega às redações é monstruosa – só o Grupo Record envia para o mercado em média 50 títulos por mês, nem todos romances, nem todos passíveis de crítica literária, mas imaginem a esteira de sugestões de pauta para a editoria de cadernos literários, não mais do que um Verso & Prosa, um Idéias e vai minguando por aí abaixo as opções – mais adiante retornamos a este plano de vôo – então a gaivota começa a perder a pose e se transforma num albatroz que ataca outra ave de porte menor, mas nem por isso inferior, vai-lhe bicando, fazendo-a voar cada vez mais alto com o peixe no bico, esta por sua vez vai engolindo como pode o pobre peixe e levando bicadas e mais bicadas, até que a ave predadora lhe desfere um golpe fatal e ela regurgita tudo o que comera, a predadora por sua vez voa para baixo de bico aberto aparando o seu alimento já meio digerido.

Só mesmo quem tem coragem, ou tempo, para, num cais, deitado léguas em pensamento, ou num barco em alto mar, pode apreciar esse balé sórdido que a natureza proporciona. A bordo da Clínica Literária vejo essa luta diariamente.

Agora, retornando àquele plano de vôo mais específico, o New York Times sai aos domingos com o Bookreview com 96 páginas, 12 cadernos, o equivalente a quatro meses de trabalho de nossas editorias de cadernos literários que preenchem suas formas na Quarta-feira para que o encarte esteja pronto para rodar no Sábado junto com a edição do jornalão de Domingo. Em cada caderninho temos dois, com sorte três, textos de crítica, se considerarmos os híbridos de resenha encomendada temperadas com bafejos de crítica literária. Fora isto, as páginas são cobertas de tintas para preencher os monótonos e mesmo assim indutivos quadros dos mais vendidos, sinônimo de pilhas nas portas das livrarias, as capinhas de lançamentos, anúncios, pois o pessoal da área comercial não perde espaço, e nada mais. Depois disso o que dizer sobre a crítica na mídia.

Deixo aqui uma sugestão de pauta: com o advento da TV diversificada em inumeráveis canais a cabo, mais os aterrorizantes canais abertos com a grade infestada de material abaixo da crítica, e a Internet, explorando e como o fenômeno da interatividade instantânea, não seria a hora do jornalismo chamar para si uma parcela da crítica literária na forma de jornalismo interpretativo, voando feito uma gaivota sobre o cardume de títulos que vão e vêm com as marés de lançamentos? Vá lá, jornalismo opinativo também, por que não? Inserindo entrevistas honestas, que não puramente afaguem o ego do escritor – deixemos que ele cumpra o seu papel na cadeia alimentar.

Talvez este novo cenário de carnificina exposta contribua para os críticos literários lá da academia beberem inspiração nesta luta sangrenta, injusta. A propósito, esses críticos que habitam as salas das universidades deveriam colocar os pés mais na areia, buscar informação na pesca artesanal, ora, a alta tecnologia do texto não tem graça nenhuma.

Por fim, o crítico e o jornalista não são ditos escravos das letras com aspiração de serem um dia escritores?

Serviço: 1 - esgotei o espaço de 800 palavras para este texto, mas tentei seguir fielmente os seis mandamentos de Calvino, lembrados por Walter Galvani: leveza (falhei), rapidez (fui bem), visibilidade e consistência (só os críticos poderão dizer), e esqueci, não por acaso, da exatidão e da multiplicidade. 2 – a frase de Freud é verdadeira, exceto a invenção deste articulista de que ele a pronunciara diante de uma platéia escandalizando as senhoras. Cuidado, nem tudo o que se escreve, e imprime, é verdade. E hoje em dia, na Internet, este risco é ainda maior.

Luís Peazê dirige a Clínica Literária - este texto não necessariamente expressa a opinião da Dra. Zélia Adghirni, embora a messma tenha utilizado-o na Oficina de Crítica Literária e Mídia, realizada na Feira do Livro de Porto Alegre, 2003.


zelia.jpg (3134 bytes)
Ampliar a Foto
Oficina de crítica literária com a
Dra. Zélia Adghirni

(Dias 10 e 11/11) na Feira do Livro de Porto Alegre

A Dra. Zélia Adghirni é Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Doutora em Ciências da Comunicação e Informação pela Universidade de Grenoble (França). Pesquisadora de Jornalismo e novas tecnologias.

Na oficina, Zélia Adghirni trabalha com a leitura e a produção de textos de crítica literária através da mídia impressa. Serão avaliados suplementos dos jornais nacionais Folha de São Paulo e O Globo, e da publicação regional Zero Hora. O objetivo é debater e refletir sobre a crítica literária na mídia e estimular a produção de exercícios de crítica a partir dos textos trabalhados durante a oficina.


Copyright © 2002 Clínica Literária Consultoria, Planejamento e Notícias Ltda.
Termos e condições de uso - Política de reciprocidade - Correções - Contato